Índice
Introdução
O profeta Lut (Ló, que a paz esteja sobre ele) ocupa um lugar central na narrativa islâmica sobre moralidade, justiça divina e limites éticos para a vida em sociedade. Ele era da família de Ibrahim (Abraão, que a paz esteja sobre ambos) e foi enviado a um povo cuja corrupção se manifestava em todas as esferas: criminalidade, injustiça, perversão sexual, perda total de pudor e degradação dos laços sociais.
A cidade de Sodoma, onde vivia, tornou-se um exemplo paradigmático de como uma comunidade pode ser destruída espiritualmente antes mesmo de ser destruída fisicamente. A história de Lut no Islam não é apenas um relato do passado, mas um espelho que reflete desafios muito atuais, em que normas divinas são relativizadas e o pecado é normalizado.
O contexto moral e social de Sodoma
As fontes islâmicas descrevem este povo como vivendo em uma sociedade profundamente corrompida. A criminalidade era generalizada; viajantes eram roubados, humilhados e, muitas vezes, agredidos simplesmente por passarem pela região. A prostituição e o consumo de entorpecentes eram comuns, e o ambiente social não encorajava nenhum tipo de virtude ou modéstia. Em vez de constrangimento diante do pecado, havia orgulho em desafiar quaisquer limites morais.
A atmosfera geral da cidade de Sodoma não era a de uma sociedade saudável, mas de uma comunidade em decadência consciente, que considerava seus próprios vícios como um estilo de vida legítimo. Foi para essa realidade que Allah enviou o profeta Lut, com a mesma mensagem de todos os outros profetas: adorar somente a Allah e abandonar a transgressão.
O Alcorão descreve como Lut foi enviado a um povo que havia ultrapassado todos os limites, ao ponto de se orgulharem do que deveria envergonhá-los. Eles não apenas praticavam o mal, mas também o promoviam abertamente, a ponto de se tornarem hostis a qualquer voz que chamasse à pureza.
Por isso, o Islam apresenta esta história como um exemplo de como a depravação moral, quando combinada com arrogância, pode selar o destino de uma sociedade inteira. Ainda que recebam avisos claros, aqueles que se habituam ao pecado passam a vê-lo como algo “normal” e chegam a desprezar quem defende a moralidade.
A missão e o desafio da correção
Lut foi enviado ao seu povo com uma mensagem clara, em linguagem direta e acessível. Ele lembrava constantemente que sua missão não tinha qualquer interesse pessoal, mas era um dever perante Allah. Ele disse ao seu povo:
“Quando seu irmão Lot lhes disse: ‘Não temeis a Allah? Por certo, sou-vos leal Mensageiro. Então, temei a Allah e obedecei-me. E não vos peço prêmio algum por isso. Meu prêmio não impende senão aO Senhor dos mundos’.” (Alcorão, 26:161-164)
Ao longo dos anos, Lut aconselhou as pessoas a abandonarem seus crimes, seu comportamento sexual ilícito e toda forma de corrupção. Entretanto, a maioria das pessoas da cidade considerava a sua presença um incômodo. Eles não queriam um profeta que apontasse seus erros, chamasse ao arrependimento e lembrasse da prestação de contas no Dia do Juízo.
Assim, ignoraram sua mensagem, desrespeitaram-no e passaram a ridicularizá-lo, como muitas sociedades fazem com qualquer voz profética ou moral que confronte seus vícios. Mesmo assim, este profeta permaneceu firme, cumprindo sua responsabilidade de transmitir a mensagem, ainda que fosse rejeitado.
A gravidade do pecado do povo de Sodoma
Entre as práticas do povo de Sodoma, o Alcorão destaca de maneira especial a normalização da homossexualidade masculina, apresentada não como uma tendência isolada, mas como um comportamento socialmente aceito e exaltado. A Revelação afirma que aquela comunidade foi a primeira na história a tornar esse desvio algo organizado e assumido publicamente. Lut confrontou seu povo com clareza, dizendo:
“Vós vos achegais aos varões deste mundo? E deixais vossas mulheres, que vosso Senhor criou para vós? Mas sois um povo agressor.” (Alcorão, 26:165-166)
O Islam ensina que a prática homossexual não é um simples “estilo de vida”, mas um pecado grave que contradiz a natureza primordial (fitrah) sobre a qual Allah criou o ser humano. Por isso, as três religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islam – a condenam em suas fontes originais.
