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A visão humana das montanhas na época de Muhammad ﷺ
Podemos muito bem imaginar que, a um beduíno do deserto, uma montanha não parecesse ser muito mais do que uma inconveniente “marca de relevo” sobre a face da Terra. Na realidade, para a maioria das pessoas comuns da época de Muhammad ﷺ, especialmente caravaneiros, agricultores e pastores, as montanhas representavam, sobretudo, obstáculos físicos. Era preciso contorná-las com a caravana, o que alongava as viagens, ou subir encostas íngremes e rochosas para recuperar ovelhas desgarradas, o que aumentava o cansaço e o risco. Para quem vivia em terras áridas, a montanha podia ainda ocultar rotas ou acumular perigos, mais do que oferecer algum benefício óbvio.
Mesmo hoje, quando a geologia já se desenvolveu como ciência e o turismo de natureza popularizou o encanto das paisagens montanhosas, muitas pessoas enxergam nas montanhas apenas lazer: uma caminhada recreativa, um piquenique agradável, uma esquiada emocionante. Essa forma de apreciação, embora legítima, é recente e culturalmente determinada.
Para o homem simples do deserto, acostumado às planícies e ao horizonte aberto, as montanhas significavam mais desafios do que comodidades. Seria natural, portanto, que alguém daquela época, se refletisse por conta própria, não encontrasse palavras especialmente elogiosas para descrever montanhas, nem intuição de alguma função global profunda que elas pudessem exercer para o planeta como um todo.
Esse contexto torna ainda mais notável o fato de o Alcorão se referir repetidamente às montanhas com expressões que sugerem propósito, firmeza e benefício. O texto não as descreve apenas como paisagem, mas como elementos com função na ordem criada.
A questão que se coloca é: de onde viria, no século VII, uma descrição tão específica sobre a natureza estrutural das montanhas, em um meio social que, por si só, não tinha condições de formular hipóteses geológicas complexas? Para o muçulmano, a resposta está na origem divina do Alcorão, que convida o ser humano a refletir sobre sinais na criação, mesmo quando suas causas profundas só viriam a ser melhor compreendidas séculos depois.
Comparação a “raízes”: o que diz a geologia moderna
Só recentemente a geologia moderna passou a reconhecer, de forma clara, a importância das montanhas para a estabilidade da crosta terrestre. Um dos conceitos-chave é o de isostasia: a ideia de que as grandes massas da crosta “flutuam” sobre o manto mais plástico em equilíbrio, de modo semelhante a blocos de gelo num líquido.
As grandes cadeias de montanhas, como os Alpes ou o Himalaia, não são apenas saliências superficiais; possuem extensões profundas em direção ao interior da Terra, chamadas, em linguagem geológica, de “raízes”. Estudos sísmicos e dados gravitacionais confirmaram que uma montanha com alguns milhares de metros acima da superfície pode ter raízes que se estendem por dezenas de quilômetros para baixo.
Livros de referência em ciência da Terra, como as obras de Frank Press ou Tarbuck e Lutgens, explicam que as montanhas se comportam, estruturalmente, como enormes “estacas” cravadas na crosta. A parte visível corresponde apenas a uma fração de sua extensão total, enquanto a maior porção permanece oculta, mergulhada na astenosfera mais plástica.
O olho humano vê apenas a “cabeça” da montanha, assim como se vê somente a ponta de um prego que sobressai de um pedaço de madeira, ignorando o eixo metálico profundo que o sustenta. Em termos simples, poderíamos comparar as montanhas a estacas de uma tenda: firmemente cravadas no solo, com boa parte de seu comprimento invisível, garantindo a estabilidade da estrutura acima.
Esse entendimento é relativamente recente na história da ciência. A formulação da ideia de raízes profundas das montanhas, em moldes modernos, remonta ao século XIX, tendo sido desenvolvida e aperfeiçoada com o avanço dos estudos de sismologia e tectônica de placas ao longo do século XX.
