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Introdução: um profeta árabe esquecido
O profeta Shuaib, conhecido na literatura bíblica como Jetro, é um dos quatro únicos profetas árabes mencionados pelo nome no Alcorão Sagrado. Muitos sábios acreditam que Shuaib era o homem idoso que ofereceu segurança a Mussa (que a paz esteja sobre ambos) através da mão de uma de suas filhas em casamento, quando ele fugiu do Egito.
Não existem fontes autênticas que confirmem ou neguem isso, mas o Alcorão nos conta que o profeta Shuaib era do povo de Madian e foi lá que Mussa se refugiou. Seja ou não o mesmo sábio que acolheu Mussa, Shuaib ocupa um lugar especial na história profética por ser um exemplo de coragem, honestidade econômica e firmeza diante da corrupção social.
O contexto de Madian e Al-Aykah
Mussa e Shuaib (que a paz esteja sobre eles) viveram em épocas marcadas por grande injustiça social. Vasculhando as histórias dos profetas Mussa e Shuaib constatamos que o profeta Shuaib era um dos poucos homens verdadeiramente bons e respeitáveis de Madian. O povo era composto por bandidos e ladrões, enganavam uns aos outros e àqueles que porventura cruzassem por suas cidades e campos nômades.
No geral, levavam uma vida aparentemente feliz e próspera devido às graças de Allah, louvado seja. Entretanto, ao invés de serem gratos, queriam acumular mais, mentindo e enganando com esse fim. Afastaram-se muito da religião de Allah, muitos eram ateus, enquanto que outros adoravam a floresta ou deuses da natureza.
Segundo Ibn Kathir e outros exegetas, os midianitas eram árabes que viviam na região de Ma’an (Jordânia atual), parte daquilo que se considera hoje a Grande Síria. Eram descendentes de Midiã, filho de Ibrahim, mas, ao contrário de seu pai, mergulharam no politeísmo e na adoração de ídolos como Baal e divindades ligadas à fertilidade e ao dinheiro.
Nessa região também se encontrava Al-Aykah, uma área rica em vegetação, mencionada no Alcorão como outra designação do povo que rejeitou Shuaib. A abundância de recursos e o controle de rotas comerciais fizeram com que a tentação da fraude e do roubo se tornasse ainda mais forte, e justamente nesse cenário Allah enviou Shuaib com uma mensagem de reforma espiritual e econômica.
A missão de Shuaib: adoração a Allah e justiça econômica
Como foi o caso com todos os profetas de Allah, a missão do profeta Shuaib era chamar seu povo para adorar somente a Allah e seguir Seus mandamentos. Tentou fazê-lo lembrando-lhes das graças e favores concedidos a eles por Allah, mas eles permaneceram negligentes. Os que não tinham abandonado completamente a crença, adoravam da maneira incorreta de seus antepassados e diziam a Shuaib: “Quer que abandonemos a religião de nossos antepassados? Não podemos fazer o que queremos em nossa propriedade?”, desdenhavam.
Extraído do livro História dos Profetas, do sábio Ibn Kathir, Allah, o Poderoso, revelou a história de Shuaib, que paz esteja sobre ele:
“E, ao povo de Madian, enviamos seu irmão Shuaib. Disse: ‘Ó meu povo! Adorai a Allah; não tendes outro deus que não seja Ele. Com efeito, chegou-vos uma evidência de vosso Senhor. Então, completai, com equidade, a medida e o peso, e não subtraias das pessoas suas cousas, e não semeeis a corrupção na terra, depois de reformada. Isso vos é melhor, se sois crentes. E não fiqueis à espreita, em cada senda, ameaçando e afastando do caminho de Allah os que n’Ele creem, e buscando torná-lo tortuoso. E lembrai-vos do tempo em que éreis poucos, e Ele vos multiplicou. E olhai como foi o fim dos corruptores.’
‘E, se há, entre vós, uma fação que crê naquilo com que fui enviado, e uma fação que não crê, pacientai, até que Allah julgue, entre nós. E Ele é O Melhor dos juízes.’
