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A História do Filho a Ser Sacrificado

A História do Filho a Ser Sacrificado

O relato corânico do sacrifício

A história do filho a ser sacrificado, central para muçulmanos, judeus e cristãos, aparece no Alcorão em Surah As-Saffat, sem mencionar expressamente o nome do filho, mas com detalhes que orientam a compreensão correta. Allah narra a migração de Abraão, que a paz esteja sobre ele, seu pedido por um descendente virtuoso, a boa nova de um filho dócil, o sonho do sacrifício e a submissão de ambos à ordem divina. O texto termina com o resgate do filho por um “grande sacrifício” e, só depois, com o anúncio específico do nascimento de Isaque, que a paz esteja sobre ele.

Allah diz:

“E disse (Abraão): ‘Vou para o meu Senhor, Ele me guiará. Ó Senhor meu, agracia-me com um filho que figure entre os virtuosos!’ E lhe anunciamos o nascimento de uma criança dócil. E quando chegou à adolescência, seu pai lhe disse: ‘Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício; que opinas?’ Respondeu-lhe: ‘Ó meu pai, faze o que te foi ordenado! Encontrar-me-ás, se Deus quiser, entre os perseverantes!’ E quando ambos aceitaram o desígnio (de Deus) e (Abraão) preparava (seu filho) para o sacrifício, então o chamamos:

‘Ó Abraão, já realizaste a visão! Em verdade, assim recompensamos os benfeitores. Certamente que esta foi a verdadeira prova. E o resgatamos com outro sacrifício importante. E o fizemos (Abraão) passar para a posteridade. Que a paz esteja com Abraão! Assim recompensamos os benfeitores, porque foi um dos Nossos servos fiéis. E lhe anunciamos, ainda, (a vinda de) Isaque, o qual seria um profeta, entre os virtuosos. E o abençoamos, a ele e a Isaque. Mas entre os seus descendentes há benfeitores, e outros que são verdadeiros iníquos para consigo mesmos.” (Surah As-Saffat, versículos 99–113) (37:99–113)​

Esse conjunto de versículos mostra que: primeiro, Abraão pede um filho; em seguida, recebe a boa nova de um “filho dócil”; mais tarde, quando esse filho atinge a idade de caminhar e trabalhar com o pai, ocorre o sonho do sacrifício; só depois de concluída essa prova é que Allah menciona, de forma separada, o anúncio de Isaque. Isso será fundamental para compreender por que os sábios afirmam que o filho a ser sacrificado era Ismael, que a paz esteja sobre ele, e não Isaque.


Entendimento dos sábios: Ismael como filho sacrificado

Ibn Kathir, que Allah tenha misericórdia dele, ao comentar essa passagem em seu tafsir e em “Al-Bidayah wa an-Nihayah”, deixa claro que, segundo o entendimento dos primeiros estudiosos, o filho a ser sacrificado era Ismael, que a paz esteja sobre ele. Ele explica que o filho dócil anunciado em 37:101 e preparado para o sacrifício é o primeiro filho de Abraão, o primogênito. Entre os seguidores das religiões anteriores, a questão do primogênito de Abraão é consensual: Ismael é reconhecido como mais velho que Isaque.​

Ibn Kathir observa que o texto corânico primeiro fala do menino dócil e do episódio do sacrifício e, somente depois, diz: “E lhe anunciamos, ainda, (a vinda de) Isaque…”. Isso indica duas boas novas distintas: uma ligada ao filho dócil que seria testado com o sacrifício; outra, posterior, ligada ao nascimento de Isaque e à profecia que dele sairia. Se o filho sacrificado fosse Isaque, não haveria sentido em separar as duas anunciações dessa forma.

Além disso, o próprio contexto da promessa feita a Abraão e Sara, que a paz esteja sobre ambos, inclui não apenas o nascimento de Isaque, mas também o de Jacó, ainda em vida deles. Isso torna ilógica a hipótese de ordenarem a Abraão que sacrificasse Isaque criança, como será explicado a seguir.


O grande teste de Abraão e de Ismael

O tafsir de Ibn Kathir descreve, de maneira tocante, como o teste do sacrifício se insere em uma série de provações na vida de Abraão. Ele já havia sido lançado no fogo por causa de sua fé, havia deixado sua terra e seu povo pela causa de Allah e, por ordem divina, havia levado sua esposa Hajar e o pequeno Ismael a um vale árido, sem plantação nem água, nas proximidades da Casa Sagrada, confiando que Allah cuidaria deles. Anos depois, quando o menino cresce a ponto de “andar com ele” e ajudá-lo, vem esse sonho, que para os profetas é forma de revelação: sacrificar o próprio filho amado, nascido em idade avançada.​

A sabedoria de Abraão se manifesta no modo como comunica ao filho: em vez de surpreendê-lo pela força, ele o consulta, para que o jovem também participe conscientemente da submissão. “Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício; que opinas?” E Ismael, descrito como “dócil”, responde de maneira exemplar: “Ó meu pai, faze o que te foi ordenado! Encontrar-me-ás, se Deus quiser, entre os perseverantes!” (37:102).

