Índice
Introdução
Um dos versículos mais citados – e frequentemente mal interpretados – do Alcorão é o verso 4:34 da Surata An-Nisā’, traduzido de forma incorreta em muitas línguas, incluindo o português e o inglês. Este versículo, mal compreendido, tem sido usado por críticos para alegar que o Islam permite a agressão contra as mulheres. No entanto, quando estudado à luz do Tafsir (interpretação), da língua árabe clássica e dos ensinamentos autênticos do Profeta Muhammad ﷺ, percebe-se que esta afirmação é falsa e contradiz totalmente o espírito de justiça e misericórdia que o Islam prega.
Allah ﷻ afirma:
“Os homens têm autoridade sobre as mulheres, pelo que Allah preferiu alguns a outros, e pelo que despendem de suas riquezas. Então, as íntegras são devotas, custódias da honra, na ausência dos maridos, pelo que Allah as custodiou. E àquelas de quem temeis a desobediência, exortai-as, pois, e abandonai-as no leito, e batei-lhes. Então, se elas vos obedecem, não busqueis meio de importuná-las. Por certo, Allah é Altíssimo, Grande.”
(Surata An-Nisā’, 4:34 — tradução de Helmi Nasr)
Em algumas traduções em inglês, a expressão “batei-lhes” é intensificada com termos como “beat them” ou até “scourge them”, distorcendo gravemente o sentido do árabe original “wa-dribūhunna”. É, portanto, necessário contextualizar linguística e religiosamente o termo, como fizeram os estudiosos tradicionais, para compreender a sabedoria por trás desse versículo.
1. O Islam: justiça e proibição da opressão
Antes de qualquer análise linguística, é essencial lembrar o princípio universal que o Islam estabelece: a proibição da injustiça e da opressão sob todas as formas. O Profeta Muhammad ﷺ relatou que Allah ﷻ disse:
“Antes da criação do universo, Eu proibi-Me de oprimir e odeio quando alguém oprime.”
(Hadith Qudsi – Sahih Muslim, 2577)
Assim, qualquer interpretação que implique injustiça, violência ou abuso é automaticamente inválida. A revelação islâmica veio precisamente para corrigir os abusos existentes nas sociedades pré-islâmicas e estabelecer um código de ética baseado em equidade, misericórdia e respeito mútuo.
2. O contexto histórico da revelação
Antes da revelação do Islam, a condição da mulher nas terras árabes e em grande parte do mundo era degradante. As mulheres eram tratadas como propriedade, herdadas, vendidas, forçadas a casamentos e privadas de qualquer direito econômico ou social.
O Islam, revelado num contexto de ignorância e tribalismo, revolucionou completamente o estatuto da mulher, concedendo-lhe:
- direito à herança,
- direito à propriedade,
- direito ao consentimento no casamento,
- direito à educação,
- direito à separação (khul‘),
- e dignidade social e espiritual.
O Alcorão veio, portanto, para reformar corações e comportamentos, introduzindo gradualmente uma ética elevada de convivência e responsabilidade familiar.
3. Transliteração e análise linguística
Transliteração do verso 4:34:
Ar-rijālu qawwāmūna ‘ala an-nisā’i bimā faḍḍalallāhu ba‘ḍahum ‘alā ba‘ḍin wa bimā anfaqū min amwālihim. Faṣ-ṣāliḥātu qānitātun ḥāfiẓātun lil-ghaybi bimā ḥafiẓallāh, wal-lātī takhāfūna nushūzahunna fa‘iẓūhunna wahjurūhunna fīl-maḍāji‘i wa-ḍribūhunna, fa’in aṭa‘nakum fa-lā tabghū ‘alayhinna sabīlan, inna Allāha kāna ‘aliyyan kabīrā.
A tradução literal pode gerar confusão porque três termos centrais exigem interpretação contextual e idiomática: fa‘iẓūhunna, wahjurūhunna, wa-ḍribūhunna.