‘Os dignitários de seu povo, que se ensoberbeceram, disseram: “Em verdade, far-te-emos sair, ó Shuaib, e aos que creem contigo, de nossa cidade, ou regressareis à nossa crença.”
Ele disse: “E ainda que a odiássemos? Com efeito, forjaríamos mentiras acerca de Allah, se regressássemos à vossa crença, após Allah haver-nos livrado dela. E não nos é admissível regressarmos a ela, a menos que Allah, nosso Senhor, o queira. Nosso Senhor abrange todas as cousas, em ciência. Em Allah confiamos. Senhor nosso! Sentencia, com a verdade, entre nós e nosso povo, e Tu és O Melhor dos sentenciadores.”
E os dignitários de seu povo, que renegavam a Fé disseram: “Em verdade, se seguirdes a Shuaib, por certo, nesse caso, sereis perdedores.”
Então, Shuaib voltou-lhes as costas, e disse: “Ó meu povo! Com efeito, transmiti-vos as mensagens de meu Senhor e aconselhei-vos. Então, como afligir-me com um povo renegador da Fé?”’” (Alcorão 7:85-93)
Nesses versículos vemos que a mensagem de Shuaib tem dois eixos inseparáveis: o monoteísmo puro (tawhid) e a justiça nas relações econômicas. Ele denuncia diretamente a fraude na medida e no peso, a corrupção nas estradas – onde bandidos assaltavam viajantes e cobravam pedágios injustos – e a prática de afastar as pessoas do caminho de Allah com ameaças, zombaria e distorções da verdade. Ao mesmo tempo, mostra que essa reforma não é apenas moral, mas também social: devolver às pessoas seus direitos e reconstruir a confiança perdida nas transações do dia a dia.
Fraude, arrogância e perseguição aos crentes
Os midianitas foram, portanto, um povo ganancioso que não acreditava que Allah existisse e que viveu de forma perversa. Trapaceavam na medida, elogiavam suas mercadorias mais do que valiam e escondiam seus defeitos. Mentiam para seus clientes e enganavam viajantes, aproveitando-se da posição estratégica de suas cidades. Essas práticas destruíam a confiança mútua e abriam espaço para um ambiente de injustiça, violência e descrença.
Shuaib, descrito em muitos relatos como um orador eloquente, usou todos os meios lícitos para tocar os corações de seu povo. Recordou-lhes o passado em que eram poucos e frágeis, mostrou como Allah os havia multiplicado e fortalecido, e advertiu que a ingratidão levaria à ruína. Ao mesmo tempo, procurou mostrar que seguir a religião dos antepassados às cegas não é um argumento válido quando esses antepassados viviam em erro. A verdadeira honra está em obedecer ao Criador, não em repetir tradições contrárias à justiça e à pureza de fé.
No entanto, como ocorre com muitas sociedades quando confrontadas com a verdade, os poderosos reagiram com arrogância. Os dignitários – chefes tribais e comerciantes influentes – ameaçaram expulsar Shuaib e os crentes ou forçá-los a retornar ao politeísmo. Não apresentaram argumentos racionais; apenas recorreram à pressão social, à ameaça de banimento e à acusação de que seguir Shuaib significaria “perder” em termos materiais. A resposta de Shuaib foi clara: regressar à idolatria depois que Allah os havia salvado seria uma mentira contra Allah, e os crentes nunca aceitariam isso.
A destruição dos corruptos de Madian e Al-Aykah
Quando o convite de Shuaib foi rejeitado repetidas vezes e a perseguição aos crentes se intensificou, Shuaib voltou-se a Allah pedindo que julgasse entre ele e seu povo com a verdade. Ibn Kathir relata que então Allah decretou um castigo em etapas, que serviu tanto de alerta quanto de punição. Primeiro, um calor abrasador tomou conta da região. O vento parou de soprar, as sombras não traziam alívio e as pessoas sentiam como se o céu estivesse em chamas. Em vez de refletirem e se arrependerem, permaneceram obstinadas, até que viram uma nuvem se formar acima de um vale próximo.