A resposta revela obediência dupla: ao pai e a Allah. Ambos se submetem: “E quando ambos aceitaram o desígnio (de Deus) e (Abraão) preparava (seu filho) para o sacrifício…” (37:103). Alguns relatos de exegetas, como Mujahid, Ibn ‘Abbas e outros, mencionados por Ibn Kathir, descrevem que Abraão deitou o filho de bruços, para não ver seu rosto no momento do ato, pronunciou o nome de Allah e tentou passar a faca, que não cortou, pois Allah colocou uma barreira, até que veio o chamado: “Ó Abraão, já realizaste a visão!” (37:105).​


O carneiro enviado e o sinal ligado a Meca

Quando Allah diz: “E o resgatamos com outro sacrifício importante.” (37:107), os comentaristas explicam que se tratava de um carneiro especial, branco, de olhos grandes, que havia pastado nos prados do Paraíso durante muitos anos. Relatos atribuídos a Ibn ‘Abbas mencionam que a cabeça desse carneiro foi pendurada na Kaaba, em Meca, até ressecar, sendo vista por gerações de árabes, inclusive até o tempo do Profeta Muhammad ﷺ. Isso cria um elo geográfico e histórico entre o episódio do sacrifício e a cidade de Meca, onde Ismael viveu e cresceu, e não com a região em que Isaque viveu na infância.​

Ibn Kathir usa esse ponto como evidência adicional: se o carneiro foi sacrificado em substituição ao filho que estava com Abraão naquele momento, e sua cabeça foi guardada na Kaaba, isso sugere que o local do evento estava ligado a Meca. Ora, quem morava nas proximidades da Casa Sagrada era Ismael, conforme o relato corânico da súplica de Abraão:

“Ó Senhor nosso, estabeleci parte da minha descendência em um vale inculto perto da Tua Sagrada Casa, para que, ó Senhor nosso, observem a oração. Faze, pois, que os corações de alguns homens se inclinem para eles, e agracia-os com frutos, a fim de que Te agradeçam.” (Surah Ibrahim, versículo 37) (14:37)​

Como Isaque não passou sua infância em Meca, mas em outra região, essa ligação entre o carneiro e a Kaaba reforça que o sacrificado era Ismael, que habitava ali com sua mãe.


A promessa sobre Isaque e Jacó impede que Isaque seja o sacrificado

Outra linha de argumentação importante, usada por Ibn Kathir e outros, baseia-se na própria promessa corânica sobre Isaque e Jacó. Quando os anjos trazem a boa nova a Abraão e Sara, que a paz esteja sobre ambos, não anunciam apenas o nascimento de Isaque, mas também o de Jacó, neto de Abraão, ainda em vida deles. Em Surah Hud, Allah diz:

“E sua mulher estava em pé, e riu-se; então, anunciamos-lhe o nascimento de Isaque e, depois de Isaque, de Jacó.” (Surah Hud, versículo 71) (11:71)​

Da mesma forma, no trecho de As-Saffat acima, Allah diz: “E lhe anunciamos, ainda, (a vinda de) Isaque, o qual seria um profeta, entre os virtuosos. E o abençoamos, a ele e a Isaque.” (37:112–113). Isso implica que Isaque viveria até ter filhos, dentre eles Jacó, e que uma descendência de profetas viria dele. Não é coerente, portanto, supor que Allah ordenaria a Abraão sacrificar Isaque ainda criança, antes do cumprimento dessa promessa clara. Allah não quebra Sua palavra nem faz confusão nas revelações. Por isso, muitos estudiosos usam esse argumento para mostrar que o filho do sacrifício não poderia ser Isaque, mas sim outro filho recebido antes dessa boa nova, isto é, Ismael.​


A ordem dos versículos em As-Saffat como prova textual

Os exegetas também chamam a atenção para a ordem dos versículos em Surah As-Saffat. Primeiro, Allah relata a súplica de Abraão por um filho virtuoso (37:100) e a boa nova de um “menino dócil” (37:101). Em seguida, descreve o sonho do sacrifício, o diálogo entre pai e filho, a submissão de ambos, o teste e o resgate com o grande sacrifício (37:102–107).