Em contraste, por muitos séculos, a maioria dos textos descritivos tratava apenas da parte exposta das montanhas, por ser a única acessível à observação direta. A confirmação dessas raízes profundas exigiu medições indiretas sofisticadas e interpretação de dados que simplesmente não estavam disponíveis nas sociedades antigas.
“Estacas” na terra: o versículo de An-Naba’
É nesse ponto que a descrição do Alcorão sobre as montanhas se destaca de forma surpreendente. Em Surah An-Naba’, Allah faz uma série de perguntas retóricas que chamam a atenção do ser humano para aspectos fundamentais da criação. Entre essas perguntas, encontramos:
“Porventura, não fizemos a terra leito? E, as montanhas, estacas?” (Surah An-Naba’, versículos 6–7)
A palavra traduzida como “estacas” é “awtād”, plural de “watad”, termo que, em árabe clássico, designa justamente a estaca usada para prender ao solo as cordas de uma tenda. A imagem não é apenas de altura, mas de algo fincado, com parte oculta e função de fixação. Para um árabe do deserto, habituado à vida em tendas, a estaca era um objeto comum: via-se a parte que ficava para fora, mas sabia-se que o essencial de seu trabalho estava na porção enterrada, que resistia à tração das cordas e ao vento.
Quando, séculos depois, a geologia moderna descreve as montanhas como estruturas com raízes profundas, que se estendem várias vezes a altura visível, a analogia com “estacas” torna-se evidente. A maior parte do “watad” está sob a superfície, desempenhando o papel de fixar e estabilizar. Embora o versículo não apresente uma teoria científica no sentido técnico, a escolha dessa metáfora, em um texto do século VII, num contexto de pastores e caravaneiros, é vista por muitos estudiosos como um forte indício da origem revelada do Alcorão.
A descrição revela um conhecimento da estrutura funcional das montanhas em relação à Terra que está plenamente de acordo com o que veio a ser descoberto muito tempo depois.
A estabilidade da crosta terrestre
Além da comparação a “estacas”, o Alcorão menciona explicitamente uma função estabilizadora para elas. Em Surah An-Nahl, ao mencionar diversos favores concedidos por Allah, o texto diz:
“E Ele implantou, na terra, assentes montanhas, para que ela se não abale convosco, e, também, rios e caminhos, para vos guiardes.” (Surah An-Nahl, versículo 15)
Expressão semelhante aparece em outros versículos, como em Surah Luqman, reforçando a ideia de que as montanhas foram estabelecidas por Allah como parte de um sistema que evita abalos excessivos na superfície. A princípio, alguém poderia interpretar isso de forma puramente poética, como se fosse apenas imagem de firmeza. No entanto, a teoria moderna da tectônica de placas oferece um quadro notavelmente compatível com esse tipo de afirmação.
De acordo com essa teoria, a crosta terrestre está fragmentada em grandes placas rígidas que “flutuam” sobre o manto mais plástico. As regiões onde as placas se encontram – por colisão, afastamento ou deslizamento lateral – são zonas de intensa atividade sísmica e vulcânica. É justamente nessas zonas de colisão que se formam as grandes cadeias de montanhas, como os Himalaias, os Andes ou os Alpes.
O acúmulo de material, a cravação das “raízes” montanhosas e o entrelaçamento das estruturas rochosas funcionam como uma “solda” entre as placas continentais. Sem esse tipo de ancoragem, os contatos entre placas poderiam ser muito mais instáveis, produzindo deformações e tremores ainda mais frequentes.
Estudos em geodinâmica mostram que as montanhas, ao se formarem, redistribuem tensões e contribuem para um novo equilíbrio isostático. Embora não eliminem terremotos – pois estes continuam a ocorrer nos limites de placas –, elas fazem parte de um mecanismo complexo que impede que a superfície terrestre esteja em estado de abalo caótico contínuo.
Na literatura moderna de divulgação, alguns geólogos chegaram a afirmar que, sem a presença de cadeias montanhosas e o efeito de “travas” que elas exercem, a crosta poderia ser significativamente mais instável. Ver, em um texto do século VII, a afirmação de que Allah “implantou montanhas assentes, para que a terra não se abale convosco” tem sido, por isso, apontado como um dos exemplos de harmonia entre o discurso revelado e o conhecimento científico posterior.