Pensando que se tratava de uma nuvem de chuva que lhes traria descanso, todos correram para debaixo dela em busca de sombra e frescor. No entanto, a nuvem transformou-se em “dossel” de castigo: raios, fogo e um terrível estrondo desabaram sobre eles, enquanto um terremoto sacudiu a terra. Os malfeitores morreram naquele estado de horror, e Shuaib e os crentes foram salvos.
Allah, o Exaltado, disse:
“Os habitantes de Al-‘Aikah desmentiram aos Mensageiros. Quando Shuaib lhes disse: ‘Não temeis a Allah? Por certo, sou-vos leal Mensageiro: Então, temei a Allah e obedecei-me. E não vos peço prêmio algum por isso (minha mensagem do Monoteísmo Islâmico). Meu prêmio não impende senão aO Senhor dos mundos. Completai a medida, e não sejas dos fraudadores. E pesai tudo, com total eqüidade. E não subtraiais dos homens suas cousas e não semeeis a maldade na terra, sendo corruptores. E temeis a Quem vos criou, vós e as gerações antepassadas.’
‘Disseram: “Tu és, apenas, dos enfeitiçados; E tu não és senão um ser humano como nós, e, por certo, pensamos que és dos mentirosos. Então, faze cair sobre nós pedaços do céu, se és dos verídicos!”
Disse: “Meu Senhor é bem Sabedor do que fazeis.”
E desmentiram-no; então, o castigo do dia do dossel apanhou-os. Por certo, foi castigo de um terrível dia. Por certo, há nisso um sinal, mas a maioria deles não é crente. E, por certo, teu Senhor é O Todo-Poderoso, O Misericordiador.’” (Alcorão 26:176-191)
Esses versículos resumem o fim trágico de um povo que tinha todas as oportunidades para se arrepender, mas escolheu desafiar Allah, zombar de Seu Mensageiro e pedir, em tom de desafio, que o castigo caísse sobre eles. Quando o castigo veio, não houve como fugir. Ao mesmo tempo, é um sinal de misericórdia para os que viriam depois, pois a história permanece como lembrete de que a injustiça econômica e o afastamento da adoração sincera a Allah têm consequências inevitáveis, ainda que sejam adiadas.
Shuaib, os midianitas e a tradição bíblica
Notas históricas ajudam a compreender melhor o contexto de Shuaib. Os Midianitas são o povo originado de Midiã, filhos de Abraão com Quetura, mas ao contrário de seu pai, os Midianitas adoravam vários deuses, entre eles Baal (o deus do dinheiro) e Ashteroth, a “rainha do céu” da Bíblia Hebraica ou Aserá (em português) que, segundo algumas versões mais antigas da Bíblia cristã, seria a “companheira de Yaweh (Deus)”.
Os descendentes desse povo hoje são, de acordo com alguns estudiosos, os curdos (Essa informação é citada por J. Edward Wright, presidente do Centro de Estudos Judaicos do Arizona e do Instituto Albright de Pesquisas Arqueológicas). Embora haja debates acadêmicos sobre detalhes étnicos e arqueológicos, o ponto principal permanece: um povo que tinha ligação de sangue com a linhagem de Ibrahim (Abraão), mas se afastou da sua crença monoteísta e mergulhou no culto a deuses associados à riqueza e ao poder.
Na literatura bíblica, Jetro aparece como sogro de Moisés e sacerdote de Midiã, um homem justo que reconhece a missão de Moisés e o aconselha com sabedoria. Muitos sábios muçulmanos identificam Jetro com o profeta Shuaib, embora o Alcorão não confirme nem negue isso explicitamente. O que o Alcorão deixa claro é que, em Madian, havia um profeta que chamava o povo à justiça e ao monoteísmo, e que parte desse povo rejeitou a mensagem e foi destruída. Assim, para o muçulmano, o foco não está em detalhes que não foram confirmados pelo texto revelado, mas nas lições morais e espirituais que a história oferece.