Só depois de tudo isso aparece a frase: “E lhe anunciamos, ainda, (a vinda de) Isaque, o qual seria um profeta, entre os virtuosos.” (37:112). Vários comentadores, como Ibn Kathir, al-Qurtubi e outros, destacam a expressão “ainda” (em árabe, “wa bashsharnahu bi Ishaq”) para mostrar que se trata de uma segunda anunciação, distinta da primeira.​

Se o filho sacrificado fosse Isaque, seria de esperar que seu nome fosse mencionado no início da passagem, junto com a boa nova de um “filho dócil”, e não apenas ao final, como boa nova adicional após o término do teste. Em outras palavras, o texto aponta para dois filhos em sequência: o primeiro, não nomeado, mas descrito como dócil, que seria objeto do teste do sacrifício; o segundo, explicitamente chamado Isaque, com promessa de profecia. Por isso, Ibn Kathir conclui que o filho do sacrifício é Ismael: ele é o primeiro filho de Abraão, o primogênito, aquele cujo nascimento havia sido anunciado antes, e o contexto da revelação o identifica assim.


Concordância da maioria dos sábios e refutação da versão bíblica atual

Historicamente, houve discussão entre alguns sábios, especialmente influenciados por relatos judaico-cristãos, mas o consenso consolidado entre os eruditos de Ahlus-Sunnah é que o filho a ser sacrificado era Ismael, que a paz esteja sobre ele. Ibn Kathir chega a citar uma longa lista de Companheiros e Tabi‘in — como ‘Ali ibn Abi Talib, Ibn ‘Umar, Abu Hurairah, Sa‘id ibn al-Musayyib, al-Hasan al-Basri, Mujahid, ash-Sha‘bi e outros — que sustentavam explicitamente essa posição.​

Quanto ao texto bíblico em sua forma atual, que menciona Isaque em Gênesis 22 e fala em “teu filho, teu único filho, Isaque”, os estudiosos muçulmanos apontam incoerências internas. Em outros trechos, a própria Bíblia reconhece Ismael como filho de Abraão e registra que ele nasceu antes de Isaque. Chamar Isaque de “único filho” contraria essa realidade e sugere alteração textual. Alguns comentaristas islâmicos notam que versões antigas falavam em “teu filho único” sem o nome, e que a inserção de “Isaque” teria vindo de alterações posteriores por alguns dos “gente do Livro”. O Alcorão, ao não repetir essa identificação equivocada, mas ao mesmo tempo preservar o núcleo da história — obediência, teste, resgate — corrige e purifica o relato.


Sabedoria espiritual do sacrifício de Ismael

Do ponto de vista espiritual, a história do filho a ser sacrificado, sendo Ismael o protagonista, carrega significados profundos. Ela mostra a disposição de Abraão de sacrificar não apenas bens materiais, mas aquilo que lhe era mais querido: um filho nascido após longa espera, que representava esperança de continuidade e apoio na velhice. Mostra também o grau de submissão de Ismael, que aceita ser sacrificado por ver no sonho do pai um comando de Allah, sem revolta, sem questionar a sanidade de Abraão ou a justiça divina. Por isso, Allah descreve a cena com palavras que fazem chorar corações: “E quando ambos aceitaram o desígnio (de Deus) e (Abraão) preparava (seu filho) para o sacrifício.” (37:103).​

Quando o chamado vem: “Ó Abraão, já realizaste a visão!”, fica claro que o objetivo não era a morte de Ismael, mas a demonstração plena de submissão. Allah salva o filho e, ao mesmo tempo, eleva Abraão a um grau de liderança espiritual única. A tradição islâmica associa a memória desse sacrifício à prática de ad-dahiyah (o sacrifício do animal no Eid al-Adha), em que os muçulmanos recordam anualmente essa obediência exemplar. Ao imolar o animal, não se repete literalmente o gesto de Abraão, mas simboliza-se a disposição de sacrificar por Allah aquilo que o coração ama, mantendo a confiança de que o Senhor jamais é injusto e recompensa abundantemente.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
  • Tafsir Ibn Kathir, comentários sobre Surah As-Saffat 37:99–113 e Surah Hud 11:71, com análise da identidade do filho sacrificado.
  • Ibn Kathir, “Al-Bidayah wa an-Nihayah”, volume 1, seções sobre a história de Abraão, Ismael e o sacrifício.
  • Artigo “A História de Abraão (parte 6 de 7): O Maior dos Sacrifícios”, em IslamReligion.com, explicando por que o filho era Ismael à luz do Alcorão e da lógica das promessas divinas.
  • Fatwa de IslamQA nº 5522, “A história do filho a ser sacrificado”, de Shaikh Muhammad Salih Al-Munajjid, reunindo evidências textuais e de tafsir sobre o tema.​
  • Estudos contemporâneos sobre a controvérsia Ismael/Isaque, como “Le sacrifié d’Abraham: Ismaël ou Isaac?” em IslamHouse, e análises corânicas e históricas sobre o primogênito de Abraão.​

Leia mais em Apologética & Religiões Comparadas e História e Biografias

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