O retorno de Jesus علیه السلام e o Último Profeta ﷺ

O retorno de Jesus علیه السلام e o Último Profeta ﷺ

Muhammad ﷺ como selo dos profetas

A questão central é: se Jesus, que a paz esteja sobre ele, retornará ao fim dos tempos, isso não significaria que Muhammad ﷺ não é o último profeta? A crença islâmica responde com clareza: não há qualquer contradição. O Alcorão afirma explicitamente que Muhammad ﷺ é o Mensageiro de Allah e o último profeta, e a Sunnah reforça essa verdade em textos autênticos. O retorno de Jesus faz parte dos sinais do Fim dos Tempos, mas não anula o fato de que a cadeia de profetas foi encerrada com Muhammad ﷺ.

Allah diz:

“Muhammad não é o pai de homem algum, dentre vós, mas é o Mensageiro de Allah e o último dos profetas. E Allah, de todas as coisas, é Onisciente.” (Surah Al‑Ahzab, versículo 40) (33:40)

Neste versículo, o Alcorão usa a expressão “khatam an‑nabiyyin” (selo dos profetas), indicando encerramento definitivo da profecia. A própria Sunnah explica isso de forma ainda mais explícita. Em um hadith autêntico, o Profeta ﷺ disse:

“A cadeia de mensageiros e profetas ocorreu e terminou. Não haverá mensageiro nem profeta depois de mim.” (relatado por Ahmad e at‑Tirmidhi; classificado como hasan sahih por al‑Albani)​

Sheikh al‑Albani, em “Irwa’ al‑Ghalil” (nº 2473), ao comentar esse hadith, cita que al‑Hakim o considerou autêntico segundo os critérios de Muslim, e adh‑Dhahabi concordou. Assim, o princípio está firmemente estabelecido: não surgirá, após Muhammad ﷺ, nenhum novo profeta, nenhuma nova revelação nem nova lei divina. O retorno de Jesus deve ser entendido dentro desse quadro já selado.


A posição cronológica de Jesus ‘alaihissalam

O primeiro ponto de resposta é de ordem simples e cronológica. Jesus, que a paz esteja sobre ele, foi enviado como profeta cerca de seis séculos antes de Muhammad ﷺ. Sua ascensão aos céus viva, sua permanência nesse estado e seu retorno futuro não alteram o fato de que sua missão profética original veio antes da missão de Muhammad ﷺ. O último enviado, em termos de envio de nova revelação e lei, é Muhammad ﷺ; a existência prolongada ou retorno posterior de um profeta anterior não o transforma em “último” em termos de envio.

Assim, mesmo que Jesus retorne fisicamente à Terra depois do falecimento de Muhammad ﷺ, ele não deixa de ser, em essência, um profeta anterior. Não trará nova mensagem, não inaugurará nova dispensação divina, nem ab-rogará a Shari‘ah de Muhammad ﷺ. O que define o “último profeta” não é apenas a ordem cronológica de presença física na Terra, mas sim a ordem de envio de uma missão profética e de uma revelação legislativa completa. Sob esse aspecto, toda a cadeia de profetas culmina e se fecha com Muhammad ﷺ, e a volta de Jesus é um prolongamento de sua missão anterior, agora subordinada à lei final.


Jesus voltará como juiz da Ummah de Muhammad ﷺ

O segundo ponto fundamental é a natureza da volta de Jesus, que a paz esteja sobre ele. Os textos autênticos da Sunnah deixam claro que ele descerá no fim dos tempos não como profeta trazendo nova Shari‘ah, mas como governante justo (hakim) e juiz entre os governantes desta Ummah, regendo pela lei revelada a Muhammad ﷺ. Não exercerá novamente a função de profeta legislador, mas atuará como seguidor (tabi‘) do Mensageiro final.

O Imam an‑Nawawi, comentando hadiths de Sahih Muslim, afirmou:

“Os estudiosos disseram: neste hadith há prova de que, quando Jesus, filho de Maria, que a paz esteja sobre ele, descer à Terra, nos últimos tempos, descerá como governante e juiz entre os governantes desta Ummah, e julgará de acordo com a Shari‘ah do nosso Profeta Muhammad ﷺ. Ele não descerá como profeta.” (Sharh Sahih Muslim, comentário ao hadith sobre as virtudes dos Companheiros)​

Portanto, Jesus não recomeçará uma missão profética independente. Ele integrará a comunidade de Muhammad ﷺ, aplicará o Alcorão e a Sunnah e participará dos sinais do Fim dos Tempos como servo de Allah, sem alterar a doutrina fundamental de que a mensagem final já foi enviada e completada. Essa compreensão remove a suposta contradição: a profecia terminou com Muhammad ﷺ, mas um profeta anterior pode retornar como seguidor dele, sem trazer nova profecia.


