As 4 Virtudes dos Dez Dias de Dhul-Hijjah

As 4 Virtudes dos Dez Dias de Dhul-Hijjah

Introdução: os dias mais virtuosos do ano

Os primeiros dez dias de Dhul-Hijjah ocupam um lugar de grande destaque no calendário islâmico, reconhecido tanto pelo Alcorão quanto pela Sunnah do Profeta Muhammad ﷺ. Não se trata de uma devoção popular ou de uma tradição cultural: há evidências textuais claras e autênticas que elevam esses dias acima de qualquer outro período do ano, incluindo os primeiros dez dias de outros meses nobres. Conhecer esse estatuto é o primeiro passo para aproveitá-los com intenção, conhecimento e dedicação genuína.

Foi narrado a partir de Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme relatado por al-Bukhari (2/457):

“Não existem dias em que boas obras são mais amadas a Allah do que estes dez dias.” Eles disseram: “Nem mesmo jihad pela causa de Allah?” Ele disse: “Nem mesmo jihad pela causa de Allah, a não ser que um homem saia para a jihad, tendo a sua riqueza com ele e volte sem nada.”

Além disso, foi narrado a partir de Anas ibn Malik, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme relatado por al-Darimi (1/357), com isnad classificada como hasan em al-Irwa’ (3/398):

“Não há nenhum ato melhor perante Allah ou melhor recompensado do que uma boa ação feita nos (primeiros) dez dias de al-Adha.”

Esses textos indicam que os dez dias de Dhul-Hijjah são os melhores dias do ano, sem exceção. É importante, porém, distinguir entre dias e noites: os estudiosos como Ibn Kathir, em seu Tafsir (5/412), explicam que os dez dias de Dhul-Hijjah são superiores aos últimos dez dias do Ramadan, mas as últimas dez noites do Ramadan superam as primeiras dez noites de Dhul-Hijjah, por incluírem a Laylat al-Qadr, que é melhor do que mil meses. Com esse entendimento, o muçulmano deve começar esses dias com arrependimento sincero diante de Allah e, em seguida, intensificar o máximo de boas ações possíveis.


Obtendo as virtudes de Dhul-Hijjah

Diante da grandeza desses dias, os estudiosos orientam que o crente não se limite a observar passivamente o calendário, mas que se prepare ativamente para aproveitá-los da melhor forma. Isso começa com um arrependimento genuíno (tawbah), que limpa o coração e abre o caminho para a aceitação das boas ações. Em seguida, deve-se buscar multiplicar as obras de obediência em todas as suas formas: oração com khushu’, sadaqah, leitura e meditação sobre o Alcorão, manutenção dos laços de parentesco, e as quatro ações específicas que a Sunnah e os eruditos destacam como especialmente associadas a esse período abençoado.


Jejum: sunnah das primeiras novas luas

O jejum nos primeiros nove dias de Dhul-Hijjah é considerado sunnah confirmada para o muçulmano que não está realizando o Hajj. O décimo dia, que é o ‘Eid al-Adha, é proibido jejuar, pois é dia de celebração, refeição e gratidão a Allah. Portanto, quando se fala em “jejuar os dez dias”, entende-se os primeiros nove, sem incluir o dia do ‘Eid.

A razão para a ênfase no jejum é que, entre todas as boas obras, ele tem uma posição singular na relação entre o servo e seu Criador. O hadith qudsi relatado por al-Bukhari (1805) traz as palavras de Allah:

“Todos os atos do filho de Adão são para ele, exceto o jejum, que é para Mim, e recompensarei por isso.”

Essa singularidade do jejum como ato exclusivamente direcionado a Allah — sem qualquer componente de exibicionismo ou reconhecimento humano — o torna especialmente valioso em dias que já são os mais amados por Allah para a realização de boas obras. O jejum nesses dias, portanto, carrega uma dupla distinção: é o ato em que Allah Se reserva a recompensa diretamente, praticado nos dias que Ele mais ama.

A prática do Profeta Muhammad ﷺ confirma essa recomendação. Foi narrado a partir de Hunaydah ibn Khalid, de sua esposa, que uma das esposas do Profeta ﷺ disse, conforme relatado por al-Nasa’i (4/205) e por Abu Dawud, classificado como sahih por al-Albani em Sahih Abi Dawud (2/462):

“O Profeta ﷺ costumava jejuar nos primeiros nove dias de Dhul-Hijjah, no dia de ‘Ashura’ e três dias de cada mês: a primeira segunda-feira do mês e duas quintas-feiras.”

Esse relato é especialmente valioso porque vem de uma das mães dos crentes, testemunha ocular dos hábitos privados do Mensageiro de Allah ﷺ em sua própria casa. Ele confirma que o jejum dos nove dias não é uma recomendação teórica, mas uma prática que o próprio Profeta ﷺ mantinha com regularidade, integrada ao seu calendário pessoal de adoração ao lado do jejum de ‘Ashura e dos dias da semana.

