A Criação do Universo no Alcorão

A Criação do Universo no Alcorão

Introdução: cosmologia moderna e criação do universo

A criação do universo no Alcorão é um dos temas que mais impressionam quem compara os versículos com o que a cosmologia moderna descreve sobre as origens do cosmos. Hoje, um dos princípios mais bem estabelecidos da ciência é que o universo visível teve um início, partindo de um estado extremamente quente e denso, e que, após essa fase inicial, expandiu-se e se resfriou, dando origem às partículas, aos átomos, às estrelas, às galáxias e aos demais corpos celestes. Antes da formação de estrelas e planetas, fala-se de uma espécie de “matéria primordial”, uma mistura de gás quente e partículas em suspensão, algo que se assemelha à imagem de uma massa gasosa espessa, mais próxima de “fumo” do que da ideia comum de nuvem fria.

Os astrônomos observam, até hoje, regiões do espaço onde novas estrelas nascem, em grandes nuvens de gás e poeira chamadas nebulosas. Essas regiões, fotografadas por telescópios modernos, apresentam exatamente o aspecto de matéria quente, em turbilhão, com partículas e gases concentrando-se em determinados pontos que se tornarão futuros astros. Ao ler os versículos sobre a criação do universo no Alcorão, muitos estudiosos perceberam que a linguagem usada para descrever o estado inicial dos céus guarda uma semelhança notável com essas descrições. A revelação, no entanto, não se limita a fornecer informação “técnica”; ela insere essas descrições em um contexto de submissão e obediência de toda a criação a Allah, mostrando que, desde a origem, o universo responde ao comando divino.


“Fumo” primordial: o versículo de Fussilat (41:11)

Um dos versículos mais relevantes sobre a criação do universo no Alcorão é este, de Surah Fussilat, que descreve uma fase em que o céu estava em estado de “fumo”:

“Em seguida, dirigiu-Se ao céu, enquanto fumo, e disse-lhe e à terra: ‘Vinde ambos, de bom ou de mau grado.’ Ambos disseram: ‘Viemos obedientes.’” (Surah Fussilat, versículo 11)

A palavra traduzida como “fumo” (dukhān) descreve, em árabe, uma massa gasosa quente, carregada de partículas finas em suspensão, e não uma névoa fria. Do ponto de vista da criação do universo no Alcorão, essa escolha de termo é significativa, pois se aproxima muito do que a física e a astronomia descrevem como estado inicial de matéria cósmica: um plasma ou gás extremamente quente, denso, cheio de partículas distribuídas de maneira ainda pouco organizada. Diferente de “nuvem”, que em nossa experiência cotidiana sugere algo frio e leve, “fumo” transmite a ideia de calor, densidade e movimento turbulento.

Os astrônomos observam, hoje, galáxias e estrelas em formação em regiões do espaço que se parecem justamente com esse “fumo”: nuvens de gás aquecido, iluminado por radiação intensa, com partículas se condensando em núcleos de futura matéria celestial. Ao falar que Allah “dirigiu-Se ao céu, enquanto fumo”, o Alcorão remete a esse estado primordial de matéria cósmica, ainda não organizada na forma de céus e corpos bem definidos. A continuação do versículo, em que Allah diz ao céu e à terra: “Vinde ambos, de bom ou de mau grado”, e ambos respondem: “Viemos obedientes”, ressalta que essa organização do universo se deu em perfeita conformidade com o decreto divino. Para quem reflete, a criação do universo no Alcorão é apresentada, assim, como um processo sob comando direto de Allah, desde a fase de “fumo” até a estruturação dos céus em níveis e da terra como morada adequada ao ser humano.


Big Bang e a origem comum dos céus e da terra

A compreensão moderna da origem do universo, especialmente a teoria do Big Bang, afirma que, em um passado remoto, toda a matéria e energia estavam concentradas em um estado extremamente denso e quente, que posteriormente “se expandiu”, dando origem ao universo em expansão que observamos hoje. Essa teoria, hoje robustecida por várias evidências (como a radiação cósmica de fundo em micro-ondas e a abundância de elementos leves), foi proposta no século XX por estudiosos como Alexander Friedmann e Georges Lemaître, e só ganhou aceitação ampla após avanços em observações e cálculos sofisticados.

