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Introdução: um profeta pouco conhecido fora do Islam
Allah, louvado seja, disse no Alcorão que profetas e mensageiros foram enviados a todas as nações da terra, sempre com a mesma mensagem central: adorar somente o Deus Único, sem parceiros, filhos ou filhas. A crença islâmica não é local ou tribal; é uma mensagem universal repetida por diferentes mensageiros em épocas e lugares distintos. Entre esses mensageiros está o profeta Salih (que a paz esteja sobre ele), cuja história é menos conhecida fora do Islam, mas profundamente significativa para a compreensão do monoteísmo e das consequências da arrogância humana.
A maioria dos profetas mencionados no Alcorão e na Sunnah do Profeta Muhammad ﷺ também aparece, de alguma forma, nas tradições judaicas e cristãs: Nuh, Ibrahim, Musa e ‘Issa, por exemplo. O profeta Salih, porém, é um dos quatro profetas árabes mencionados pelo nome nas fontes islâmicas – os outros são Hud, Shu‘ayb e Muhammad ﷺ – e sua narrativa é preservada de forma detalhada apenas nos textos islâmicos. Isso faz de sua história uma oportunidade especial para conhecer melhor a forma como o Alcorão apresenta a relação entre fé, arrogância, poder e destruição.
“Antes de ti, havíamos enviado mensageiros; as histórias de alguns deles te temos relatado, e há aqueles dos quais nada te relatamos. E a nenhum mensageiro é dado apresentar sinal algum, senão com o beneplácito de Allah.” (Alcorão 40:78)
Quem foi Salih e qual era sua missão
O profeta Salih era um homem piedoso e virtuoso que detinha uma posição de liderança na sua comunidade. Era conhecido por sua honestidade, sabedoria e bom caráter, razão pela qual seu povo o respeitava antes mesmo da profecia. Quando Allah o escolheu como mensageiro, porém, esse respeito se transformou em rejeição para muitos. A mensagem que ele trazia parecia ameaçar o modo de vida luxuoso e idólatra de Thamud.
Salih foi enviado para admoestar o povo de Thamud de que Allah não estava satisfeito com seu comportamento e que os abençoaria – com chuvas, segurança e prosperidade – se corrigissem seus costumes injustos e corruptos. Seu chamado era o mesmo de todos os demais profetas: adorar somente a Allah, abandonar os ídolos, praticar a justiça e evitar a opressão. Ele lembrava o povo de que as bênçãos que possuíam não eram fruto exclusivo de seu esforço, mas um favor divino que podia ser retirado a qualquer momento.
Apesar de sua posição social, o convite de Salih encontrou resistência. Alguns perceberam a sabedoria de suas palavras e aceitaram o monoteísmo, mas a maioria das pessoas desacreditou e passou a prejudicá-lo com palavras e ações. Como frequentemente acontece com os mensageiros de Allah, a hostilidade veio especialmente dos líderes e notáveis, que temiam perder prestígio e poder político caso o povo atendesse ao chamado profético.
“Ó Salih, eras para nós a esperança antes disto. Pretendes impedir-nos de adorar o que nossos pais adoravam? Estamos em uma inquietante dúvida acerca do que nos predicas.” (Alcorão 11:62)
Ad e Thamud: duas civilizações que desapareceram
Ad e Thamud foram duas grandes civilizações mencionadas no Alcorão como exemplos históricos de povos que receberam bênçãos materiais extraordinárias, mas foram destruídos por persistirem na arrogância e na recusa em obedecer a Allah. Depois da destruição de Ad, Thamud a sucedeu em poder e grandeza. Viviam em uma região montanhosa, entre planícies férteis e formações rochosas monumentais. O Alcorão descreve como eles esculpiam casas e palácios nas rochas, segura e orgulhosamente:
“Escavais casas nos montes, com vaidade.” (Alcorão 26:149)
O povo levava uma vida luxuosa e perdulária, construindo grandes edificações nas planícies e encravadas nas montanhas, tanto para moradia quanto para ostentação. A prosperidade, em vez de gerar gratidão, alimentou a negligência espiritual. Com o tempo, tornaram-se um povo idólatra e mau, que explorava os mais frágeis, se orgulhava de sua força física e militar, e via as advertências religiosas como um incômodo.