4. As três etapas de reconciliação conjugal
O Alcorão apresenta um método de reconciliação em caso de desobediência grave (nushūz) — isto é, quando a esposa ameaça a estabilidade da família com conduta indecente ou recusa de deveres conjugais básicos. Note-se que o objetivo é restaurar o equilíbrio, nunca punir.
a) Fa‘iẓūhunna — aconselhem-nas com palavras
A raiz “wa‘aẓa” significa admoestar com bondade e razão. O marido deve, portanto, usar palavras suaves e aconselhamento sábio para lembrá-la de seus deveres perante Allah e o impacto de seu comportamento na família.
b) Wahjurūhunna — afastem-se fisicamente (não tocar)
A raiz “hajara” implica separação física, não agressão. Segundo o exegeta Al-Zamakhsharī em Al-Kashshāf, significa “não se deitar com elas, não compartilhar os lençóis”. O objetivo é mostrar descontentamento e incentivar reflexão, preservando a dignidade da mulher.
c) Wa-ḍribūhunna — uma medida simbólica, não violenta
A raiz “ḍaraba” possui múltiplos significados no árabe, como partir, separar, viajar, fazer um exemplo, ou tocar levemente. No contexto deste verso, os estudiosos clássicos — como Ibn ʿAbbās, Al-Ṭabarī e Al-Qurṭubī — explicam que significa um toque leve e simbólico, sem causar dor nem marca, e somente após as duas primeiras etapas falharem.
O Profeta ﷺ, que é o intérprete prático do Alcorão, jamais levantou a mão contra uma mulher. Pelo contrário, ele condenou severamente qualquer tipo de agressão:
“Alguns de vocês batem em suas esposas como batem em escravos, e depois dormem com elas à noite?”
(Sahih al-Bukhari, 6042; Sahih Muslim, 2855)
“Não batam nas servas de Allah.”
(Abu Dawud, 2146; Ibn Majah, 1985)
“O melhor dentre vós é aquele que é o melhor para sua esposa, e eu sou o melhor dentre vós para as minhas esposas.”
(At-Tirmidhi, 3895; Ibn Majah, 1977; sahih por Al-Albani em Sahih al-Jami‘, 3314)
Assim, qualquer tradução que transmita “bater” ou “espancar” é linguística e teologicamente incorreta.
5. A visão dos exegetas e estudiosos
Os estudiosos clássicos interpretaram o versículo dentro de limites morais rigorosos:
- Ibn Kathīr enfatiza que “ḍaraba” aqui é “golpe leve e simbólico, que não cause dor, nem deixe marcas, e nunca no rosto”.
- Al-Qurṭubī afirma: “Se ele ultrapassar o limite e causar ferimento, deverá ser punido”.
- Ash-Shawkānī, em Fath al-Qadīr, explica que “a ação é apenas pedagógica e nunca física”.
- Al-Ṭabarī adverte que o passo é condicional e limitado, e o ideal é nunca ser usado.
O Dr. Jamal Badawi (St. Mary University, Canadá) explica que essas três etapas são, na verdade, passos preventivos antes do divórcio, visando restaurar a harmonia conjugal.
6. A proibição da violência doméstica
Em nenhum ponto o Islam legitima o abuso ou a agressão. O Alcorão e a Sunnah são claros em proibir a injustiça e em proteger a dignidade da mulher.
O Profeta ﷺ nunca aprovou a violência conjugal. Pelo contrário, ele ensinou que o casamento é baseado em rahmah(misericórdia) e mawaddah (afeição):
“E, entre os Seus sinais, está ter-vos criado esposas, de vós mesmos, para que nelas encontreis sossego; e Ele pôs entre vós afeição e misericórdia.”
(Surata Ar-Rūm, 30:21)
A agressão física, verbal ou psicológica contradiz este princípio. Além disso, o Islam garante à mulher o direito de pedir o divórcio (khul‘) se o marido for abusivo.