As quatro escolas sunitas de fiqh concordam unanimemente que jejuar os primeiros nove dias de Dhul-Hijjah é altamente recomendável (mustahabb), com o dia de ‘Arafah sendo o mais virtuoso entre eles. Quem não conseguir jejuar todos os dias deve ao menos esforçar-se para jejuar no nono dia, o dia de ‘Arafah, que acarreta a expiação dos pecados do ano anterior e do seguinte, conforme relatado em Sahih Muslim.


Dhikr abundante: tahmid, tahlil e takbir

A segunda grande prática recomendada nos primeiros dez dias de Dhul-Hijjah é aumentar a glorificação de Allah por meio de quatro fórmulas específicas: o takbir (dizer “Allahu Akbar”), o tahmid (dizer “al-hamdu lillah”), o tahlil (dizer “la ilaha illa Allah”) e o tasbih (dizer “Subhan Allah”). Essas fórmulas devem ser recitadas em voz alta nas mesquitas, em casa, nas ruas e em todos os lugares onde seja lícito lembrar de Allah, com o objetivo de realizar esse ato de adoração de forma aberta e de proclamar a grandeza de Allah publicamente.

O próprio Alcorão faz referência aos “dias determinados” em que o nome de Allah deve ser mencionado sobre os animais dos rebanhos:

“Para presenciar certos benefícios seus e para mencionar, em dias determinados, o nome de Allah, sobre o animal dos rebanhos que Ele lhes deu por sustento. Então, deles comei e alimentai o desventurado, o pobre.” (Surah Al-Hajj, versículo 28) (22:28)

Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, interpretou esses “dias determinados” como os primeiros dez dias de Dhul-Hijjah, e esse entendimento é o mais aceito entre os comentaristas clássicos. Essa interpretação transforma o versículo em uma referência direta à recomendação de intensificar o dhikr durante esse período, conectando a glorificação verbal ao sacrifício físico que se realiza nos dias seguintes.

O Profeta Muhammad ﷺ confirmou essa orientação de forma ainda mais explícita. Foi narrado de ‘Abd Allah ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta ﷺ disse, conforme relatado por Ahmad (7/224), com isnad classificada como sahih por Ahmad Shakir:

“Não há dias maiores perante Allah, ou nos quais boas obras são mais amadas por Ele, do que estes 10 dias; então reciteis uma grande quantidade de tahlil, takbir e tahmid durante eles.”

Uma das formas autênticas do takbir que foi transmitida é: “Allahu Akbar, Allahu Akbar, la ilaha ill-Allah, Allahu Akbar, wa lillah il-hamd” — Allah é o Maior, Allah é o Maior, não há nenhum deus além de Allah; Allah é o Maior e para Allah é o louvor. Existem outras versões transmitidas dos Companheiros, como as mencionadas por Ibn Mas’ud e Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com eles.

Infelizmente, essa sunnah tornou-se praticamente abandonada hoje, especialmente no início dos dez dias. Nas ruas, mesquitas e casas de muitos países de maioria muçulmana, o takbir mal se ouve no primeiro dia de Dhul-Hijjah. O exemplo dos Companheiros era o oposto: Ibn ‘Umar e Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com eles, costumavam sair ao mercado durante os primeiros dez dias recitando o takbir em voz alta, e as pessoas ao redor se lembravam de fazê-lo individualmente ao ouvi-los. É importante ressaltar que eles não recitavam em uníssono como um coro; cada um recitava por si mesmo, pois a recitação coletiva e sincronizada do dhikr não é prescrita na Shari’ah.

Reviver essa sunnah traz grande recompensa, como indica o hadith narrado por al-Tirmidhi (7/443), classificado como hasan:

“Quem reviver uma das minhas sunnahs que morreram depois de eu partir, terá uma recompensa como a de todas as pessoas que a praticarem, sem que diminua a sua recompensa de todo.”


Hajj e ‘Umrah: a obra superior

Entre todas as boas obras que podem ser realizadas durante os dez dias de Dhul-Hijjah, o Hajj à Casa Sagrada de Allah ocupa o mais alto grau para quem tem condição de realizá-lo. Trata-se da reunião mais grandiosa da história da humanidade, onde muçulmanos de todos os continentes, línguas e origens se unem em adoração a Allah, vestindo o mesmo ihram, repetindo as mesmas invocações e realizando os mesmos ritos ensinados pelo Profeta Muhammad ﷺ durante sua Peregrinação de Despedida.

Para quem Allah facilita o Hajj, a recompensa é incomparável. O Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme transmitido em múltiplas coleções de hadith:

“Um Hajj aceito não traz nada menos como recompensa do que o Paraíso.”

