Nuh (Noé) علیه السلام

Nuh (Noé) علیه السلام

Introdução

O profeta Nuh (Noé, que a paz esteja sobre ele) é um dos grandes mensageiros de Allah reconhecidos no Islam, e também nas tradições judaica e cristã. É apresentado no Alcorão como um profeta de firmeza extraordinária, que perseverou durante séculos chamando seu povo ao monoteísmo puro, mesmo diante de zombaria, rejeição e hostilidade. O período de tempo exato em que Nuh viveu é desconhecido, mas algumas fontes islâmicas mencionam que ele teria surgido cerca de dez gerações após Adão (que a paz esteja sobre ele), como um dos primeiros grandes mensageiros enviados à humanidade após a difusão da idolatria.

O Alcorão indica que Nuh viveu muito tempo entre o seu povo, dedicando a maior parte de sua longa vida à chamada para Allah. Allah diz:

“E, com efeito, enviamos Noé a seu povo, e permaneceu, entre eles, um milênio menos cinquenta anos. E desmentiram-no. Então, o dilúvio apanhou-os, enquanto injustos.”
(Alcorão 29:14)

De acordo com muitos exegetas, esse versículo indica que Nuh permaneceu novecentos e cinquenta anos apenas na fase de pregação ao seu povo, sem contar sua idade total. Isso reforça a ideia de uma trajetória de grande paciência, constância e confiança em Allah, características centrais para entender o lugar de Nuh entre os profetas.


O povo de Nuh e seus costumes

Acredita-se que Nuh e seu povo viveram na parte norte da antiga Mesopotâmia – uma área árida, a várias centenas de quilômetros do mar. O Alcorão menciona que a arca pousou no Monte Judi, identificado por muitos estudiosos como uma região na atual Turquia. Nuh era casado e, de acordo com as tradições, tinha quatro filhos. Sobre o fim do dilúvio, Allah diz:

“E foi dito: ‘Ó terra! Engole tua água; e, ó céu! Detém-te.’ E a água diminuiu, e a ordem foi cumprida, e ela se instalou sobre o (Monte) Judi. E foi dito: ‘Distância para o povo injusto!’”
(Alcorão 11:44)

O contexto em que Nuh foi enviado era de profunda corrupção moral e religiosa. O povo havia abandonado a adoração exclusiva de Allah e passou a venerar ídolos de pedra, chamados Wadd, Suwa’, Yaghuth, Ya’uq e Nasr. Esses ídolos, como narram os comentaristas, tinham sido originalmente nomes de homens piedosos que viveram entre eles. Com o passar do tempo, a memória da devoção desses homens foi distorcida e transformada em culto, até que suas imagens foram esculpidas e adoradas. Allah descreve a teimosia do povo:

“E disseram: ‘Não deixeis vossos deuses, e não deixeis Wadd, nem Suwāʿ, nem Yaghūth, nem Yaʿūq, nem Nasr!’”
(Alcorão 71:23)

Esse é um dos exemplos clássicos, nas fontes islâmicas, de como a idolatria pode surgir gradualmente: primeiro como exagero na veneração de pessoas boas, depois como símbolos, em seguida como intercessores, até que, por fim, esses símbolos e pessoas passam a ser tratados como deuses, substituindo o culto devido somente a Allah.


A missão e o chamado ao Tawhid

Nuh (que a paz esteja sobre ele) foi enviado como profeta ao seu povo com a mensagem universal do Tawhid: a crença no Deus Único e Verdadeiro (Allah) e a submissão total às Suas orientações. Sua missão era conclamar os seus contemporâneos a abandonar a adoração de ídolos, retornar à sinceridade na fé e reformar sua conduta moral. Ele incentivou o bem, proibiu o mal e lembrou constantemente as pessoas do Dia do Juízo, da misericórdia de Allah e também da Sua punição.