“Uma mulher tem o direito de pedir divórcio quando o seu marido a trata mal de maneira que ela não possa suportar, ou se ele não cumpre suas obrigações financeiras, ou se ele participa em más ações — se ela pensa que deixá-lo é o melhor para sua fé e dignidade.”
(Fatwa do Shaykh Waleed al-Firyaan — IslamQA)
7. A questão da tradução
Muitas traduções modernas do Alcorão em português e inglês foram feitas sem o devido domínio do árabe clássico e do contexto profético. Por isso, palavras polissêmicas como “ḍaraba” foram traduzidas literalmente como “bater”, levando a interpretações deturpadas.
O árabe é uma língua rica em metáforas, e a ausência de nuance pode alterar completamente o significado. Um exemplo: a expressão “dar um exemplo” em árabe usa o mesmo verbo ḍaraba. Assim, o uso de “ḍribūhunna” neste contexto pode significar um gesto simbólico de afastamento final, não um ato de violência.
Como explica o exegeta Ibn ʿAshūr em At-Tahrīr wa al-Tanwīr, o versículo deve ser lido como sequência gradual de reconciliação, e não como autorização para abuso.
8. A função moral e jurídica do versículo
O versículo 4:34 não é uma “licença para violência”, mas um mecanismo jurídico para prevenir divórcio e proteger a família. Ele dá estrutura a um processo de reconciliação, enfatizando o diálogo e a paciência.
O Alcorão reconhece que o ser humano é falível, mas estabelece etapas para lidar com conflitos conjugais sem injustiça e sem impulsividade.
No fim do versículo, Allah ordena:
“Então, se elas vos obedecem, não busqueis meio de importuná-las. Por certo, Allah é Altíssimo, Grande.”
(Surata An-Nisā’, 4:34)
Isto reforça que o objetivo é a restauração da harmonia, não a imposição de poder ou violência.
9. O Islam e a igualdade de valor
Homens e mulheres são espiritualmente iguais diante de Allah ﷻ:
“Em verdade, os crentes e as crentes, os devotos e as devotas, os verídicos e as verídicas… Allah preparou para todos perdão e imensa recompensa.”
(Surata Al-Ahzāb, 33:35)
O versículo 4:34, portanto, não expressa superioridade moral, mas responsabilidade financeira e protetiva. O homem é qawwām (mantenedor) porque é obrigado a prover, sustentar e proteger — não a dominar.
Conclusão
A mensagem do versículo 4:34 é de reforma moral, não de opressão. Quando estudado em seu contexto linguístico, histórico e espiritual, o Alcorão revela um modelo de equilíbrio e compaixão entre homem e mulher.
Nenhum dos ensinamentos de Allah ou de Seu Mensageiro ﷺ autoriza a violência doméstica. O Islam ordena ao homem ser cuidadoso, gentil e justo, e à mulher ser colaborativa e digna. O Profeta ﷺ é o melhor exemplo: um marido compassivo, paciente e amoroso, cuja conduta refuta todas as falsas acusações de opressão.
“O melhor de vós é aquele que é melhor para sua esposa.”
(At-Tirmidhi, 3895)
Assim, o Islam não apenas proíbe a opressão, mas eleva o matrimônio a um espaço de misericórdia e respeito mútuo — um reflexo do próprio nome de Allah: Ar-Rahmān, o Todo-Misericordioso.
Referências
- Alcorão Sagrado – Tradução Dr. Helmi Nasr.
- Tafsir Ibn Kathīr; Tafsir At-Ṭabarī; Tafsir Al-Qurtubī; Al-Kashshāf de Zamakhsharī.
- Ṣaḥīḥ al-Bukhārī (6042); Ṣaḥīḥ Muslim (2855); At-Tirmidhi (3895); Ibn Majah (1977).
- At-Tahrīr wa al-Tanwīr – Ibn ʿAshūr.
- Fatwa Shaykh Waleed al-Firyaan – IslamQA.
- Jamal Badawi, The Status of Women in Islam, St. Mary University.
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