O Alcorão traz um versículo que, aos olhos de muitos exegetas e cientistas muçulmanos, guarda relação impressionante com essa ideia de origem comum. Em Surah Al-Anbiya, lemos:

“E os que renegam a Fé não viram que os céus e a terra eram um todo compacto e Nós desagregamo-los, e fizemos da água toda cousa viva? – Então, não crêem? -” (Surah Al-Anbiya, versículo 30)

A expressão “um todo compacto” (ratq) indica, em árabe, algo unido, costurado, fechado, sem fissuras. “Nós desagregamo-los” (fataqnāhumā) sugere a ação de separar, abrir, romper essa unidade. Na criação do universo no Alcorão, esse versículo pode ser entendido como alusão a um estado inicial em que céus e terra se encontravam unidos de forma indistinta, sendo depois separados, formando, por assim dizer, dimensões e estruturas cósmicas distintas. Muitos comentaristas clássicos falaram disso de modo geral, associando à ideia de céu e terra unidos na não existência diferenciada, separados posteriormente pelo ato criador. Já leitores contemporâneos, conhecedores da teoria do Big Bang, veem um paralelo notável entre a noção de universo inicialmente “compacto” e sua expansão subsequente.

É importante ressaltar que, no início do século VII, o modelo predominante nas culturas ao redor não era de um universo em expansão, mas de um cosmos estático ou eterno. A teoria do Big Bang só começou a ganhar forma cerca de treze séculos depois, exigindo a relatividade geral de Einstein, princípios cosmológicos sofisticados e observações como a radiação cósmica de fundo, descoberta em 1965. A complexidade matemático-física necessária para formular e sustentar essa teoria está muito além de qualquer especulação de um homem isolado no deserto. Por isso, ao tratar da criação do universo no Alcorão, muitos autores destacam que a referência a céus e terra como “um todo compacto” que foi desagregado é mais um sinal de que a fonte do texto é Allah, que conhece o início e o fim da criação.


Água como origem da vida: outra chave da criação

No mesmo versículo de Al-Anbiya 21:30, após mencionar que céus e terra eram um todo compacto que Allah desagregou, o Alcorão acrescenta: “e fizemos da água toda cousa viva”. A criação do universo no Alcorão é, portanto, associada não apenas à origem dos grandes corpos celestes, mas também ao aparecimento da vida tal como a conhecemos. A ciência moderna, ao estudar a biologia e a bioquímica, confirma que a água é absolutamente central para os processos vitais: é o solvente universal das reações no interior das células, participa da estrutura de proteínas e ácidos nucleicos, e está presente em alta porcentagem em praticamente todos os organismos vivos.

Os astrônomos, ao buscarem vida em outros planetas, frequentemente começam pela pergunta: há água líquida? Isso mostra que, mesmo na pesquisa moderna, a água é vista como condição quase indispensável para a vida baseada em carbono. Ao declarar que “da água” foi feita “toda cousa viva”, o Alcorão condensa, em uma frase simples, uma realidade que a ciência levou séculos para explorar em profundidade. Do ponto de vista da reflexão islâmica, a criação do universo no Alcorão não se limita à descrição do macrocosmo; inclui também esse detalhe fundamental do microcosmo: a dependência da vida pela água. Isso convida o crente a ver na simplicidade da água – tão comum e às vezes tão desprezada – um milagre contínuo e um sinal claro da sabedoria do Criador.


“Estendeu a terra”: universo, terra e deriva continental

Além de falar da origem comum dos céus e da terra, a criação do universo no Alcorão também aborda a forma como Allah organizou a Terra como morada para os seres humanos. Em Surah Ar-Ra‘d, é dito:

“E Ele é Quem estendeu a terra e nela fez assentes montanhas e rios. E, de todos os frutos, nela fez um par, um casal. Ele faz a noite encobrir o dia. Por certo, há nisso sinais para um povo que reflete.” (Surah Ar-Ra‘d, versículo 3)

A expressão “estendeu a terra” não significa, necessariamente, que a Terra seja plana, mas que Allah a dispôs de maneira ampla e acessível à vida humana, com relevo, rios, montanhas e recursos distribuídos. Ainda assim, alguns estudiosos contemporâneos veem na ideia de “estender” um convite a refletir sobre processos geológicos de longa escala, como a deriva dos continentes. Historicamente, a noção de que os continentes não estiveram sempre na mesma posição só ganhou força a partir do século XIX, quando Alexander von Humboldt e outros observaram a forma complementar das costas da África e da América do Sul. Mais tarde, Alfred Wegener, em 1912, propôs a teoria da deriva continental, sugerindo que todos os continentes estiveram unidos em um supercontinente chamado Pangeia, que, com o tempo, se fragmentou e derivou até as posições atuais.