A ideia de que esse comportamento seria determinado exclusivamente por fatores genéticos é rejeitada pela teologia islâmica, que enfatiza o livre-arbítrio e a responsabilidade moral. O Alcorão mostra que o povo de Sodoma não era “inocente” ou “inevitavelmente compelido”; ao contrário, escolheu conscientemente a transgressão, e a transformou em identidade e cultura.
Reação do povo: arrogância e hostilidade
Em vez de sentirem vergonha, os habitantes de Sodoma se vangloriavam de seus atos. Cometiam suas obscenidades tanto em público como em privado, e ridicularizavam qualquer tentativa de chamá-los à ordem. As fontes islâmicas relatam que, quando Lut insistiu para que abandonassem o pecado, as pessoas chegaram ao ponto de ameaçar expulsá-lo da cidade, como se ele fosse o problema. Disseram-lhe:
“Se não desistires, ó Lut, contar-te-ás entre os desterrados.” (Alcorão, 26:167)
Esse comportamento lembra um padrão recorrente em muitas sociedades: quando o vício se torna norma, quem chama à virtude é visto como perturbador, intolerante ou inimigo da “liberdade”. O povo de Sodoma havia invertido completamente a lógica moral; enxergava a castidade como defeito e a devassidão como liberdade.
Lut então clamou a Allah para que o salvasse, junto com sua família, do mal daquela comunidade. Sua súplica demonstra que o crente, ao ver a corrupção generalizada, não permanece indiferente; sente dor, pede ajuda a Allah e faz o que pode para manter sua casa protegida do desvio.
Ibrahim e os anjos: anúncio da punição
Enquanto Lut enfrentava a hostilidade de seu povo, outro episódio estava ocorrendo com Ibrahim, seu tio. Em outra região, o profeta Ibrahim recebeu três visitantes, que, à primeira vista, pareciam homens comuns. Conhecido por sua generosidade, ele preparou para eles um bezerro assado. Contudo, para sua surpresa, os convidados não tocaram na comida. Isso causou medo e desconforto em Ibrahim, já que, naquela cultura, recusar a refeição de um anfitrião podia indicar más intenções. Então os visitantes tranquilizaram Ibrahim e disseram: “Não tenhas medo”, revelando-se como mensageiros (anjos) enviados por Allah.
Após acalmarem Ibrahim, os anjos informaram qual era sua verdadeira missão. Disseram que haviam sido enviados para destruir um povo injusto, cuja corrupção alcançara um limite insuportável. O Alcorão relata:
“E, quando Nossos mensageiros chegaram a Abraão, com alvíssaras, disseram: ‘Por certo, aniquilaremos os habitantes desta cidade. Por certo, seus habitantes são injustos’.” (Alcorão, 29:31)
Ibrahim imediatamente temeu pelo seu sobrinho Lut e questionou: e quanto a ele e sua família? Os anjos então o tranquilizaram, dizendo:
“Somos bem sabedores de quem está nela. Em verdade, salvá-lo-emos e a sua família, exceto sua mulher. Ela será dos que ficarão para trás.” (Alcorão, 29:32)
Essa passagem mostra o equilíbrio entre justiça e misericórdia: Allah não pune cegamente; Ele conhece quem é crente e quem se obstina na descrença. Ninguém é destruído injustamente.
A chegada dos anjos à cidade
O exegeta Ibn Kathir narra que, ao aproximarem-se de Sodoma, os mensageiros de Allah encontraram a filha de Lut nas proximidades de um rio. Ela ficou impressionada com a beleza deles e, conhecendo o comportamento do povo, temeu que os visitantes fossem vítimas de abuso. Advertiu-os sobre o perigo de entrar na cidade sem proteção e pediu que esperassem por seu pai, para que ele pudesse recebê-los com segurança.