O profeta Salih foi enviado exatamente nesse contexto. Allah tinha lembrado Thamud, por meio dele, de que civilizações anteriores, como Ad, haviam sido destruídas por não atenderem aos mensageiros. Ainda assim, a maior parte do povo repetiu os mesmos erros, confiando em suas construções e poder, como se fossem eternos.
O povo de Thamud e a rejeição da verdade
Salih era, inicialmente, uma figura respeitada. Muitos o viam como alguém promissor, capaz de liderar a tribo em projetos políticos e materiais. Por isso, quando ele passou a denunciar a idolatria e a injustiça, o choque foi ainda maior. O povo não queria um profeta; queria um líder que confirmasse seus desejos. Ao perceberem que a mensagem de Salih exigia mudanças profundas – abandonar ídolos, limitar injustiças, reconhecer a fragilidade humana diante de Allah – decidiram rejeitá-lo.
O Alcorão sintetiza essa reação em um diálogo carregado de ironia e desprezo:
“Ó Salih, eras para nós a esperança antes disto. Pretendes impedir-nos de adorar o que nossos pais adoravam? Estamos em uma inquietante dúvida acerca do que nos predicas.” (Alcorão 11:62)
Além de recorrer ao argumento da tradição (“o que nossos pais adoravam”), muitos ridicularizavam o fato de que Salih fosse um homem como eles, que comia, bebia e vivia em meio ao povo. A recusa não era apenas intelectual, mas emocional e social: aceitar o profeta significaria admitir que seus valores estavam errados, que o orgulho pela própria civilização não bastava, e que deviam submissão a um Senhor acima de qualquer poder humano.
Mesmo diante dessa resistência, Salih insistiu em aconselhá-los com paciência, lembrando-lhes que a verdadeira força não está nas pedras esculpidas, mas na obediência ao Criador.
O grande sinal: a camela de Allah
Diante da firmeza de Salih e do crescimento, ainda que minoritário, de um grupo de seguidores, os líderes de Thamud decidiram exigir um sinal extraordinário. Reuniram-se em um lugar de encontro, na sombra de uma grande montanha, e pediram que Salih provasse que o Deus Único do qual falava era realmente poderoso. Queriam que ele realizasse um milagre visível: fazer com que uma camela única e incomparável emergisse da rocha.
O pedido foi específico e desafiador. Salih perguntou se realmente creriam se o sinal lhes fosse concedido. Eles responderam afirmativamente. Então ele suplicou a Allah, e o povo assistiu. Pela graça divina, uma enorme camela fêmea, grávida de dez meses, emergiu das rochas na base da montanha, diante de todos. Não era um truque de ilusionismo nem um animal comum; era um sinal direto do poder de Allah e uma resposta exata ao desafio lançado.
Pela graça de Allah, uma enorme camela grávida de dez meses emergiu das rochas na base da montanha. Algumas das pessoas entenderam a magnitude desse milagre, mas a maioria continuou a descrer. Viram um enorme e estonteante sinal e, ainda assim, mantiveram-se arrogantes e teimosos.
“Havíamos apresentado ao povo de Thamud a camela como um sinal evidente, e eles a trataram erradamente;” (Alcorão 17:59)
Relatos de exegese, como os de Ibn Kathir, mencionam que a camela era tão grande que podia beber toda a água dos poços da cidade em um só dia, e que produzia leite suficiente para alimentar toda a população. Isso reforçava sua natureza miraculosa e deixava claro que ela não era uma ameaça à sobrevivência de ninguém, mas um teste espiritual: quem aceitaria o sinal com gratidão e submissão, e quem deixaria a inveja e a avareza dominar o coração?
