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A súplica após o adhan e a promessa de intercessão
O alto estatuto do Profeta Muhammad ﷺ se manifesta, entre outros aspectos, na súplica específica ensinada para ser dita após o adhan. Recomenda‑se que o muçulmano, ao ouvir o chamado à oração, repita as palavras do muadhdhin, depois envie bênçãos ao Profeta ﷺ e, em seguida, faça a du‘ā indicada. No hadith autêntico de Jabir ibn ‘Abdillah, o Mensageiro de Allah ﷺ disse:
“Quem diz, ao ouvir o adhan: ‘Ó Allah, Senhor deste chamado perfeito e da oração prestes a ser estabelecida, concede a Muhammad a al‑Wasīlah e a al‑Fadīlah, e ergue‑o à posição louvável que Lhe prometeste’, terá minha intercessão no Dia da Ressurreição.” (Sahih al‑Bukhari)
O texto original da súplica, conforme os hadiths, não inclui a expressão “alto escalão” ou fórmulas adicionais, e os estudiosos alertam que não se deve acrescentar termos subjetivos àquilo que o Profeta ﷺ ensinou de modo completo. A menção a “al‑Wasīlah” e “al‑Fadīlah” aponta para graus específicos no Paraíso, exclusivos do Profeta ﷺ, e a “posição louvável” (maqām mahmūd) refere‑se à grande intercessão pela humanidade no Campo da Ressurreição. Quando o muçulmano pede isso para Muhammad ﷺ, demonstra amor e reconhecimento do seu alto estatuto e, em retorno, obtém a promessa de ser contemplado com a intercessão do próprio Profeta ﷺ, se Allah quiser.
Salawat após o adhan e o sentido de al‑Wasīlah
O hadith de ‘Abdullah ibn ‘Amr detalha ainda mais a ordem de atos ao ouvir o adhan, ligando o alto estatuto do Profeta ﷺ à prática de salawat e à súplica por al‑Wasīlah. O Mensageiro de Allah ﷺ disse:
“Quando ouvirdes o muadhdhin, repetí o que ele diz; depois, fazei salat sobre mim, pois quem fizer salat sobre mim uma vez, Allah fará salat sobre ele dez vezes. Em seguida, pedi a Allah que me conceda a al‑Wasīlah, pois ela é um grau no Paraíso que só será alcançado por um dos servos de Allah, e espero ser eu esse servo. Quem pedir a al‑Wasīlah para mim, minha intercessão se tornará permitida para ele.” (Sahih Muslim; Sunan an‑Nasa’i)
A palavra “al‑Wasīlah” aponta, em contexto, para uma posição de máxima proximidade com Allah no Paraíso, como explicam os comentaristas. É um grau único, reservado a apenas um servo, e o próprio Profeta ﷺ manifestou esperança de ser esse servo escolhido. “Al‑Fadīlah”, por sua vez, é descrita como uma distinção adicional, uma excelência acima dos demais seres criados. Pedir a Allah que conceda a al‑Wasīlah ao Profeta ﷺ não significa que ela ainda não seja devida a ele, mas que o crente participa, com sua súplica, da honra de desejar para o Mensageiro de Allah ﷺ aquilo que Allah já lhe prometeu, fortalecendo, assim, seu vínculo com ele e merecendo sua intercessão.
Maqām mahmūd: a posição louvável prometida no Alcorão
A expressão “posição louvável” (maqām mahmūd) mencionada na súplica após o adhan encontra sua raiz no Alcorão. Em Surah Al‑Isra’, Allah ordena ao Profeta ﷺ que pratique a oração noturna voluntária e associa essa prática à elevação a um grau especial no Dia da Ressurreição:
“E, durante parte da noite, reza com ele, a guisa de oração suplementar para ti, quiçá teu Senhor te ascenda a uma louvável preeminência.” (Surah Al‑Isra’, versículo 79) (17:79)
Os exegetas explicam que essa “louvável preeminência” é o maqām mahmūd: uma posição na qual todas as criaturas louvarão Muhammad ﷺ por causa da grande intercessão que exercerá. Em outra passagem, Allah diz:
“Carecia eu de todo o conhecimento a respeito dos celícolas, quando disputavam entre si. Só me tem sido revelado que sou um elucidativo admoestador.” (Surah Sad, versículos 69–70) (38:69–70)
Esse trecho ilustra que o conhecimento detalhado sobre o que ocorrerá no Campo da Ressurreição e entre os habitantes dos céus foi revelado ao Profeta ﷺ como parte de sua missão de advertir claramente. Entre esses eventos está o momento em que a humanidade buscará quem interceda junto a Allah para que o julgamento comece: irão a Adão, a Noé, a Abraão, a Moisés, a Jesus (que a paz esteja sobre eles) e todos se desculparão, até que a humanidade se volte a Muhammad ﷺ. Ele se prosternará sob o Trono, será elogiado por Allah com louvores que ninguém mais recebeu e, então, lhe será permitido interceder. Esse é o maqām mahmūd pelo qual se pede na súplica pós‑adhan.