Quando Lut os encontrou, percebeu imediatamente que eram homens de aparência muito atraente, o que aumentou sua preocupação. Em seu coração, temia que o povo dissoluto da cidade se voltasse contra aqueles visitantes.
O profeta tentou convencê-los a não entrarem na cidade, ou pelo menos a aguardarem o cair da noite, quando seria mais fácil evitar chamar a atenção. Ainda não sabia que eram anjos, e agia movido por sua responsabilidade de proteger hóspedes, conforme a tradição de hospitalidade dos profetas e dos povos nobres.
Finalmente, levou-os para sua casa discretamente, esperando que ninguém os notasse. Porém, sua própria esposa, que partilhava da corrupção do povo, avisou os habitantes da cidade sobre a presença de homens desconhecidos na casa de Lut. Em pouco tempo, uma multidão se reuniu diante da porta, exigindo acesso aos visitantes.
O confronto final com o povo
Ao ver a multidão em sua porta, Lut sentiu uma angústia profunda. Ele sabia exatamente quais eram as intenções daqueles homens e temia pelo destino dos convidados. A situação atingiu o ápice quando o povo insistiu em vê-los. O profeta tentou apelar à sua razão e à sua religiosidade, ainda que profundamente enfraquecidas. Ele disse:
“Ó meu povo! Eis minhas filhas: elas vos são mais puras. Então, temei a Allah e não me ignominiéis, em ultrajando meus hóspedes. Não há, dentre vós, um homem assisado?” (Alcorão, 11:78)
De acordo com os estudiosos muçulmanos, quando Lut disse “minhas filhas”, referia-se às mulheres da cidade, como profeta e líder espiritual da comunidade. Em outras palavras, sugeria que, se buscavam satisfação sexual, o caminho lícito era o casamento com mulheres, não a prática homossexual. Em nenhuma hipótese se trata de um profeta oferecendo suas filhas biológicas, ideia rejeitada pelo Islam. Ainda assim, o povo respondeu com desdém, deixando claro que não queria pureza, mas sim a continuidade do pecado. Disseram:
“Tu bem sabes que não temos necessidade de tuas filhas e também sabes o que queremos.” (Alcorão, 11:79)
Nesse momento, os mensageiros revelaram sua verdadeira identidade a Lut e disseram: “somos os mensageiros do teu Senhor”. (Alcorão, 11:81) Explicaram que o povo não poderia mais prejudicá-lo e que o momento do castigo havia chegado. Ao perceber que eram anjos, o profeta tranquilizou-se, enquanto o povo, tomado de pavor, começou a se dispersar. A verdade, contudo, é que o prazo daquelas pessoas já havia se encerrado.
A destruição de Sodoma e a salvação dos crentes
Os mensageiros instruíram Lut a reunir sua família e deixarem a cidade durante a noite, antes que o castigo descesse. Ordenaram que ninguém olhasse para trás, para não se comoverem com a punição que recairia sobre os transgressores. O profeta caminhava atrás de sua família, certificando-se de que todos obedeciam às ordens divinas.
Sua esposa, porém, manteve-se ligada ao povo incrédulo. Ela se voltou para trás com apego e solidariedade aos malfeitores e acabou sendo atingida pelo mesmo castigo, passando a fazer parte dos exemplos de traição mencionados no Alcorão em relação às esposas de Lut e de Nuh.