A mensagem de Nuh pode ser resumida em três eixos centrais: adoração exclusiva de Allah, consciência d’Ele (taqwa) e obediência ao mensageiro enviado. No Alcorão, Nuh diz ao seu povo:

“Por certo, enviamos Noé a seu povo. Ele disse: ‘Ó meu povo, adorai a Allah, não tendes outro deus além d’Ele. Por certo, temo, para vós, o castigo de um dia doloroso.’”
(Alcorão 7:59)

Mais adiante, o próprio Nuh resume seu chamado:

“Ele disse: ‘Ó meu povo, por certo, sou para vós um evidente admoestador, para que adoreis a Allah, e O temais, e obedeçais a mim.’”
(Alcorão 71:2-3)

A adoração se refere a todos os atos internos e externos de submissão a Allah; o temor consciente (taqwa) é a vigilância do coração que leva a evitar o pecado e a buscar o que agrada a Allah; a obediência ao profeta é o compromisso de seguir a orientação prática que traduz a revelação em vida concreta. Sem esses três elementos reunidos, a religião se torna incompleta.


A perseverança diante da rejeição

Como ocorre com muitos profetas, a reação inicial do povo foi de rejeição e zombaria. Nuh foi chamado de mentiroso, louco e visionário. O Alcorão descreve que, para evitar ouvir sua mensagem, as pessoas tapavam os ouvidos, cobriam-se com suas roupas e se afastavam de forma arrogante. Apesar disso, Nuh não se deixou paralisar pela hostilidade; pelo contrário, multiplicou os meios de pregação, dirigindo-se às pessoas de dia e de noite, em público e em particular.

Ele relata:

“Disse (Noé): ‘Senhor meu, por certo chamei meu povo, noite e dia. Mas meu chamado não lhes aumentou senão fuga. E, por certo, toda vez que os chamei, para que Tu lhes perdoasses, puseram os dedos nos ouvidos, cobriram-se com seus mantos, persistiram e se ensoberbeceram com altiva soberba. Em seguida, chamei-os publicamente. Em seguida, manifestei-lhes (o chamado), e o ocultei para eles, confidencialmente.’”
(Alcorão 71:5-9)

Nuh apelou para a razão e o coração: lembrou seu povo dos sinais na criação, do ciclo da chuva, da fertilidade da terra, da alternância da vida e da morte, e das bênçãos que Allah derrama sobre aqueles que se arrependem. Ele os convidou a buscar o perdão de seu Senhor, prometendo que Allah lhes enviaria chuvas abundantes, aumentaria seus bens e filhos, e faria brotar jardins e rios.

No entanto, a maioria insistiu em seguir líderes arrogantes, ricos e influentes, cuja prosperidade aparente ofuscava a verdade. Eles consideravam os pobres crentes que seguiam Nuh como inferiores, usando isso como pretexto para desprezar a mensagem.


A súplica de Nuh e o decreto da punição

Diante de séculos de recusa, calúnia e obstinação, Nuh elevou seu pedido a Allah, reconhecendo que o seu povo havia chegado ao ponto de não apenas rejeitar a verdade, mas também desviar os outros, incentivando-os à idolatria e à desobediência. Ele afirmou:

“E, com efeito, descaminharam a muitos. E não acrescentes, aos injustos, senão descaminho!”
(Alcorão 71:24)

E, em seguida, suplicou:

“E Noé disse: ‘Senhor meu, não deixes, sobre a terra, nenhum dos renegadores da Fé. Por certo, se os deixas, descaminharão Teus servos e não procriarão senão ímpios, ingratos. Senhor meu, perdoa-me, e a meus pais, e a quem entrar em minha casa, sendo crente, e aos crentes e às crentes. E não acrescentes, aos injustos, senão ruína!’”
(Alcorão 71:26-28)

A súplica de Nuh mostra que a incredulidade do seu povo não era superficial ou recente, mas resultado de uma trajetória longa de corrupção e de um sistema social que perpetuaria essa incredulidade nas próximas gerações. Foi então que Allah decretou a punição do dilúvio e ordenou a Nuh que construísse uma arca.


