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Introdução: jejum válido e jejum aceito
O jejum obrigatório do Ramadan é um dos pilares do Islam e não é apenas ficar sem comer e beber até o pôr do sol. Seu objetivo maior é a taqwa (consciência de Allah), como Allah afirma:
“Ó fiéis, está-vos prescrito o jejum, tal como foi prescrito a vossos antepassados, para que temais a Deus.”
(Surah Al-Baqarah, versículo 183)
Ao mesmo tempo, o jejum tem um aspecto jurídico (se está válido ou anulado) e um aspecto espiritual (se foi aceito e recompensado). Há atos que anulam o jejum, outros que não o anulam, mas reduzem enormemente a recompensa. Conhecer essa diferença evita dois extremos: o da negligência, que leva à invalidação do jejum, e o do exagero, que proíbe o que Allah não proibiu.
Este artigo reúne, de forma sistemática, as condições para que algo realmente quebre o jejum, os principais anuladores, o uso de injeções e tratamentos médicos, as práticas que não quebram o jejum (embora exijam cautela) e a gravidade de quebrar o jejum de forma deliberada.
Condições para algo quebrar o jejum
Exceto no caso específico de menstruação (hayd) e sangramento pós-parto (nifas), que anulam o jejum da mulher assim que aparecem, os demais atos só são considerados anuladores do jejum quando três condições se reúnem.
- Conhecimento
A pessoa sabe que aquele ato quebra o jejum. Se é ignorante de forma plausível, especialmente um novo muçulmano ou alguém sem acesso a conhecimento, muitos sábios consideram que o jejum não se anula, embora seja obrigatório aprender e corrigir-se dali em diante. - Consciência (não estar esquecendo que está jejuando)
Quem come ou bebe por puro esquecimento, enquanto está jejuando, não tem seu jejum invalidado. Abu Hurairah relatou que o Profeta ﷺ disse:
“Quem se esquecer de que está jejuando e comer ou beber, que complete o seu jejum, pois foi Allah Quem o alimentou e deu de beber.”
(Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
De acordo com outros relatos autênticos, essa pessoa não precisa compensar nem fazer expiação.
- Livre vontade (não ser forçado)
Se a pessoa é forçada ou coagida a praticar um ato que, em si, quebraria o jejum, o pecado cai dela. Em muitas situações, o jejum também não é considerado anulado, embora isso possa depender do tipo de ato e do grau de coação.
Essas três condições ajudam a distinguir entre deslizes involuntários e violações conscientes e graves à santidade do Ramadan.
Ações que quebram o jejum
Os estudiosos resumiram os principais anuladores do jejum em categorias claras, baseadas no Qur’an, na Sunnah e nos fatawa das grandes referências de Ahlus-Sunnah.
1. Relações sexuais durante o dia de jejum
A relação sexual completa entre esposo e esposa, com penetração, durante o dia de Ramadan, é o mais grave dos atos que anulam o jejum. Se isso ocorre de forma consciente e voluntária, o jejum daquele dia é invalidado, ainda que não haja ejaculação.
Além disso:
- A pessoa deve se arrepender sinceramente.
- Deve completar o dia sem comer e beber, por respeito ao tempo sagrado.
- Deve compensar (qadā’) esse dia após o Ramadan.
- Deve oferecer expiação (kafarah): libertar um escravo; se não puder, jejuar dois meses consecutivos; se não puder, alimentar sessenta pobres.
O famoso hadith de Abu Hurairah narra o caso do homem que disse “estou arruinado” por ter tido relações com a esposa enquanto jejuava, e o Profeta ﷺ o orientou nessa ordem de expiação.
O mesmo veredicto de anulação e pecado grave se aplica se a relação for ilícita (zina, homossexualidade, bestialidade), com agravante da gravidade do pecado. A kafarah também é devida, segundo os pareceres da Lajnah Da’imah.
2. Masturbação e atos que causam ejaculação intencional
Qualquer ato deliberado que leve à ejaculação — seja masturbação com a mão, toques, beijos prolongados, olhares insistentes ou outros meios — quebra o jejum.
O fundamento é o hadith qudsi em que Allah diz:
“Ele deixa seu alimento, sua bebida e seu desejo por Minha causa.”
(Hadith qudsi autêntico em Sahih al-Bukhari)
A realização intencional do desejo pela ejaculação contradiz esse abandono. Quem cai nisso:
- Deve se arrepender.
- Completar o dia em jejum.
