Jesus na fé islâmica: servo e mensageiro de Allah
A pergunta sobre os atributos de Jesus, que a paz esteja sobre ele, e a sua missão segundo o Islam surge com frequência em diálogos com cristãos, pois muitos desconhecem o que o Alcorão e a Sunnah realmente ensinam. Em primeiro lugar, é fundamental afirmar que Jesus (‘Isa ibn Maryam) é, para os muçulmanos, um dos maiores profetas e mensageiros de Allah, nascido de maneira milagrosa, sem pai, pela palavra “Sê!”, mas ainda assim servo de Allah, não parte de uma divindade trina. O Alcorão o descreve como Messias, palavra de Allah lançada a Maria e espírito vindo d’Ele, e, ao mesmo tempo, nega de forma categórica que seja deus ou filho de Deus em sentido literal.
Allah diz, respondendo a exageros de alguns cristãos:
“O Messias, Jesus, filho de Maria, não foi senão mensageiro de Allah, e a Sua palavra, que Ele lançou a Maria, e um espírito da parte d’Ele. Crede, pois, em Allah e em Seus mensageiros, e não digais: ‘Três’. Cessai! Será melhor para vós. Em verdade, Allah é uma só divindade. Glorificado seja! Ter um filho está acima da Sua glória. A Ele pertence o que há nos céus e o que há na terra. E basta Allah como Dispensador dos assuntos.” (Surah An‑Nissa’, versículo 171) (4:171)
Assim, os atributos de Jesus no Islam relacionam‑se à sua humanidade honrada: é servo escolhido, mensageiro, Messias, próximo de Allah, mas em nenhum momento objeto de adoração. Sua missão principal foi chamar os Filhos de Israel ao monoteísmo puro, confirmar a Torá original e trazer o Injil como orientação e luz, antes que a mensagem final de Muhammad ﷺ viesse completar o ciclo profético.
Primeira etapa: nascimento milagroso, mensagem e milagres
A primeira etapa da vida de Jesus, que a paz esteja sobre ele, é aquela que se deu antes de sua elevação aos céus, quando os judeus incrédulos tramaram matá‑lo. Nessa fase, seus atributos foram os de qualquer profeta enviado com uma revelação específica, mas com particularidades que o Alcorão destaca. Nasceu sem pai, por milagre, de Maria, que a paz esteja sobre ela, uma das mulheres mais virtuosas da história. Fala‑se, inclusive, que ele falou ainda no berço, defendendo a honra de sua mãe e declarando sua servidão a Allah.
Allah recorda os milagres de Jesus nestes termos:
“(Recorda‑te) de quando os anjos disseram: ‘Ó Maria, por certo, Allah te anuncia a boa nova de uma palavra da parte d’Ele, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, honrado neste mundo e no Outro, e um dos chegados a Allah. […] E fá‑lo‑á mensageiro aos Filhos de Israel:
‘Em verdade, cheguei a vós com um sinal de vosso Senhor: Eu vos criarei, do barro, a figura de um pássaro; então, soprarei nela, e será pássaro, com a permissão de Allah. E curarei o cego de nascença e o leproso e ressuscitarei, com a permissão de Allah, os mortos. E informar‑vos‑ei do que comeis e do que armazenais em vossas casas. Por certo, nisso há um sinal, para vós, se sois crentes.” (Surah Al‑Imran, versículos 45 e 49) (3:45; 3:49)
Outro versículo resume esses milagres, sempre enfatizando “com Minha permissão”, mostrando que o poder é de Allah, não de Jesus:
“E (recorda‑te) de quando Allah disse: ‘Ó Jesus, filho de Maria, lembra‑te de Minha graça sobre ti e sobre tua mãe, quando te fortaleci com o Espírito Sagrado, falando com os homens, no berço e na maturidade; e quando te ensinei o Livro, a sabedoria, a Torá e o Evangelho; e quando modelavas, do barro, algo semelhante à figura de um pássaro, com Minha permissão; então, sopravas nele, e se tornava pássaro, com Minha permissão;
e curavas o cego de nascença e o leproso, com Minha permissão; e quando ressuscitavas os mortos, com Minha permissão; e quando desviei de ti os Filhos de Israel, ao trazeres‑lhes as evidências claras, e os que renegaram, dentre eles, disseram: ‘Isto não é senão magia evidente’.” (Surah Al‑Ma’idah, versículo 110) (5:110)
Nesta etapa, portanto, Jesus é mensageiro aos Filhos de Israel, confirmando a Torá autêntica, conclamando ao tawhid e servindo de testemunha contra seu povo enquanto viveu entre eles. Seus milagres não provam divindade, mas autenticam sua profecia e manifestam o poder de Allah que age por meio de Seus servos escolhidos.