Lições contemporâneas da história de Shuaib
A mensagem de Shuaib é profundamente atual. Vivemos em uma época em que a economia muitas vezes se baseia em contratos obscuros, propaganda enganosa, concentração de riqueza nas mãos de poucos e exploração de quem está em posição vulnerável. A fraude na medida e no peso, que no tempo de Shuaib se relacionava a balanças e sacas de grãos, hoje pode ser vista em adulteração de produtos, manipulação de dados, juros abusivos, corrupção em contratos públicos ou sonegação de impostos. Em todos esses casos, alguém ganha à custa da injustiça contra outro, e isso é exatamente o que Shuaib denunciava.
Ao mesmo tempo, a reação dos líderes de Madian é parecida com a reação de muitos poderosos hoje. Quando são chamados a mudar, respondem: “É assim que o mercado funciona”, “sempre fizemos assim”, “se seguirmos essa ética vamos perder dinheiro”. Foi justamente esse tipo de argumento que o povo de Shuaib usou ao dizer que segui-lo significaria serem “perdedores”. A resposta do profeta, porém, nos lembra que o verdadeiro sucesso é agradar a Allah e que nenhuma estratégia econômica, por mais lucrativa que pareça, vale o preço da injustiça, da corrupção e do afastamento do Criador.
A história também destaca a paciência e a confiança de Shuaib. Mesmo diante da ameaça de expulsão, ele declarou: “Em Allah confiamos”, entregando o resultado final ao julgamento de Allah. Para os muçulmanos de hoje que enfrentam pressões para comprometer princípios éticos no trabalho, nos negócios ou na vida familiar, Shuaib é um modelo de firmeza cortês: ele aconselha, argumenta, recorda os favores de Allah e alerta para o castigo, mas não cede naquilo que é essencial. Quando percebe que a rejeição se tornou definitiva, entrega o assunto a Allah e se afasta com dignidade.
Por fim, a destruição do povo de Madian e de Al-Aykah não é apenas um relato de punição, mas um aviso de misericórdia. Allah preservou a história para que sucessivas gerações possam enxergar as consequências de normalizar a injustiça. A partir dela aprendemos que a fé verdadeira não é apenas um conjunto de rituais; ela deve se refletir na honestidade, na transparência nas transações, no cuidado com os mais vulneráveis e na recusa em colaborar com qualquer forma de corrupção.
Conclusão
Shuaib (Jetro, que a paz esteja sobre ele) foi um profeta árabe que uniu em sua mensagem a adoração sincera ao Deus Único e a reforma ética das relações econômicas. Ele enfrentou um povo que tinha orgulho de suas tradições, de sua riqueza e de seu poder, mas que considerava normal explorar o próximo e distorcer a verdade. Sua história, preservada no Alcorão e explicada por estudiosos como Ibn Kathir, não é um relato distante: é um espelho de nossas escolhas individuais e coletivas.
Ao estudar o profeta Shuaib, o leitor é convidado a revisar o modo como ganha, gasta e administra seu dinheiro; a refletir sobre a sinceridade de sua fé; e a lembrar que Allah dá tempo, mas não negligencia nenhuma injustiça. Assim como o povo de Madian recebeu sinais claros antes do castigo, também nós recebemos sinais diariamente: nas revelações de Allah, nas histórias dos profetas, nas consequências visíveis da corrupção ao nosso redor. Cabe a cada um decidir se seguirá o caminho dos arrogantes que rejeitaram Shuaib ou o caminho dos poucos crentes que se mantiveram firmes e foram salvos.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução do sentido dos versículos para o português por Helmi Nasr.
- Ibn Kathir, Ismail. Stories of the Prophets (Qasas al-Anbiya’), capítulo sobre o profeta Shuaib.
- “Stories of the Prophets – Shu‘ayb”, SunnahOnline.com, com base na obra de Ibn Kathir.
- Wright, J. Edward. Estudos sobre os midianitas e o contexto histórico-arqueológico da região de Madian.
- Obras clássicas de tafsir, como Tafsir Ibn Kathir e Tafsir At-Tabari, em seus comentários a Al-A‘raf 7:85-93 e Ash-Shu‘arā’ 26:176-191.
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