- Compensar esse dia após o Ramadan.
A maioria dos sábios não exige kafarah nesses casos, reservando-a para a relação sexual completa durante o dia de Ramadan.
Se houver apenas saída de madhiy (líquido prostático) sem ejaculação, a opinião mais forte é que isso não quebra o jejum, embora seja necessário purificar-se (istinja’) e refazer a ablução.
3. Comer e beber de forma voluntária
Comer ou beber qualquer coisa de forma consciente e voluntária, sabendo que está jejuando, quebra o jejum.
Isso inclui:
- Alimentos e bebidas comuns.
- Remédios orais (comprimidos, xaropes, gotas que chegam ao estômago).
- Qualquer substância que chegue ao estômago por via equivalente (por exemplo, nutrição por sonda).
Se a pessoa come ou bebe por esquecimento, o jejum permanece válido, desde que pare imediatamente ao se lembrar.
Se percebe que já amanheceu (Fajr) ou o sol ainda não se pôs (Maghrib) e, mesmo assim, continua a comer, o jejum é invalidado, e o dia deve ser compensado. Já se a pessoa come pensando sinceramente que ainda é noite, ou que o sol já se pôs, mas depois descobre que se enganou, há diferença de opinião: a maioria exige compensação, enquanto Shaykh al-Islam Ibn Taymiyyah considerou que não precisa compensar se o erro foi sincero.
4. Ingestão de nutrição por vias alternativas
Tudo o que faz o papel de comida e bebida, mesmo sem passar pela boca, é incluído na categoria de “comer e beber”.
Exemplos que quebram o jejum:
- Injeções nutritivas (por exemplo, soluções venosas que substituem alimentação, nutrição parenteral total).
- Transfusões de sangue que visam “fortalecer” ou substituir alimentos (parte dos sábios inclui transfusão geral nesse grupo).
- Diálise renal quando, além de filtrar o sangue, se adicionam substâncias nutritivas significativas (açúcares, sais nutritivos) ao sangue.
Diálise que retira e devolve o sangue puro, sem adição nutritiva, está sob forte divergência; a Lajnah Da’imah considerou, em parecer, que quando há aditivos nutritivos, a diálise quebra o jejum.
5. Hijamah (sangria terapêutica) e retirada de grande quantidade de sangue
Há hadith autêntico em que o Profeta ﷺ disse: “O que faz hijamah (aquele que aplica) e aquele para quem é feita hijamah quebraram o jejum.”
Com base nisso, muitos sábios entenderam que:
- Hijamah durante o dia de jejum quebra o jejum de quem recebe e de quem faz, por enfraquecer fortemente o corpo.
- Retirada de grandes quantidades de sangue (como doações volumosas) entram na mesma regra por analogia.
Já pequenas coletas de sangue para exames, sangramentos de gengiva ou cortes leves não são consideradas anuladores, segundo a opinião predominante.
Devido à divergência, é melhor evitar hijamah durante o dia de Ramadan, salvo necessidade médica, e quando possível, adiá-la para a noite.
6. Vômito provocado intencionalmente
O Profeta ﷺ disse:
“Quem vomitar não intencionalmente não tem que compensar o jejum; mas quem vomitar propositadamente deve compensar.”
(Relatado por Abu Dawud e at-Tirmidhi, classificado como autêntico)
Logo:
- Vômito provocado (enfiar o dedo na garganta, cheirar algo repugnante de propósito etc.) quebra o jejum.
- Vômito involuntário, sem intenção, não o anula.
Se o vômito chega à boca e a pessoa o engole voluntariamente, o jejum é invalidado. Se volta ao estômago involuntariamente, o jejum permanece.
7. Menstruação (hayd) e nifas
Se a mulher vê sangue de menstruação ou pós-parto, mesmo minutos antes do pôr do sol, seu jejum é invalidado naquele dia.
Com base na Sunnah, ela:
- Não jejua enquanto estiver em hayd ou nifas.
- Compensa depois os dias de jejum obrigatórios que perdeu.
- Não comete pecado por não jejuar nesse período, pois é uma desculpa legislada.
Se o sangue termina antes do Fajr e ela já tem a intenção de jejuar, o jejum daquele dia é válido, mesmo que faça o ghusl após a entrada do Fajr.
Uso de injeções e tratamentos médicos
A medicina moderna trouxe muitas situações novas: injeções, anestesias, exames e procedimentos. Os sábios contemporâneos analisaram esses casos à luz dos princípios de “comer, beber e equivalentes”.