Elevação de Jesus e desmentido da crucificação
Uma característica central da visão islâmica sobre Jesus é a negação de que ele tenha sido efetivamente morto e crucificado. O Alcorão relata que os inimigos de Jesus tramaram contra ele, mas que Allah frustrou esse plano, elevando‑o para Si. A crença correta é que não foram eles que o mataram, mas alguém foi tornado semelhante a ele, e Jesus foi elevado vivo, devendo retornar no fim dos tempos.
Allah diz:
“E por terem dito: ‘Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Allah’. Ora, não o mataram nem o crucificaram, mas pareceu‑lhes assim. E, por certo, os que discordam a seu respeito estão em dúvida acerca disso. Não têm deles ciência alguma, seguem apenas a conjectura. E, com certeza, não o mataram. Pelo contrário, Allah o elevou até Si. E Allah é Todo‑Poderoso, Sábio.” (Surah An‑Nissa’, versículos 157–158) (4:157–158)
Essa passagem responde diretamente à narrativa de crucificação como evento consumado. Do ponto de vista islâmico, Jesus não morreu na cruz nem ressuscitou ao terceiro dia; ao invés disso, foi elevado e permanece vivo, por vontade de Allah, até que desça novamente ao fim dos tempos. Sua missão profética primeira, porém, encerrou‑se nessa elevação: durante sua presença inicial na terra, cumpriu o mandato de chamar ao monoteísmo e trazer o Injil como confirmação da Torá. A segunda etapa, futura, terá outro foco, ligado aos sinais do Dia do Juízo.
Segunda etapa: retorno de Jesus e derrota do Anticristo
A segunda etapa da vida de Jesus, que a paz esteja sobre ele, ocorrerá no fim dos tempos, quando descer novamente à terra. Nessa fase, seus atributos se manifestarão como líder justo da comunidade de Muhammad ﷺ e sinal maior da Hora. Hadiths autênticos, em Sahih Muslim e outras coleções, descrevem sua descida perto de Damasco, sua aparência e suas ações contra o falso messias (Dajjal).
Abu Hurairah narrou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse:
“Por Aquele em Cuja mão está minha alma! Em breve descerá entre vós o filho de Maria como juiz justo. Ele quebrará a cruz, matará os porcos e abolirá a jizya, e a riqueza se tornará tão abundante que ninguém a aceitará.” (Sahih Muslim)
Em narrativas mais detalhadas, é mencionado que Jesus descerá próximo ao minarete branco, a leste de Damasco, vestindo duas peças de tecido amarelado, apoiando‑se nas asas de dois anjos. Seu hálito alcançará a distância do seu olhar, e todo descrente que for tocado por esse hálito morrerá. Ele perseguirá o Dajjal até o portão de Ludd (próximo a Jerusalém) e ali o matará.
Após derrotar o Anticristo, Jesus encontrará os crentes que Allah preservou dessa grande tribulação, tocará seus rostos em sinal de misericórdia e lhes anunciará altos graus no Paraíso. Em seguida, surgirá outra prova gigantesca: as nações de Gog e Magog (Ya’juj e Ma’juj). Esses povos devastarão a terra, mas Jesus e os crentes refugiar‑se‑ão em montanhas, suplicando a Allah até que Ele destrua Gog e Magog de maneira súbita, enviando sobre eles uma forma de castigo que os matará de uma vez.