Exclusividade da grande intercessão para Muhammad ﷺ
A ligação entre o alto estatuto do Profeta Muhammad ﷺ e a intercessão no Dia do Juízo é enfatizada em muitos textos da Sunnah. A “posição louvável” está associada à maior das intercessões (ash‑shafā‘ah al‑‘uzmā), pela qual o pavor da espera será removido e o julgamento começará. Essa intercessão específica foi concedida exclusivamente a Muhammad ﷺ; nenhum outro profeta ou anjo a compartilha. Os hadiths longos de intercessão, em Sahih al‑Bukhari e Sahih Muslim, descrevem essa cena em detalhes, mostrando como todos os mensageiros remeterão a Muhammad ﷺ naquele dia.
Por isso, quando o hadith mencionado na pergunta fala que a intercessão é um atributo exclusivo do Profeta ﷺ “com exclusão de todas as criaturas”, refere‑se, sobretudo, a esse grau máximo de intercessão. Outros tipos de intercessão existem, concedidos também a profetas, anjos e crentes piedosos, com a permissão de Allah, mas a grande intercessão inicial, que diz respeito a toda a humanidade e à abertura do julgamento, é reservada ao Mensageiro de Allah ﷺ. Todas as criaturas o louvarão por esse papel, razão pela qual o grau é chamado de “posição louvável”: é uma posição em que ele é louvado por Allah e pelas criaturas, pela nobre função que executa em benefício de toda a criação.
O impacto dessa crença na relação do muçulmano com o Profeta ﷺ
Crer no alto estatuto do Profeta Muhammad ﷺ, em al‑Wasīlah, al‑Fadīlah e no maqām mahmūd não é apenas uma questão teórica de ‘aqīdah; molda a prática diária do muçulmano. Ao ouvir o adhan, repetir as palavras do muadhdhin, enviar salawat ao Profeta ﷺ e fazer a súplica ensinada torna‑se um hábito que reforça o amor, o respeito e a consciência de seu papel no Dia do Juízo. Cada vez que o crente pede para Muhammad ﷺ a posição prometida, reafirma a crença de que toda honra verdadeira vem de Allah, mas reconhece que Allah escolheu o Seu Mensageiro como líder dos filhos de Adão, intercessor máximo e senhor dos profetas, sem violar o tawhid.
Além disso, compreender que a intercessão do Profeta ﷺ é um favor concedido por Allah impede exageros e equívocos. O muçulmano não dirige adoração a Muhammad ﷺ, mas a Allah; ao mesmo tempo, sabe que Allah concedeu ao Seu Mensageiro uma posição única. Por isso, pede a Allah que o aproxime ainda mais d’Ele e, com isso, espera ser incluído entre os que serão beneficiados por essa proximidade no Dia da Ressurreição. A prática da súplica pós‑adhan, associada à oração noturna e a outras formas de amor ao Profeta ﷺ, reflete a compreensão equilibrada de seu alto estatuto dentro do monoteísmo islâmico.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
- Surah Al‑Isra’ 17:79, sobre a “posição louvável” (maqām mahmūd) prometida ao Profeta Muhammad ﷺ.
- Surah Sad 38:69–70, sobre o conhecimento revelado ao Profeta ﷺ acerca dos habitantes dos céus e sua missão como admoestador.
- Sahih al‑Bukhari, Livro do Adhan e outros, hadith de Jabir ibn ‘Abdillah sobre a súplica após o adhan com al‑Wasīlah, al‑Fadīlah e o maqām mahmūd.
- Sahih Muslim, hadith de ‘Abdullah ibn ‘Amr sobre repetir o adhan, fazer salawat e pedir al‑Wasīlah como grau exclusivo no Paraíso.
- Comentários de eruditos clássicos e contemporâneos sobre al‑Wasīlah, al‑Fadīlah e maqām mahmūd, como an‑Nawawi em “Sharh Sahih Muslim”, compilações de hadith em dorar.net e estudos explicativos em IslamQA sobre a súplica após o adhan e o alto estatuto do Profeta Muhammad ﷺ.
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