A construção da arca e a zombaria do povo

Allah inspirou Nuh a construir uma grande arca em terra firme, longe do mar, como preparação para a punição que viria. Nuh obedeceu, mesmo sem ver ainda os sinais físicos da enchente, demonstrando total confiança na promessa de Allah. A construção da arca foi, por si só, um teste de fé e, ao mesmo tempo, um último aviso público ao povo, que via o profeta trabalhando em algo aparentemente sem sentido.

Enquanto ele construía, os líderes incrédulos zombavam e diziam que Nuh havia se desviado da razão. Allah registra:

“E ele construía a arca; e, sempre que passavam por ele os dignitários de seu povo, escarneciam dele. Ele dizia: ‘Se escarneceis de nós, por certo, escarneceremos de vós, como escarneceis.’”
(Alcorão 11:38)

Mesmo na construção da arca, Nuh manteve a dignidade e respondeu com sobriedade: o tempo revelaria quem estava sobre a verdade. Quando a ordem divina se concretizou, e as fontes da terra jorraram água enquanto o céu despejava chuva sem interrupção, a arca tornou-se o meio de salvação para Nuh e os crentes que o haviam seguido.


O dilúvio e a salvação dos crentes

Quando a arca foi concluída, Nuh recebeu a ordem de embarcar nela com sua família e os crentes, além de pares de animais. O Alcorão descreve:

“(Dissemos): ‘Carrega, na arca, de cada espécie, casal, e tua família, exceto aqueles contra os quais já foi pronunciada a palavra, e (carrega) os que creram.’ E não creram com ele senão poucos.”
(Alcorão 11:40)

Logo a terra ficou encharcada de chuva e uma inundação destruiu tudo o que estava fora da arca. Nuh e seus seguidores estavam seguros, mas um de seus próprios filhos e sua esposa estavam entre os incrédulos destruídos. Isso ensina um princípio fundamental no Islam: é a fé, e não o sangue, que une e salva. Parentesco não substitui crença nem obediência. Allah diz sobre aqueles que rejeitaram:

“Por causa de seus erros, foram afogados; então, foram introduzidos no Fogo, e não encontraram, para eles, além de Allah, socorredores.”
(Alcorão 71:25)

Após cumprir sua função como punição e purificação, o dilúvio cessou. A ordem divina foi emitida para que a água baixasse e a arca repousou no Monte Judi, marcando o fim daquele povo e o início de uma nova fase na história humana, descendente daqueles que creram com Nuh.


O capítulo “Nuh” no Alcorão e suas lições

Foi revelado em Makkah um capítulo inteiro dedicado à história da admoestação do Profeta Nuh a seu povo, a surata Nuh, com 28 versículos. Nela, Allah nos apresenta uma síntese poderosa da vida de Nuh como pregador persistente. O capítulo destaca a forma como Nuh utilizou todos os meios legítimos de daʿwah: discurso público, conversas privadas, apelos racionais e espirituais, reforço das bênçãos de Allah e o chamado ao arrependimento.

Nesse capítulo, aprendemos que a religião não é apenas um conjunto de rituais, mas uma forma de vida baseada em adoração exclusiva, temor consciente, obediência ao mensageiro e reforma contínua. Vemos também que os profetas não medem o sucesso pelo número de seguidores, mas pelo cumprimento fiel da missão que Allah lhes confiou. Mesmo com poucos que creram, Nuh é exemplo perfeito de sucesso aos olhos de Allah.

A surata também ilustra o perigo do apego cego às tradições ancestrais, quando estas entram em choque com a orientação revelada. O povo de Nuh preferiu seguir os caminhos dos seus antepassados idólatras a acolher a verdade que um profeta vivo lhes apresentava.


O dilúvio foi global ou local?

O dilúvio que destruiu o povo de Nuh é descrito no Alcorão como uma punição específica para as pessoas que rejeitaram a mensagem. O texto corânico enfatiza a punição daquele povo em particular, e não necessariamente de toda a humanidade. Por isso, entre os estudiosos muçulmanos há diferentes entendimentos sobre a extensão geográfica do dilúvio.