Sinais de poder e sabedoria de Allah
Para além da dimensão científica, o Alcorão utiliza as montanhas como sinais visíveis do poder e da sabedoria de Allah em múltiplos contextos. Em diversos versículos, as montanhas aparecem como testemunhas da submissão da criação ao Criador, participantes de louvores cósmicos, ou símbolos de firmeza diante da grandeza da revelação. Um exemplo marcante é este:
“Se tivéssemos feito descer este Alcorão sobre uma montanha, vê-la-ias humilhar-se e fender-se por temor de Allah. E apresentamos, aos humanos, essas parábolas, para que, talvez, reflitam.” (Surah Al-Hashr, versículo 21)
Aqui, a montanha é usada como metáfora de solidez material, contrastada com a intensidade espiritual do Alcorão. Se até uma montanha, com toda a sua massa e dureza, se humilharia diante da Palavra de Allah, quanto mais o coração humano deve se curvar em submissão e respeito. Em outros pontos, o Alcorão lembra que Allah criou a Terra “estendida” e nela colocou montanhas assentes e rios, convidando o ser humano à reflexão sobre o equilíbrio ecológico e geológico.
“E Ele é Quem estendeu a terra e nela fez assentes montanhas e rios. E, de todos os frutos, nela fez um par, um casal. Ele faz a noite encobrir o dia. Por certo, há nisso sinais para um povo que reflete.” (Surah Ar-Ra‘d, versículo 3)
Essas passagens mostram que, mesmo antes de qualquer leitura de “milagres científicos”, o papel principal das montanhas no Alcorão é servir como lembrete da ordem sábia da criação. O crente é incentivado a olhar para elas não apenas como obstáculos físicos ou paisagens, mas como estruturas inseridas num sistema preciso, em que nada é criado inutilmente. Ao combinarmos essa dimensão espiritual com os dados concretos da geologia moderna – raízes profundas, função estabilizadora, localização em limites de placas –, a contemplação das montanhas se torna ainda mais rica, unindo coração e intelecto no reconhecimento da grandeza de Allah.
Conclusão: entre geologia e guia espiritual
O estudo da geologia e das montanhas no Alcorão não deve ser visto apenas como busca de “curiosidades científicas”, mas como parte de uma reflexão mais ampla sobre a relação entre revelação e razão. O texto corânico fala de montanhas como “estacas” e como “assentes, para que a terra não se abale convosco” em uma época em que não havia nem linguagem técnica de isostasia, nem teoria de placas tectônicas, nem sismógrafos. Séculos mais tarde, a ciência confirmou que as montanhas possuem raízes profundas e desempenham um papel na estabilização da crosta, o que, para o crente, reforça a convicção de que a revelação vem de Quem criou e conhece em detalhe o universo.
Ao mesmo tempo, o Alcorão não se limita a informar; ele chama à responsabilidade. Saber que as montanhas são sinais e estruturas colocadas por Allah leva o ser humano a adotar uma postura de respeito diante da Terra, evitando sua destruição injusta. Saber que a criação está em equilíbrio delicado – e que, sem esse equilíbrio, a vida seria impossível – educa o coração para a gratidão e inspira a mente a buscar conhecimento útil, em vez de orgulho vazio. As montanhas, que um beduíno talvez visse apenas como incômodo, revelam-se, à luz combinada da revelação e da ciência, como pilares fundamentais do planeta e como lembretes constantes da majestade de Allah e da verdade de Sua Palavra.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
- “O Alcorão sobre as Montanhas”, artigo em A Religião do Islam, baseado em estudos de Frank Press e outros geólogos.
- Frank Press e Raymond Siever, “Earth” (Terra).
- Tarbuck, E. J., e Lutgens, F. K., “Ciência da Terra”.
- El-Naggar, Zaghlool, “O Conceito Geológico das Montanhas no Alcorão”, estudos sobre a correlação entre descrições corânicas e dados geológicos.
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