Hadiths sobre a descida de Jesus e sua função no fim dos tempos

Os hadiths sahih detalham o papel de Jesus em sua segunda vinda. Em Sahih Muslim, por exemplo, Abu Hurairah relatou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse:

“Juro por Aquele em Cuja mão está minha alma! Em breve descerá entre vós o filho de Maria como juiz justo. Ele quebrará a cruz, matará os porcos, abolirá a jizya, e a riqueza será tão abundante que ninguém a aceitará.” (Sahih Muslim, Kitab al‑Iman)​

Neste hadith, Jesus é descrito como “juiz justo”, alguém que corrigirá distorções na crença cristã (quebra da cruz, fim do culto à cruz), eliminará a criação de porcos (haram) e abolirá a jizya, porque, sob seu governo, o Islam prevalecerá de tal maneira que não restarão povos pagãos pagando tributo sob pacto; a humanidade se dividirá, essencialmente, entre crentes e hipócritas. Em outra narração, também em Muslim, o Profeta ﷺ disse:

“O que fareis quando o filho de Maria descer entre vós e vos liderar como um de vós?” Abu Hurairah disse que Ibn Abi Dhi’b comentou: “Ele vos liderará conforme o Livro do vosso Senhor e a Sunnah do vosso Mensageiro.” (Sahih Muslim)​

Esses textos reforçam dois pontos: Jesus virá “entre vós”, isto é, dentro da Ummah de Muhammad ﷺ, não à parte dela; e liderará de acordo com o Alcorão e a Sunnah, não com uma revelação separada. Ele será, portanto, um líder da comunidade muçulmana, não fundador de uma nova comunidade. Assim, sua descida confirma, em vez de negar, a universalidade e a permanência da mensagem de Muhammad ﷺ.


A conclusão: nenhum novo profeta depois de Muhammad ﷺ

Diante disso, a conclusão dos sábios de Ahlus‑Sunnah é clara: não existe contradição entre crer que Muhammad ﷺ é o último profeta e crer no retorno de Jesus, que a paz esteja sobre ele. A profecia, enquanto envio de mensageiros com novas revelações e leis, foi encerrada com Muhammad ﷺ, como afirma o versículo 33:40 e o hadith “não haverá profeta nem mensageiro depois de mim”. Jesus pertence a essa cadeia já concluída e retornará como um de seus membros, não como acréscimo à cadeia.

Ao descer, Jesus confirmará a verdade do Islam, corrigirá exageros cristãos, derrotará o falso messias (Dajjal) e governará com justiça, aplicando a Shari‘ah de Muhammad ﷺ. Isso reforça o status de Muhammad ﷺ como selo dos profetas e mostra a harmonia entre as mensagens divinas, não uma competição entre elas. Quem tenta usar o retorno de Jesus como argumento contra a finalidade da profecia de Muhammad ﷺ incorre em má compreensão dos textos e da própria cronologia das revelações. A crença correta integra ambos os elementos: Muhammad ﷺ como último profeta, e Jesus, que a paz esteja sobre ele, como profeta anterior que retornará para servir à mensagem final.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
  • Surah Al‑Ahzab 33:40, sobre Muhammad ﷺ como Mensageiro de Allah e último dos profetas.
  • Sahih Muslim, Kitab al‑Iman e Kitab as‑Salat, hadiths sobre a descida de Jesus, quebra da cruz, morte dos porcos e liderança conforme o Alcorão e a Sunnah.
  • Sunan at‑Tirmidhi e Musnad Ahmad, hadith “a cadeia de mensageiros e profetas ocorreu e terminou; não haverá mensageiro nem profeta depois de mim”, classificado como hasan sahih por al‑Albani em “Irwa’ al‑Ghalil”.​
  • Imam an‑Nawawi, “Sharh Sahih Muslim”, comentário sobre os hadiths da descida de Jesus e sua função como juiz regendo pela Shari‘ah de Muhammad ﷺ.
  • Artigos e fatwas de estudiosos contemporâneos, como Bassam Zawadi e IslamQA.info, sobre o selo da profecia, a volta de Jesus e a compatibilidade entre ambos os conceitos dentro da ‘aqidah islâmica.​

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