Injeções em geral
- Injeções não nutritivas (penicilina, insulina, analgésicos, vacinas, anestésicos, etc.)
Não quebram o jejum, independentemente de serem subcutâneas, intramusculares ou intravenosas, desde que não tenham função nutritiva.
- Essa é a posição de muitos grandes sábios contemporâneos, como Ibn Baz, Ibn ‘Uthaymin e comitês de fatwa.
- Ainda assim, é recomendado, por precaução e se não houver prejuízo, aplicar tais injeções à noite.
- Injeções nutritivas e soros com função alimentar
Se a injeção substitui claramente comer e beber (por exemplo, soluções gliconutritivas completas), ela quebra o jejum, pois cumpre o papel de alimento. - Diálise renal
A diálise que retira o sangue, o filtra e o devolve, com adição de substâncias nutritivas como glicose e sais, é considerada pela Lajnah Da’imah como anuladora do jejum.
Já quando não há adição nutritiva significativa, há divergência. Dada a gravidade da doença, recomenda-se que o paciente consulte um médico confiável e um estudioso de confiança, pois pode entrar na categoria de doente crônico isento de jejum, devendo alimentar pobres em lugar disso.
Procedimentos e exames médicos
Os pareceres de comissões de fiqh e de sábios como Ibn Baz e Ibn ‘Uthaymin detalham vários casos modernos:
Não quebram o jejum, segundo a opinião mais correta:
- Supositórios retais.
- Gotas para os olhos e ouvidos.
- Extração de dentes, obturações e limpezas, desde que nada seja engolido.
- Gárgaros de remédios, desde que nada seja engolido de propósito.
- Pequenas análises de sangue (coletas moderadas).
- Biópsias de órgãos (fígado, rim etc.) sem infusão de soluções nutritivas.
- Cateteres e contrastes por veias para diagnóstico (sem nutrição).
- Laparoscopia (introdução de câmera no abdômen) sem infusão nutritiva.
- Introdução de instrumentos ou medicamentos na coluna ou cérebro (anestesia epidural, raquidiana).
Quebram o jejum quando acompanhados de substâncias nutritivas significativas:
- Gastroscopia com uso de soluções, se essas soluções chegam ao estômago e têm caráter nutritivo. Se apenas lubrificantes mínimos são usados e nada nutritivo chega ao estômago, muitos sábios consideram que não quebra, mas preferem evitar durante o dia de jejum.
- Qualquer procedimento que introduza alimento ou bebida (ou seu equivalente) no estômago ou no sangue como nutrição.
Em todos esses casos, a regra prática é:
- Se a substância é medicamento e não alimento, e não chega ao estômago, em geral não quebra.
- Se substitui claramente comer e beber (nutrição), quebra.
Práticas e substâncias que não quebram o jejum
Há muitos atos que não anulam o jejum, mas sobre os quais há dúvidas. Conhecê-los ajuda a evitar escrúpulos exagerados.
Casos amplamente considerados como não anuladores
- Comer e beber por esquecimento, como já citado, não invalida o jejum.
- Vômito involuntário, sem intenção, não o quebra.
- Poeira, fumaça acidental, vapor de água de ambiente de trabalho, pequenas partículas que entram na garganta sem intenção.
- Saliva própria, mesmo em grande quantidade, engolida normalmente.
- Gotas oftálmicas e auriculares.
- Perfumes e cheiros agradáveis; uso de incenso, desde que não se aspire a fumaça diretamente para dentro da garganta.
- Uso de siwak (miswak) ou escova de dentes, desde que nada seja engolido; a pasta de dentes é permitida, mas é melhor evitá-la de dia se houver risco de engolir.
- Óleos, cremes e adesivos transdérmicos (medicamentos absorvidos pela pele).
- Uso de henna, óleos no cabelo, pomadas na pele.
- Nadar ou mergulhar, desde que se tome cuidado para não engolir água; apesar disso, é melhor evitar mergulhos arriscados.
- Estar em estado de janabah (impureza maior) ao amanhecer (por relação ou polução noturna) não invalida o jejum; o ghusl pode ser feito após o Fajr.
- Sonhos eróticos e emissão de sêmen durante o sono (polução noturna) não quebram o jejum, por serem involuntários.
Lista detalhada de coisas que não quebram o jejum
Fatawa de grandes comissões e sábios reuniram uma lista ampla de itens que não anulam o jejum, desde que não haja engolimento intencional de algo até a garganta ou estômago:
- Furação da orelha (piercing).
