O Retorno de Jesus, عليه السلم

O Retorno de Jesus, عليه السلم

Uma única elevação de Jesus aos céus

A questão levantada é se Jesus, que a paz esteja sobre ele, teria sido elevado aos céus duas vezes: uma primeira, em que teria voltado à terra para consolar sua mãe e falar aos judeus, e uma segunda e definitiva. A crença correta, segundo o Islam, é que houve apenas uma elevação, no momento em que os judeus conspiraram para matá‑lo. O Alcorão menciona claramente essa ascensão única, sem qualquer referência a um retorno intermediário, e quem afirma o contrário precisa trazer prova textual autêntica, o que não existe.

Allah diz:

“E por dizerem: ‘Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, Mensageiro de Allah’. Mas eles não o mataram nem o crucificaram, mas pareceu‑lhes assim. E, por certo, os que divergem a seu respeito estão em dúvida quanto a isso. Não têm disso conhecimento algum, seguem apenas a conjectura. E, com certeza, não o mataram. Pelo contrário, Allah o elevou até Si. E Allah é Todo‑Poderoso, Sábio.” (Surah An‑Nissa’, versículos 157–158) (4:157–158)​

Aqui, Allah nega de forma enfática a morte e a crucificação de Jesus e afirma, em seguida, que o elevou até Si. Em outro versículo, relacionado ao mesmo episódio, lemos:

“(Recorda‑te) de quando Allah disse: ‘Ó Jesus, por certo que porei termo à tua estada na terra, elevar‑te‑ei até Mim, purificar‑te‑ei dos que renegam a fé e porei aqueles que te seguem acima dos que renegam a fé, até ao Dia da Ressurreição. Logo, a Mim será o vosso retorno e, então, julgarei entre vós, acerca do que, a respeito disso, discordáveis’.” (Surah Al‑Imran, versículo 55) (3:55)​

Não há, nesses textos, qualquer indicação de que Jesus tenha sido enviado de volta logo após essa elevação. Por isso, a afirmação de duas elevações carece de base; é, na melhor hipótese, relato frágil ou lenda sem suporte no Alcorão ou na Sunnah autêntica.


O significado de “tawaffī” e a relação com sono e morte

A expressão “porei termo à tua estada na terra” (mutawaffīka), em 3:55, gerou dúvidas em algumas pessoas, por causa do uso de “tawaffī” em outros contextos para indicar morte. Exegetas como Ibn Jarir at‑Tabari, Ibn Kathir e outros explicam que, nesse versículo, o termo está ligado ao sentido de “recolher completamente”, podendo referir‑se ao sono ou à retirada da pessoa de um lugar, não necessariamente à morte definitiva. O próprio Alcorão utiliza “tawaffī” para o sono:

“Ele é Quem vos recolhe, durante o sono, e sabe o que cometestes durante o dia. Em seguida, ressuscita‑vos, nele, para que se cumpra um prazo determinado. Em seguida, a Ele será o vosso retorno; então, informar‑vos‑á do que fazíeis.” (Surah Al‑An‘am, versículo 60) (6:60)

E também:

“Allah recolhe as almas, no momento da morte, e as que não morrem, no seu sono. E retém aquelas sobre as quais decidiu a morte, e devolve as outras, até um termo designado. Por certo, nisso há sinais para um povo que reflete.” (Surah Az‑Zumar, versículo 42) (39:42)

Daí, muitos intérpretes entenderem que “mutawaffīka” em 3:55 significa: “colocarei termo à tua presença entre o povo, recolher‑te‑ei para Mim”, seja por um sono especial, seja por uma retirada completa sem morte. O foco do versículo não é descrever a mecânica exata, mas afirmar que Allah tomou Jesus de entre os incrédulos, purificando‑o de suas tramas. O Mensageiro de Allah ﷺ reforçava essa associação entre sono e “pequena morte” ao dizer, ao despertar:

“Louvado seja Allah que nos fez retornar à vida, depois de nos ter dado a morte, e para Ele será o retorno.” (Sahih al‑Bukhari; Sahih Muslim)

Assim, o uso de “tawaffī” em 3:55 não significa que Jesus morreu e ressuscitou em seguida, mas que Allah pôs fim à sua estada entre o povo e o elevou, preservando‑o.