A responsabilidade diante do milagre
A partir daquele momento, a camela se tornou “a camela de Allah”, um sinal vivo circulando entre eles. Salih estabeleceu regras simples e justas: em um dia, a água seria da camela; no outro, seria do povo. Em troca, os poços estariam sempre cheios e a camela os alimentaria com seu leite. Não era uma perda, mas uma bênção adicional. Ainda assim, muitos reclamavam de que a camela bebia demais ou atrapalhava outras criações. A linguagem da ingratidão começou a se espalhar: em vez de verem uma misericórdia, viram um incômodo.
Embora muitas pessoas acreditassem em Allah, ouvissem o profeta Salih e compreendessem o milagre da camela, muitas outras se recusavam teimosamente a ouvir. As pessoas começaram a reclamar de que a camela bebia muita água ou que ela assustava as outras criações. O profeta Salih começou a temer pela camela. Alertou seu povo de um grande tormento que recairia sobre eles se fizessem mal a camela.
“Ó povo meu, eis aqui a camela de Allah, a qual é um sinal para vós! Deixai-a pastar na terra de Allah e não a maltrateis, porque um castigo, que está próximo, açoitar-vos-á.” (Alcorão 11:64)
Assim, o teste estava claro: respeitar o sinal de Allah, aceitar a limitação mínima que ele representava e reconhecer que a terra, a água e os animais pertencem ao Criador, ou insistir na arrogância e na recusa.
O complô contra a camela e a desobediência extrema
Um grupo de homens, encorajados por mulheres influentes da cidade e movidos pela inveja e pela raiva, planejou matar a camela. O Alcorão descreve que havia, na cidade, nove indivíduos particularmente corruptos, especialistas em causar desordem, que lideraram esse plano. Eles combinaram atacar a camela na primeira oportunidade, ignorando totalmente o aviso de Salih e a seriedade de atentar contra um sinal direto de Allah.
“E havia, na cidade, nove indivíduos, que causaram corrupção na terra, e não praticavam o bem. Eles disseram: ‘Juramos que o surpreenderemos a ele e à sua família durante a noite, matando-os; então, diremos ao seu protetor: Não presenciamos o assassinato de sua família, e somos verazes (nisso).’” (Alcorão 27:48-49)
Um dia, encontraram a camela afastada e indefesa. Flecharam-na e a atingiram com uma espada até que ela caiu ao chão e morreu. Segundo alguns relatos, também mataram o filhote que ela deixara. Em vez de temor, sentiram alívio e orgulho; parabenizaram-se uns aos outros e riram de Salih, como se tivessem vencido um obstáculo político.
Um grupo de homens encorajados por suas mulheres planejaram matar a camela e aproveitaram a primeira oportunidade para flechá-la e atingi-la com uma espada. A camela caiu no chão e morreu. Os assassinos celebraram e parabenizaram uns aos outros e os descrentes riram e ironizaram Salih. O profeta Salih alertou o povo que um grande tormento recairia sobre eles em três dias, mas tinha esperança de que percebessem o erro de seu comportamento e buscassem o perdão de Allah.
Esse foi o ponto máximo da rebeldia: não apenas rejeitar a mensagem, mas atacar o próprio sinal que haviam pedido como prova.
Três dias de prazo e a destruição de Thamud
Depois do assassinato da camela, o profeta Salih anunciou que a punição de Allah viria em três dias. Esse prazo era, ao mesmo tempo, uma declaração e uma última oportunidade de arrependimento. Alguns relatos mencionam que o semblante das pessoas e a cor de seus rostos mudaram sucessivamente a cada dia, tornando evidente que algo terrível se aproximava.
O profeta Salih disse: “Ó povo meu, eu vos comuniquei a mensagem do meu Senhor e vos aconselhei; porém, vós não apreciais os conselheiros.” (Alcorão 7:79)
Apesar disso, o povo de Thamud ironizou as palavras de Salih e planejou destruí-lo e à sua família de forma tão brutal quanto a que tinham matado a camela. Allah, porém, salvou o profeta Salih e todos os seus seguidores; empacotaram alguns poucos pertences e, com os corações pesados, mudaram para outro lugar. Quando se completaram os três dias, o aviso tornou-se realidade.