- Gotas e sprays nasais, se a pessoa evita engolir qualquer coisa que chegue à garganta.
- Comprimidos colocados debaixo da língua (para angina etc.), se nada é engolido.
- Qualquer coisa inserida na vagina (pessários, duchas, dedos, instrumentos médicos).
- Dispositivos introduzidos no útero (exames).
- Cateteres introduzidos na uretra (homem ou mulher) para exames, contrastes ou limpeza da bexiga.
- Uso de escova, siwak, limpeza dental, obturações e extrações, desde que nada seja engolido voluntariamente.
- Bochechos e sprays bucais tópicos, desde que nada seja engolido.
- Injeções subcutâneas, intramusculares ou intravenosas, exceto as nutritivas.
- Oxigênio respirado.
- Gases anestésicos sem infusão nutritiva.
- Medicamentos absorvidos pela pele (cremes, pomadas, emplastros).
- Cateteres venosos para diagnóstico ou tratamento, sem nutrição.
- Laparoscopia para exame ou cirurgia, sem nutrição.
- Biópsias de órgãos, sem soluções nutritivas.
- Gastroscopia sem soluções nutritivas.
- Introdução de medicação no cérebro ou coluna (p. ex., anestesia espinhal).
Além disso:
- Hemorragias nasais involuntárias (epistaxe) não anulam o jejum, embora seja proibido engolir o sangue voluntariamente.
- Sangramentos na gengiva: a pessoa deve cuspir; se engolir involuntariamente, o jejum permanece.
- Muco nasal ou catarro: se engolido antes de chegar à boca, não quebra; se chega à boca e é engolido voluntariamente, a opinião mais cautelosa é que se deve evitar; se engolido involuntariamente, não invalida.
- Saborear comida sem engolir (por necessidade, como testar sal na comida ou mastigar para um bebê) é permitido, mas é makruh sem necessidade, pois há risco de engolir algo.
Pecados que não anulam o jejum, mas o esvaziam
Há atos que não quebram o jejum juridicamente, mas destroem a recompensa.
O Profeta ﷺ disse:
“Quem não abandona a mentira e a prática da falsidade, Allah não precisa que ele deixe de comer e beber.”
(Sahih al-Bukhari)
Logo, backbiting (ghibah), calúnia, música indecente, olhar para o haram, injustiça, exploração, consumo de haram e outras desobediências enfraquecem ou eliminam a recompensa do jejum, embora não o invalidem em fiqh. O jejum completo é jejum do estômago, dos olhos, da língua, do coração e dos membros.
Tudo o que leva ao haram também é haram
Os princípios gerais de fiqh afirmam que os meios levam o julgamento do fim. Aquilo que conduz de forma clara ao haram torna-se haram.
Aplicações práticas:
- Quem sabe que, por seu temperamento e fraqueza, beijar e abraçar frequentemente a esposa durante o dia de jejum costuma levá-lo à ejaculação ou relação sexual, deve evitar tais atos, embora em si, com autocontrole, sejam permitidos.
- O hadith qudsi: “Ele deixa seu alimento, sua bebida e seu desejo por Minha causa” indica que o jejuador deve afastar-se de tudo o que acende fortemente o desejo sexual.
- Se o amanhecer chega enquanto o casal está em relação, devem interrompê-la; se prolongam após o Fajr, anulam o jejum daquele dia.
Da mesma forma, práticas que costumam levar ao engolimento de água (como nadar de forma descuidada) são, no mínimo, makruh, e o crente prudente evita o que o expõe ao risco de anular o jejum.
Práticas involuntárias quebram o jejum?
De forma geral, atos involuntários não quebram o jejum, desde que a pessoa não coopere com eles nem aproveite a situação para desobedecer. A seguir, alguns pontos delicados que aparecem nos fatawa e que foram detalhados no texto longo.