Essa teoria, inicialmente rejeitada por falta de um mecanismo convincente, foi mais tarde reforçada pela descoberta da expansão do assoalho oceânico, do magnetismo residual em rochas e de padrões de fósseis idênticos em massas de terra hoje separadas. O resultado foi a formulação da tectônica de placas, que descreve as grandes placas da litosfera em movimento contínuo sobre o manto. Embora o versículo não esteja descrevendo todos esses detalhes, o fato de o Alcorão falar em “estender a terra” e, em outros lugares, mencionar que Allah “diminui a terra em seus extremos” chamou a atenção de alguns comentadores modernos, que veem nisso, ao menos, uma abertura para pensar o dinamismo da crosta terrestre. De qualquer forma, a criação do universo no Alcorão inclui, no mesmo ato de Allah, a elevação dos céus e a preparação da Terra como território habitável, reforçando a ideia de que nada em sua configuração é aleatório ou sem propósito.


Limites da leitura “científica” e propósito principal dos versículos

Ao tratar da criação do universo no Alcorão e de possíveis paralelos com teorias como o Big Bang ou a deriva continental, é importante manter equilíbrio. Muitos estudiosos salaf e contemporâneos alertam que não se deve forçar o texto revelado a cada nova teoria científica, pois a ciência muda, refina hipóteses e, às vezes, abandona modelos. O que é firme e definitivo é o Alcorão; já as leituras “científicas” são interpretações humanas, úteis quando ajudam a mostrar a plausibilidade de certos apontamentos, mas não sendo o eixo principal da fé.

O propósito principal dos versículos sobre criação não é ensinar fórmulas nem substituir a pesquisa, e sim chamar à reflexão e à adoração. Quando Allah menciona o céu em estado de fumo, o todo compacto de céus e terra, ou a extensão da terra com montanhas e rios, o objetivo é que o ser humano reconheça a origem única de tudo isso, submeta-se ao Criador, abandone o shirk e viva de acordo com a orientação enviada por meio dos profetas. Ainda assim, quando a ciência moderna confirma aspectos gerais do que o Alcorão descreve – como um universo com início, uma fase gasosa primordial, a centralidade da água para a vida, o dinamismo da Terra –, isso serve, para muitos, de reforço à certeza de que quem falou desses assuntos há quatorze séculos não podia ser um homem analfabeto isolado, mas sim Allah, Senhor dos mundos.


Conclusão: contemplar a criação e reforçar a fé

A criação do universo no Alcorão aparece em vários versículos, tecendo um quadro em que céus e terra têm origem comum, em que o céu passou por uma fase de “fumo”, em que a água é fundamento da vida e em que a Terra foi estendida, adornada com montanhas e rios para o benefício dos seres humanos. Quando esses versículos são lidos à luz do conhecimento cosmológico e geológico atual, a harmonia entre revelação e realidade observável torna-se ainda mais clara para quem reflete. O universo não é fruto do acaso cego, mas resultado de um decreto sábio, que se manifesta desde as escalas inimaginavelmente grandes das galáxias até as moléculas de água que sustentam cada célula viva.

Para o muçulmano, contemplar a criação do universo no Alcorão não é apenas exercício intelectual, mas ato de adoração. Cada descoberta científica que confirma aspectos gerais do que Allah mencionou no Livro aumenta a humildade e o reconhecimento da própria pequenez diante da vastidão da criação. Correto é usar essas descobertas como ponte para a gratidão, não como fim em si mesmas. Em última análise, o Alcorão chama: “Não crêem ainda?” Esse chamado permanece atual: diante de um universo tão precisamente ordenado e de uma revelação que o descreve com tanta profundidade, a resposta esperada é a fé sincera em Allah, o Único Criador, Sustentador e Senhor de tudo.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
  • Obras de tafsir clássicas (como Tafsir Ibn Kathir) sobre Surah Fussilat 41:11, Surah Al-Anbiya 21:30 e Surah Ar-Ra‘d 13:3.
  • Artigos em IslamReligion.com sobre “O Alcorão e a criação do universo” e “O Alcorão e o Big Bang”.
  • Textos de cosmologia moderna sobre a teoria do Big Bang, radiação cósmica de fundo e expansão do universo.
  • Obras de geologia e tectônica de placas que tratam da deriva continental, como as de Alfred Wegener e estudos posteriores sobre Pangeia.

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