Bênçãos sobre a terra e morte de Jesus
Os hadiths mencionam que, após a destruição de Gog e Magog, Allah enviará uma chuva abundante que limpará a terra, deixando‑a como um espelho, pura de impurezas. Em seguida, a terra será ordenada a trazer de volta suas bênçãos: os frutos crescerão enormes, os animais produzirão leite em abundância, e haverá tanta prosperidade que um grupo poderá se alimentar de uma única romã, por exemplo, e a sombra de sua casca será vasta. A camela produzirá leite suficiente para saciar grandes grupos, e a riqueza será tão comum que ninguém mais sentirá necessidade de acumulá‑la.
Durante esse período, Jesus regerá a terra conforme a Shari‘ah de Muhammad ﷺ, estabelecendo a justiça, abolindo símbolos de incredulidade (como a cruz) e purificando a crença em Allah Único. Ele não trará nova revelação, não será um “novo” profeta no sentido de lei independente, mas atuará como seguidor e aplicador da mensagem final, o Islam. Depois de um tempo determinado por Allah, Jesus morrerá uma morte natural; os muçulmanos farão por ele a oração fúnebre, e ele será sepultado na terra, como os demais humanos.
Em seguida, quando o período de paz e fé se encerrar, Allah enviará um vento suave e frio que tomará a alma de todo crente verdadeiro; somente os piores permanecerão vivos. Sobre essa humanidade corrompida, que não conhecerá mais a palavra “Allah”, recairá a Última Hora. Dessa forma, a segunda etapa da vida de Jesus encerra‑se com sua morte humana e o esvaziamento da terra de crentes, preparando o cenário para o Juízo Final.
Resumo dos principais atributos e missão de Jesus no Islam
Reunindo essas informações, é possível apresentar, de forma clara, os atributos de Jesus, que a paz esteja sobre ele, e sua missão na visão islâmica, especialmente em diálogo com cristãos. Em seus atributos, Jesus é: servo de Allah, mensageiro, Messias, palavra de Allah lançada a Maria e espírito vindo d’Ele em sentido de honra, nascido de virgem, honrado neste mundo e no Outro, dotado de milagres extraordinários, mas sempre “com a permissão de Allah”. Não é deus nem filho literal de Deus; é profeta humano, protegido por Allah da crucificação e elevado a Ele.
Quanto à sua missão: na primeira etapa, foi enviado aos Filhos de Israel para confirmar a Torá e trazer o Injil, chamando ao tawhid e à retidão moral, e servindo de prova contra seu povo. Na segunda etapa, futura, retornará como um dos grandes sinais da Hora, matará o Dajjal, conduzirá os crentes, rogará a Allah pela destruição de Gog e Magog, governará segundo o Alcorão e a Sunnah, espalhará justiça e bênçãos materiais sobre a terra e, por fim, morrerá como todos os seres humanos.
Essa visão preserva o monoteísmo puro, honra Jesus como um dos maiores profetas e coloca sua história dentro do grande quadro da mensagem única de Allah, que começou com Adão e se completou definitivamente com Muhammad ﷺ.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
- Surah An‑Nissa’ 4:171 e 4:157–158, sobre a natureza de Jesus como mensageiro, palavra de Allah e negação da crucificação.
- Surah Al‑Imran 3:45 e 3:49, e Surah Al‑Ma’idah 5:110, sobre o anúncio do nascimento de Jesus, seus milagres (cura, ressuscitar mortos, pássaro de barro) e sua missão entre os Filhos de Israel.
- IslamQA, fatwas n.º 9514 e 10277, “Jesus in Islam”, sobre as duas etapas da vida de Jesus, seus atributos, missão e retorno no fim dos tempos.
- Hadiths autênticos em Sahih Muslim, Sunan Abi Dawud e outros, sobre a descida de Jesus perto de Damasco, sua derrota do Dajjal, a emergência de Gog e Magog, a abundância de bênçãos e sua morte natural.
- Artigos explicativos sobre os milagres de Jesus e sua posição no Islam, em sites como IslamReligion.com, IslamHouse.com e estudos contemporâneos de ‘aqidah.
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