Jesus não foi morto, voltará no fim dos tempos

O consenso de Ahlus‑Sunnah é que Jesus, que a paz esteja sobre ele, não foi morto, mas elevado, e que voltará no fim dos tempos, antes do Dia do Juízo, como um dos maiores sinais da Hora. Nessa volta futura, ele descerá à terra, quebrará a cruz, matará os porcos, abolirá a jizya e governará com justiça, aplicando a Shari‘ah de Muhammad ﷺ. Ele viverá o tempo que Allah determinar, morrerá como todo ser humano e os muçulmanos farão sobre ele a oração fúnebre.​

Entre os textos autênticos, Abu Hurairah narrou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse:

“Por Aquele em Cuja mão está minha alma! Em breve descerá entre vós o filho de Maria como juiz justo. Ele quebrará a cruz, matará os porcos e abolirá a jizya; e a riqueza será tão abundante que ninguém a aceitará.” (Sahih Muslim)​

Em outro hadith, o Profeta ﷺ disse:

“O que fareis quando o filho de Maria descer entre vós e vos liderar como um de vós?” (Sahih Muslim)

Esses textos mostram que o retorno de Jesus é um evento futuro, único e ligado aos sinais maiores da Hora, não um retorno breve logo após a tentativa de crucificação. Seu descer no fim dos tempos não contradiz o fato de Muhammad ﷺ ser o último profeta, pois Jesus não trará nova revelação, nem nova lei; regerá de acordo com o Alcorão e a Sunnah.


Exegese de Ibn Kathir e o versículo “antes de sua morte”

Ibn Kathir, ao comentar passagens relacionadas a Jesus e ao Povo do Livro, menciona um versículo que diz:

“E não haverá, entre o povo do Livro, nenhum que não creia nele, antes de sua morte; e no Dia da Ressurreição ele será testemunha contra eles.” (Surah An‑Nissa’, versículo 159) (4:159)​

Ele explica que o pronome em “sua morte” refere‑se a Jesus, que a paz esteja sobre ele, e que isso significa que todas as pessoas do Povo do Livro acabarão crendo nele de forma correta, como servo e mensageiro de Allah, antes que ele morra, quando retornar à terra. Naquele tempo, judeus e cristãos que estiverem vivos verão sua descida, testemunharão a correção que ele fará em suas crenças (rejeitando a divinização, a trindade e a cruz) e alguns se submeterão ao Islam, enquanto outros serão destruídos.

Ibn Kathir também descreve como, após a elevação de Jesus, seus seguidores se dividiram em grupos: alguns mantiveram a crença correta, vendo‑o como servo e mensageiro; outros exageraram, chamando‑o “filho de Allah” ou “Allah”; outros o consideraram uma pessoa da trindade.

Ao longo de séculos, especialmente sob o imperador Constantino, a religião de Jesus foi alterada, com acréscimos e omissões, como a autorização do consumo de carne de porco, mudança de direção de oração, construção exuberante de templos e alterações em períodos de jejum. Allah relatou e refutou essas crenças no Alcorão, mas a distorção se enraizou. O retorno de Jesus, portanto, terá também a função de desmentir, na prática, essas deturpações históricas.​


Refutando a ideia de duas elevações

Diante de tudo isso, a ideia de que Jesus teria sido elevado, depois descido brevemente para consolar sua mãe e comunicar uma notícia aos judeus, e então elevado novamente, não encontra apoio nos textos revelados. O Alcorão só menciona uma elevação, em contexto claro de negação da morte e da crucificação. A Sunnah autêntica trata apenas de sua elevação passada e de sua descida futura, como sinal da Hora, sem mencionar qualquer retorno intermediário entre esses dois momentos.

Em metodologia islâmica, não se aceita afirmar sobre os profetas algo que não tenha prova clara de Alcorão ou hadith autêntico. Relatos tardios, lendas ou interpretações livres não podem competir com textos revelados. Por isso, estudiosos como Sheikh Sa‘d al‑Humayd e outros, ao analisarem essa alegação, pedem que seus proponentes apresentem evidência sólida; como isso não existe, conclui‑se que tal história é infundada.

A crença correta é simples e bem estabelecida: Jesus foi elevado uma vez, permanece vivo por vontade de Allah, voltará no fim dos tempos, cumprirá sua missão final na terra como servo de Allah e seguidor da lei de Muhammad ﷺ, e então morrerá uma morte humana, após a qual a sequência dos eventos do fim se encaminhará para o Juízo Final.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
  • Surah An‑Nissa’ 4:157–159 e Surah Al‑Imran 3:55, sobre a negação da crucificação, a elevação de Jesus e a crença do Povo do Livro antes de sua morte.​
  • Surah Al‑An‘am 6:60 e Surah Az‑Zumar 39:42, sobre “tawaffī” ligado ao sono e ao recolhimento das almas.
  • Sahih al‑Bukhari e Sahih Muslim, hadith sobre o dhikr ao despertar (“que nos fez retornar à vida depois de nos ter dado a morte”) e hadiths sobre a descida de Jesus como juiz justo, quebrando a cruz e matando os porcos.​
  • Tafsir Ibn Kathir, comentários sobre 3:55, 4:157–159 e passagens relacionadas à elevação de Jesus, à divisão dos cristãos após sua retirada e às alterações introduzidas por Constantino.
  • Fatwas e artigos de IslamQA e outros centros de da‘wah, como Sheikh Sa‘d al‑Humayd e estudos sobre “Jesus no Islam” e “o retorno de Jesus no fim dos tempos”, que consolidam a posição de Ahlus‑Sunnah sobre a única elevação, a negação da crucificação e a descida futura.​

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