Alguns exegetas antigos interpretaram os versículos no sentido de um evento de alcance global, entendendo que a humanidade inteira, naquela época, se concentrava na região de Nuh e foi atingida pela inundação. Outros estudiosos, especialmente em análises contemporâneas que dialogam com dados arqueológicos, consideram possível que o dilúvio tenha sido um grande evento regional, devastador para o povo de Nuh, mas não necessariamente para toda a terra. O Alcorão não entra em detalhes geográficos minuciosos, concentrando-se mais na dimensão moral e espiritual do acontecimento: a consequência inevitável da persistência na injustiça e na idolatria.

Em qualquer dos entendimentos, o essencial permanece: o dilúvio foi uma manifestação da justiça de Allah contra um povo que, ao longo de gerações, rejeitou teimosamente a orientação divina, e ao mesmo tempo foi uma misericórdia para os crentes, que encontraram salvação ao seguir o profeta.


Lições espirituais da história de Nuh

A história de Nuh (que a paz esteja sobre ele) oferece inúmeras lições para os muçulmanos de todas as épocas. Entre elas, destacam-se a paciência na daʿwah, a importância da sinceridade na fé, a necessidade de se afastar da idolatria em todas as suas formas e o valor de confiar no decreto de Allah, mesmo quando não compreendemos plenamente os meios pelos quais Ele age.

Também aprendemos que a honra verdadeira não está na posição social, riqueza ou número de seguidores, mas em permanecer firme na verdade. Nuh não cedeu às pressões da maioria nem ao desprezo dos líderes; continuou chamando seu povo com sabedoria, compaixão e firmeza. Seu exemplo mostra que, mesmo quando a resposta é negativa, o esforço sincero na causa de Allah jamais é perdido.

Por fim, a história de Nuh reforça a responsabilidade individual: cada pessoa responde por sua própria crença e por suas escolhas. Nem mesmo a proximidade de sangue com um profeta garante salvação, como demonstram o filho e a esposa de Nuh entre os incrédulos. A verdadeira aliança é a da fé.


Conclusão

O profeta Nuh (Noé, que a paz esteja sobre ele) é apresentado, nas fontes islâmicas, como um mensageiro de extraordinária perseverança e sinceridade, que dedicou uma vida longa a chamar seu povo ao monoteísmo puro. Enviado a uma sociedade mergulhada na idolatria e na injustiça, enfrentou zombaria, rejeição e boatos, mas nunca deixou de cumprir seu papel. Sua história no Alcorão e na Sunnah não é apenas um relato antigo, mas um espelho para cada geração: lembra-nos da necessidade de renovar o compromisso com Allah, purificar a adoração, cultivar taqwa e seguir os profetas, mesmo quando isso exige ir contra a maré.

O dilúvio que atingiu o seu povo é um sinal da justiça de Allah, mas também da Sua misericórdia para com os crentes. A arca de Nuh simboliza a proteção que a fé oferece em meio às tempestades da vida e das sociedades corrompidas. Ao estudarmos a vida de Nuh, somos convidados a fortalecer nossa própria fé, revisar nossas intenções e agir com paciência e constância na busca da retidão.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução de Helmi Nasr.
  • Ibn Kathir, Al-Bidāyah wa an-Nihāyah e Qasas al-Anbiyāʾ (Histórias dos Profetas).
  • Tafsir Ibn Kathir – Comentário dos versículos sobre Nuh nas suratas 7, 11, 23, 26, 29, 54, 71.
  • Al-Tabari, Jāmiʿ al-Bayān fī Tafsīr al-Qurʾān – seções relativas à história de Nuh.
  • Artigos “Prophet Nuh (Noah)” e recursos biográficos no portal IslamReligion.com.
  • Obras e compilações de hadith autênticos: Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, capítulos sobre os profetas.

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