Depois de três dias, o céu se encheu de raios e trovões e a terra tremeu violentamente. Um estrondo terrível – descrito no Alcorão como “o Grito” – foi seguido por um terremoto que derrubou edifícios e lançou os arrogantes ao chão. Ibn Kathir relata que o povo de Salih caiu morto, todos ao mesmo tempo, como se fossem troncos vazios espalhados pela terra.
“Foram, pois, fulminados pelo Grito, logo ao amanhecer. Então, não puderam levantar-se, nem foram socorridos.” (Alcorão 54:38-39)
Ibn Kathir disse que o povo de Salih caiu morto, todos ao mesmo tempo. Sua arrogância e descrença não puderam salvá-los, muito menos os seus ídolos. Suas edificações enormes e extravagantes não os protegeram. Allah continua a enviar orientação clara para a humanidade, mas os incrédulos persistem em sua arrogância e negação. Allah é misericordioso e perdoador. Ama perdoar. Entretanto, os avisos de Allah não devem ser ignorados. A punição de Allah, como o povo de Thamud experimentou, pode ser rápida e severa.
Vestígios históricos de Thamud e lição para os viajantes
O Alcorão menciona que as ruínas de Thamud permaneceram visíveis para os viajantes das rotas árabes, como um lembrete histórico. Hoje, a região conhecida como Madain Salih, no noroeste da Península Arábica, preserva túmulos e construções esculpidas na rocha, datados de épocas posteriores, mas associados, na memória islâmica, aos povos que habitaram a área. A tradição profética desaconselha que se visite tal local de forma distraída, como se fosse apenas um ponto turístico, e orienta que o crente o faça refletindo sobre a destruição de quem desobedeceu a Allah.
Esses vestígios lembram que nenhuma civilização, por mais avançada em engenharia, comércio ou poder militar, está acima das leis morais estabelecidas pelo Criador. Civilizações vêm e vão; o que permanece é o valor da fé e da retidão.
Lições espirituais da história de Salih
A história de Salih e do povo de Thamud não é apenas um relato antigo; é um espelho para qualquer sociedade que se deslumbre com o próprio poder e esqueça a origem de suas bênçãos. Entre as principais lições estão a necessidade de reconhecer que toda prosperidade é um favor de Allah, a importância de ouvir conselhos sinceros, a gravidade da ingratidão diante de sinais claros e o perigo de seguir cegamente líderes que se opõem à verdade.
O profeta Salih demonstra, também, a postura correta do mensageiro e do crente: clareza na mensagem, paciência diante da rejeição, confiança plena em Allah e desprendimento quanto aos resultados imediatos. Ele cumpriu seu dever, advertiu, aconselhou, insistiu, sofreu hostilidade, mas não abandonou a verdade e, por fim, foi salvo juntamente com aqueles que creram.
A história de Thamud convida cada pessoa a se perguntar: quando recebo alertas e lembretes – seja por meio do Alcorão, de conselhos de pessoas sinceras, ou de acontecimentos que expõem a fragilidade da vida – eu reajo com humildade e mudança, ou com orgulho e resistência? A resposta a essa pergunta define se seguimos o caminho de Salih e seus seguidores, ou o caminho de Thamud, que levou à ruína.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução de Helmi Nasr.
- Ibn Kathir, Qisas al-Anbiya’ (Histórias dos Profetas).
- Ibn Kathir, Tafsir al-Qur’an al-‘Azim (Exegese de 7:73-79, 11:61-68, 26:141-159, 27:45-53).
- Al-Bukhari, Sahih, capítulos sobre os povos antigos e as ruínas de Thamud.
- Muslim, Sahih, capítulos sobre a proibição de entrar nos lugares castigados exceto chorando e refletindo.
- Artigos de síntese histórica e exegética em IslamReligion.com e outras obras de sirah e história islâmica clássica que comentam a narrativa de Thamud e do profeta Salih.
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