- Vômito involuntário
Se o vômito sobe sem intenção, o jejum continua válido. Se o vômito chega à boca e a pessoa o engole de volta voluntariamente, o jejum se anula. Se volta sem ela querer, o jejum permanece. - Engolir restos entre os dentes
Se o pedaço é tão pequeno que é como a própria saliva e a pessoa não percebe, não quebra o jejum. Se é grande o suficiente para ser cuspido e a pessoa o engole voluntariamente, o jejum é invalidado. - Saliva acumulada
Mesmo se a pessoa acumula muita saliva na boca e engole, isso não quebra o jejum segundo a opinião mais correta, pois continua sendo saliva própria. - Água restante na boca após enxaguar
A umidade inevitável após bochecho ou ablução não anula o jejum. O que é proibido é exagerar na lavagem de boca e nariz a ponto de facilitar que a água chegue à garganta. - Sangramentos involuntários
Hemorragia nasal, sangramento de gengivas, ferimentos involuntários e pequenas perdas de sangue não anulam o jejum, desde que a pessoa não engula o sangue voluntariamente. - Inalação de vapores de água ou poeira ocupacional
Trabalhadores em ambientes com vapor de água (dessalinização etc.) ou poeira densa não têm o jejum invalidado por inalação involuntária desses vapores. - Saborear comida
É makruh saborear alimentos sem necessidade, por risco de engolir algo. Em casos de necessidade (mãe mastigando para filho, prova de sal, teste de compra) é permitido, com cuidado. - Uso de siwak, incluindo úmido
Usar siwak é Sunnah durante todo o dia de jejum. Se a pessoa sente algum gosto leve do siwak ou engole saliva misturada a ele inadvertidamente, não há problema, desde que não engula pedaços visíveis. - Lágrimas, óleo, henna, perfumes
Se o gosto de óleo, henna ou lágrimas aparece na garganta, isso não invalida o jejum, pois é algo muito sutil e inevitável em muitos casos.
Gravidade de quebrar o jejum propositadamente
Quebrar o jejum obrigatório do Ramadan sem desculpa válida é um pecado maior (kabirah).
Se essa quebra se dá por algo haram, como álcool, o pecado é ainda mais grave.
Quem fizer isso deve:
- Arrepender-se sinceramente (tawbah), deixar o pecado e firmar intenção de não voltar.
- Completar o dia sem comer nem beber, por respeito ao tempo sagrado.
- Compensar o dia depois (qadā’).
- Pagar kafarah, se a quebra foi por relação sexual durante o dia de Ramadan, conforme já explicado.
O Profeta ﷺ mencionou, em hadith qudsi:
“(O jejuador) deixa seu alimento, sua bebida e seu desejo por Minha causa. O jejum é Meu, e Eu o recompenso.”
(Sahih al-Bukhari)
Isso mostra a grandeza do jejum e a gravidade de violá-lo intencionalmente. Em alguns relatos, é mencionado que quebrar um dia de jejum de Ramadan sem desculpa não é compensado sequer por jejuar toda a vida, embora, em fiqh, seja obrigatório compensar o dia.
Jejum e salvar vidas
Quem precisa quebrar o jejum para salvar uma vida (por exemplo, para resgatar alguém de afogamento, incêndio ou outra situação grave) pode fazê-lo e, na verdade, deve fazê-lo se for a única forma de ajudar. Depois, deve compensar esse dia.
Esse princípio reflete a regra geral de que preservar a vida humana tem prioridade, e que a sharia aceita o menor dano para evitar o maior.
Um caso especial: comer por esquecimento, ver alguém esquecer e lembrar
Se alguém está jejuando, esquece e come ou bebe, deve parar assim que lembrar, e seu jejum permanece válido, sem compensação.
Se você vê um irmão ou irmã comendo por esquecimento, é obrigatório lembrá-lo:
- Por obediência ao versículo: “… ajudai-vos uns aos outros na justiça e na piedade …” (5:2).
- Pelo princípio de mudar o mal com a mão, língua ou coração, conforme capacidade.
- Pelo hadith em que o Profeta ﷺ disse: “Se eu me esquecer, lembrem-me.”
Não é misericórdia “deixar a pessoa comer mais um pouco” depois que você sabe que ela está jejuando; a misericórdia verdadeira é ajudá-la a cumprir sua adoração.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução dos significados em português (Dr. Helmi Nasr).
- Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, Livros do Jejum, hadiths sobre virtudes, relação sexual, comer por esquecimento, hadith qudsi do jejum, etc.
- Sunan Abi Dawud, at-Tirmidhi, Ibn Majah e outros, hadiths sobre vômito intencional, hijamah, práticas que quebram ou não quebram o jejum.
- Fatawa de IslamQA e Lajnah Da’imah sobre o que invalida o jejum, injeções, diálise, procedimentos médicos e questões específicas do jejuador.
- Artigos de fiqh em IslamWeb, IslamHouse e outros centros de conhecimento, sobre anuladores do jejum, dúvidas frequentes e atos makruh durante o jejum.
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