Esse hadith é um dos mais conhecidos sobre o Hajj e uma das maiores motivações para aqueles que planejam realizar a peregrinação. Um Hajj aceito, realizado com sinceridade, liberto de ostentação e de relações proibidas, apaga os pecados como no dia em que a pessoa nasceu e transforma o estado espiritual do peregrino de forma permanente. Para quem não tem condições de realizar o Hajj naquele ano, a lição é realizar as demais boas obras com a mesma intensidade e foco que um peregrino dedica aos ritos.

Quanto à ‘Umrah, ela pode ser realizada em qualquer época do ano, mas a ‘Umrah feita em Ramadan tem uma recompensa específica mencionada em hadith. Nos dez dias de Dhul-Hijjah, o foco dos que estão na Meca é no Hajj. Para os demais, o melhor caminho é aproximar-se de Allah por meio das outras obras recomendadas nesse período.


Udhiyah: o sacrifício que aproxima de Allah

A quarta grande prática dos dez dias de Dhul-Hijjah é a udhiyah, o sacrifício de um animal no dia do ‘Eid al-Adha e nos três dias de at-Tashriq que o seguem. A udhiyah consiste em abater um animal lícito — camelo, vaca, carneiro ou bode — com a intenção de aproximar-se de Allah, em memória do sacrifício de Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, e de seu filho Ismail, que a paz esteja sobre ele.

Quanto ao seu estatuto jurídico, a maioria dos estudiosos, incluindo as escolas shafi’i, maliki e hanbali, considera a udhiyah uma sunnah mu’akkadah — sunnah fortemente confirmada e reprovável de omitir para quem tem condições de realizá-la. Outros estudiosos, como os da escola hanafi e a posição escolhida por Ibn Taymiyyah, consideram-na obrigatória para quem possui os meios necessários. Em todo caso, não há discordância sobre o fato de que deixar a udhiyah sem razão válida é algo grave e reprovável para quem possui os meios.

O Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme relatado por Ibn Majah (3123), de Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com ele, classificado como hasan por al-Albani:

“Aquele que tem a capacidade de sacrificar, mas escolhe não o fazer, não deve aproximar-se do nosso local de oração do ‘Eid.”

Essa expressão severa do Profeta ﷺ indica que a udhiyah não é um detalhe secundário para quem tem condições. O sacrifício deve ser realizado após a oração do ‘Eid, nunca antes, pois quem abate antes da oração deve repetir o ato para que seja válido, como confirmado pelo hadith de Jundub ibn ‘Abdullah, relatado por al-Bukhari (5562) e Muslim (1960). O animal deve estar saudável, sem defeitos graves que o tornem inválido para o sacrifício, como cegueira evidente, coxeira visível ou doença aparente.

Há ainda uma norma específica para quem vai oferecer a udhiyah: a partir do início do mês de Dhul-Hijjah até o momento do sacrifício, o responsável pelo ato não deve cortar cabelo nem unhas. O Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme narrado por Muslim (1977) de Umm Salamah, que Allah esteja satisfeita com ela:

“Quando se iniciam os dez dias, e um de vocês planeia sacrificar, então que não corte o seu cabelo ou as suas unhas.”

Essa proibição assemelha, de certa forma, a condição de quem vai sacrificar à condição do peregrino em ihram, criando uma conexão espiritual entre o muçulmano que está em casa e os peregrinos que estão na Terra Sagrada, ambos em estado de preparação para um ato central de adoração a Allah.


Conclusão: apressar-se para o bem

Os primeiros dez dias de Dhul-Hijjah são uma oportunidade que Allah renova a cada ano para toda a Ummah. Não apenas para os peregrinos que chegam à Meca de todos os cantos do mundo, mas também para o muçulmano que está em casa, que pode aproveitar esses dias com jejum, dhikr abundante e um sacrifício sincero para se aproximar de Allah. O muçulmano sábio reconhece o valor de cada dia e apressa-se em preencher essas horas com boas obras, pois o tempo é a moeda mais preciosa que temos, e esses dias são os mais valorizados por Allah na conta das boas ações.

Que Allah nos permita aproveitar plenamente esses dias abençoados, que aceite de nós o jejum, o dhikr, o Hajj e o sacrifício, e que os faça causa de expiação, proximidade a Ele e elevação nos graus do Paraíso. E todo o louvor é para Allah, o Senhor dos mundos, e que Allah enalteça Muhammad ﷺ, sua família, seus Companheiros e todos os que os seguem com sinceridade.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução dos significados para o português por Helmi Nasr.
  • Sunnah.com
  • Ibn Kathir, Tafsir al-Qur’an al-‘Azim (5/412), sobre a distinção entre os dez dias de Dhul-Hijjah e as noites do Ramadan.

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