O castigo caiu ao amanhecer. O Alcorão descreve que um terrível grito os surpreendeu e que a cidade foi virada de cabeça para baixo, seguida por uma chuva de pedras de argila cozida, marcadas junto de Allah para os transgressores. Em outra passagem, Allah diz:
“Então, salvamo-lo e a sua família, a todos, exceto uma anciã, dentre os que ficaram para trás. Em seguida, aniquilamos os outros; e fizemos cair, sobre eles, chuva. Então, que vil a chuva dos que foram admoestados! Por certo, há nisso um sinal. Mas a maioria deles não é crente.” (Alcorão, 26:170-174)
Assim se encerra a história daquele povo. O castigo que tanto zombavam finalmente os alcançou. Suas casas, suas supostas liberdades e seus ídolos – fossem de pedra ou de desejo – nada puderam fazer contra o decreto de Allah. A promessa de punição severa para quem persiste no pecado, depois de esclarecida a verdade, cumpriu-se de forma completa.
Lições contemporâneas desta história
Esta história é muito mais que uma narrativa sobre um povo destruído no passado. Ela traz lições profundas para qualquer sociedade em qualquer época.
Em primeiro lugar, recorda que Allah é Justo e não destrói um povo sem antes enviar mensageiros, avisos e sinais claros. Ninguém pode alegar ignorância total quando os limites divinos são repetidamente explicados.
Em segundo lugar, mostra que a normalização do pecado, especialmente na esfera sexual e moral, não é um “progresso”, mas um caminho de autodestruição. Quando uma comunidade passa a se orgulhar do que Allah desaprova, ela se aproxima do destino de Sodoma.
Além disso, a narrativa demonstra o papel do crente em meio à corrupção: permanecer firme, aconselhar com paciência, proteger sua família e pedir continuamente o auxílio de Allah. O profeta não se integrou ao modo de vida do povo para ser “aceito”; ele manteve a dignidade profética, ainda que fosse minoria e alvo de zombaria. Em tempos em que conceitos de família, gênero e moralidade são constantemente relativizados, o exemplo de Lut oferece um referencial sólido para os muçulmanos e para todos que creem na Revelação divina.
Por fim, a destruição de Sodoma ensina que o atraso da punição não é sinal de aprovação divina. Muitas sociedades interpretam a aparente estabilidade econômica ou o avanço tecnológico como prova de que seus comportamentos estão “certos”. No entanto, o Islam ensina que o verdadeiro critério é a obediência a Allah e a fidelidade aos valores revelados. Quando uma comunidade se afasta desses princípios e insiste na rebeldia, corre o risco de ver fechadas, de forma repentina, as páginas de sua própria história.
Conclusão
O profeta Lut (que a paz esteja sobre ele) é apresentado no Islam como um mensageiro de firmeza, dignidade e coragem moral em meio à decadência. Ele viveu em uma sociedade que normalizou crimes, prostituição, injustiça e homossexualidade, transformando o pecado em identidade coletiva.
Apesar da perseguição, Lut cumpriu plenamente sua missão: chamou seu povo à adoração de Allah, denunciou o pecado, protegeu seus convidados e confiou no decreto divino. Quando o castigo veio, ele e os crentes foram salvos, enquanto os transgressores colheram as consequências daquilo que haviam semeado.
A história de Lut permanece como um sinal para quem reflete. Ela recorda que a misericórdia de Allah é vasta, mas que Sua justiça é inevitável. Quem, hoje, observa a crescente banalização do pecado e da imoralidade encontra nesse relato um poderoso lembrete: a verdadeira honra está em obedecer ao Criador, manter a pureza da fé e proteger a família e a sociedade da corrupção. Assim como Lut, o crente é chamado a erguer-se com paciência e clareza, mantendo-se firme na senda reta até encontrar, no fim da jornada, a promessa de Allah para os virtuosos.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução de Helmi Nasr.
- Ibn Kathir. Qasas al-Anbiya’ (Histórias dos Profetas).
- IslamReligion.com – artigos sobre o profeta Lut e as nações do passado.
- At-Tabari, Muhammad ibn Jarir. Tafsir at-Tabari (exegese clássica do Alcorão).
- Al-Qurtubi, Abu ‘Abdullah. Al-Jami’ li Ahkam al-Qur’an (comentário jurídico do Alcorão).
- Muslim, Imam. Sahih Muslim – coleções de hadith sobre os profetas e os povos anteriores.
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