A questão sobre se os muçulmanos acreditam que os cristãos adoram o mesmo Deus é amplamente debatida entre estudiosos do Islam. Enquanto muçulmanos e cristãos possuem diferenças teológicas significativas, principalmente em relação à Trindade e à divindade de Jesus, muitos estudiosos reconhecem que ambas as religiões compartilham a crença em um Deus único, ainda que as interpretações sobre Sua natureza variem.
O Que Diz o Alcorão?
O Alcorão aborda diretamente a relação entre muçulmanos e os “Povos do Livro” (cristãos e judeus), reconhecendo que eles também acreditam em Deus e receberam revelações divinas. Um dos versículos mais importantes que discute essa crença compartilhada é:
Surata Al-‘Ankabut (29:46):
“E não disputeis com os adeptos do Livro senão da melhor forma possível, exceto com aqueles que forem injustos; e dizei: ‘Cremos no que foi revelado a nós e no que foi revelado a vós. Nosso Deus e vosso Deus é um só; e a Ele somos submissos.’”
Neste versículo, o Alcorão convida muçulmanos a manter um diálogo respeitoso com os cristãos e judeus, reconhecendo que adoram o mesmo Deus, apesar de possíveis diferenças nas crenças. Esse “Deus” único é a base comum entre as três tradições monoteístas, mesmo que as interpretações sobre Sua natureza divirjam.
Outro versículo relevante é:
Surata Al-Ma’idah (5:82):
“Certamente, encontrarás os mais próximos dos que creem, em amizade, os que dizem: ‘Somos cristãos.’ Isso porque, entre eles, há sacerdotes e monges, e porque não se ensoberbecem.”
Aqui, o Alcorão elogia a sinceridade e humildade de muitos cristãos, sugerindo uma proximidade espiritual com os muçulmanos baseada na crença comum em Deus, embora haja diferenças na prática e na doutrina.
Surata Al-Baqarah (2:62) também destaca essa conexão:
“Certamente, os que creem, os que são judeus, os cristãos e os sabeus – quem quer que creia em Deus e no Último Dia e pratique o bem – terão sua recompensa junto ao seu Senhor. Não haverá medo sobre eles, nem eles se entristecerão.”
Este versículo reconhece que a crença em Deus e a retidão são valores universais entre muçulmanos, judeus e cristãos, todos os quais receberão recompensas de Deus por sua fé e boas ações.
Estudiosos do Islam Que Apoiam a Visão de Um Deus Comum
- Ibn Taymiyyah
Ibn Taymiyyah, um dos mais influentes estudiosos medievais do Islam, reconheceu que os cristãos originalmente acreditavam no mesmo Deus que os muçulmanos. No entanto, ele criticou fortemente a doutrina cristã da Trindade, que, segundo ele, representava uma distorção do monoteísmo puro (Tawhid). Em sua obra Al-Jawab al-Sahih liman Baddala Din al-Masih, ele discute como os cristãos desviaram-se do monoteísmo ao adotar a crença na Trindade, mas ainda assim, ele reconhece que os cristãos estão entre os Povos do Livro e que sua fé tem origem na crença no mesmo Deus único adorado pelos muçulmanos.
- Ibn Kathir
Ibn Kathir, outro importante estudioso do Islam, é amplamente conhecido por sua exegese do Alcorão, Tafsir Ibn Kathir. Ao comentar o versículo 2:62 de Surata Al-Baqarah, ele enfatiza que os cristãos, assim como os judeus e os muçulmanos, acreditam em um Deus único e compartilham uma fé em comum, embora tenham divergido em algumas crenças e práticas ao longo do tempo. Ibn Kathir reconhece os cristãos como Povos do Livro e destaca que, apesar das diferenças teológicas, todos os que seguem a verdadeira fé em Deus e praticam a justiça serão recompensados.
- Al-Ghazali
Al-Ghazali, um dos teólogos e filósofos mais renomados do Islam, também abordou essa questão. Em sua obra Al-Radd al-Jamil li-Ilahiyat `Isa bi-Sarih al-Injil, Al-Ghazali argumenta que, apesar de as crenças cristãs sobre Jesus e a Trindade terem se desviado do monoteísmo puro, a crença original dos cristãos em um Deus único está alinhada com a crença islâmica. Ele critica a elevação de Jesus à divindade, mas não nega que os cristãos adoram o mesmo Deus, embora o façam de uma maneira que ele considerava incorreta.
- Yusuf al-Qaradawi
Yusuf al-Qaradawi, um renomado estudioso contemporâneo, também afirmou que, apesar das diferenças nas interpretações teológicas, os cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus. Ele defende que os cristãos são Povos do Livro e que ambos compartilham a crença em um Deus único, mesmo que discordem sobre a natureza de Jesus e a Trindade. Em sua obra Fiqh al-Jihad, Qaradawi reconhece que a adoração ao mesmo Criador é um ponto de convergência entre as duas religiões.
- Declaração de Amã (The Amman Message)
A Mensagem de Amã, uma declaração emitida em 2004 e assinada por importantes estudiosos islâmicos de todo o mundo, afirma que judeus e cristãos, como Povos do Livro, adoram o mesmo Deus que os muçulmanos. Entre os signatários, estão figuras proeminentes como o Sheikh Ali Gomaa e o Sheikh Abdullah bin Bayyah. A declaração promove a coexistência pacífica e o respeito mútuo, reconhecendo as raízes monoteístas comuns que unem muçulmanos, cristãos e judeus.
Diferenças Teológicas e Críticas
Apesar do reconhecimento de que cristãos e muçulmanos acreditam no mesmo Deus, muitos estudiosos muçulmanos criticam a doutrina cristã da Trindade, que veem como uma forma de associar parceiros a Deus, algo que é rejeitado pela doutrina islâmica de Tawhid (monoteísmo absoluto). De acordo com a crença islâmica, Deus é Único, indivisível e não possui parceiros ou filhos. Jesus, embora respeitado como um grande profeta, não é considerado Deus ou filho de Deus no Islam. Assim, enquanto os muçulmanos reconhecem a crença cristã em Deus, eles consideram algumas doutrinas cristãs, como a Trindade, inconsistentes com o monoteísmo puro.
Conclusão
A maioria dos estudiosos do Islam, tanto clássicos quanto contemporâneos, concorda que os cristãos adoram o mesmo Deus que os muçulmanos, apesar de diferenças significativas em suas interpretações teológicas. A crença no Deus único é um ponto comum entre as duas religiões, embora a compreensão sobre Sua natureza varie, especialmente em relação à Trindade e à divindade de Jesus. No entanto, essa crença compartilhada em um Criador supremo continua a ser um fundamento de respeito e diálogo entre muçulmanos e cristãos.
Referências:
• Ibn Taymiyyah, Al-Jawab al-Sahih liman Baddala Din al-Masih
• Ibn Kathir, Tafsir Ibn Kathir
• Al-Ghazali, Al-Radd al-Jamil li-Ilahiyat `Isa bi-Sarih al-Injil
• Yusuf al-Qaradawi, Fiqh al-Jihad
• The Amman Message (2004), disponível em: ammanmessage.com
Leitura complementar:
• A Importância do Monoteísmo no Islam
• Jesus no Islam: Profeta e Mensageiro



