Issa (Jesus) علیه السلام

Issa (Jesus) علیه السلام

Introdução

O nome de Issa (Jesus, que a paz esteja sobre ele) aparece no Alcorão Sagrado 25 vezes e a admiração e respeito por ele é algo que une cristãos e muçulmanos. Algumas pessoas se surpreendem ao descobrir que os muçulmanos também acreditam nele, em sua concepção pela Virgem Maria e na mensagem de Allah revelada por ele. Na história de Maria, mãe de Issa e filha de Imran, foi mencionado que Issa foi criado pela vontade de Allah no ventre de Maria e que, logo após o seu nascimento, ele falou, ainda bebê, de forma miraculosa.

Para os muçulmanos, Issa é parte de uma mesma corrente de profetas, que começa com Adão e culmina no Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Todos eles chamaram para a mesma verdade: adorar somente Allah, sem parceiros, sem intermediários divinos e sem culto a seres humanos, por mais nobres que sejam. Assim, a figura dele no Islam não é marginal nem secundária; ao contrário, ele é um dos Mensageiros mais importantes, um dos grandes profetas de determinação firme, e sua história está profundamente ligada à de Mariam, de Zakaria, de Yahia e de toda a família de Imran.


Contexto histórico do seu nascimento

A atual Palestina, na época em que Jesus nasceu, era uma província do Império Romano, governada por Herodes, um rei que comandava um Estado sem autonomia. O governo de Herodes coletava impostos abusivos da população, tanto para manter os luxos de sua corte como também para pagar os altos tributos cobrados pelo imperador romano, Tibério I. Essa situação levava à exploração do povo, que vivia sob condições de pobreza, desigualdade e descontentamento generalizado.

Foi nesse povoado dominado pelo poderoso Império Romano, mas de população de fé judaica, que nasceu Issa. Nesse tempo, a população insatisfeita tinha esperanças de que aparecesse o Messias – o ungido prometido por Allah nas revelações anteriores. Com o passar do tempo, porém, muitos passaram a imaginar esse Messias mais como um libertador político do que como um reformador espiritual. A opressão romana, a humilhação política e econômica e a perda de autonomia levaram o povo a enxergar a salvação sobretudo como emancipação política e reconstrução de um reino terreno forte e glorioso.

Assim, difundiu-se a ideia de que o Messias seria alguém que libertaria o povo da opressão romana, reconstruiria o Templo de Suleiman e estabeleceria um reino vitorioso na terra. O problema é que essa expectativa política, pouco a pouco, obscureceu o objetivo central de todas as revelações anteriores: a correção da crença, a purificação da adoração e o retorno sincero ao monoteísmo puro. Foi justamente nesse contexto que Issa, que a paz esteja sobre ele, foi enviado por Allah.


O verdadeiro Messias prometido por Allah

Quando, na verdade, o Messias prometido por Allah era uma pessoa que conduziria uma restauração religiosa na crença dos judeus, que, naquele tempo, haviam introduzido muitas inovações na religião, modificando a mensagem trazida pelos profetas. Criaram hierarquias sacerdotais rígidas, idolatraram a figura de rabinos como homens santos e, em alguns casos, transformaram a lei em instrumento de status e poder, em vez de guia para se aproximar de Allah.

Issa era esse Messias, enviado por Allah, não para conduzir uma libertação política, como alguns esperavam, mas para restabelecer a crença em um Deus Único; convocar a humanidade para adorar Allah e seguir a mensagem enviada pelos profetas anteriores; purificar a Torá das deturpações humanas e restituir a centralidade da sinceridade, da misericórdia e da justiça no viver religioso.

No Alcorão Sagrado, Allah deixa claro que Issa veio confirmando as revelações anteriores e, ao mesmo tempo, corrigindo desvios:

“E quando Jesus, filho de Maria, disse: ‘Ó Filhos de Israel! Eu sou, por certo, o Mensageiro de Allah para vós, confirmador do que veio antes de mim da Torá, e alvissarador de um Mensageiro que virá depois de mim, cujo nome será Ahmad’.” (Surah 61, 6)

Assim, além do nome de Messias, ele também é denominado no Alcorão Sagrado como Profeta, Mensageiro de Allah, Filho de Maria, Abençoado e Servo de Allah. Em nenhum momento, porém, se apresenta como divindade ou como parte de uma “natureza divina” compartilhada com Allah. Pelo contrário, o Alcorão corrige explicitamente essa crença.


Quem é ele no Alcorão

De forma contrária à crença que muitos cristãos construíram ao longo dos séculos após a partida de Issa, este amado Mensageiro de Allah nunca se referiu a si mesmo como filho de Deus no sentido literal, como Deus encarnado ou como alguém que traria automaticamente a salvação dos pecados para todos os humanos, independentemente de fé e responsabilidade.

Allah diz no Alcorão, a respeito desse profeta e de sua mãe:

“O Messias, filho de Maria, não é senão um Mensageiro: antes dele, com efeito, os Mensageiros passaram. E sua mãe era veracíssima. Ambos consumiam alimento. Olha como lhes explicitamos os sinais e, em seguida, olha como se desviam.” (Surah 5, 75)

Este versículo mostra de forma didática que Issa e Mariam são seres humanos honrados, mas humanos. Precisavam se alimentar, dormiam, sentiam fome e fadiga, como qualquer criatura. Logo, não podem ser divindades. O Alcorão também transmite as palavras desse profeta ainda bebê, defendendo a honra de sua mãe e deixando claro qual é sua verdadeira posição:

“Disse ele: ‘Por certo, eu sou o servo de Allah. Ele me deu o Livro e fez-me profeta. E fez-me abençoado onde quer que eu esteja; e recomendou-me a oração e o zakat, enquanto eu viver. E (recomendou-me) a ser piedoso para com minha mãe; e não me fez arrogante, nem miserável. E que a paz esteja sobre mim, no dia em que nasci, no dia em que morrer e no dia em que for ressuscitado para a vida’.” (Surah 19, 30-33)

Repare que ele se apresenta como “servo de Allah”, como profeta e mensageiro, e descreve sua missão em termos de oração, caridade, piedade e obediência, não em termos de divindade.


Seus milagres: sinais pela permissão de Allah

No Alcorão Sagrado, Issa também é descrito como um profeta que realizava milagres, seguia os passos dos profetas anteriores, ressuscitava os mortos e pregava para todos, sem discriminação – principalmente através do exemplo de seu caráter e de sua boa conduta. Em algumas passagens, esses milagres se assemelham aos que constam nos Evangelhos, embora o Alcorão enfatize sempre que eles ocorreram pela permissão de Allah, não por um “poder próprio” independente.

Um dos mais belos milagres de Issa, narrado no Alcorão Sagrado e também em alguns evangelhos que não entraram para o cânone oficial, é o milagre de que Issa teria moldado pássaros de barro e soprado neles o fôlego da vida, transformando-os em pássaros reais. O Alcorão menciona:

“… E quando modelas do barro, como que a forma de um pássaro, com Minha permissão, e nele sopras, e ele se torna pássaro, com Minha permissão; e curas o cego de nascença e o leproso, com Minha permissão; e quando fazes sair os mortos, com Minha permissão…” (Surah 5, 110)

Essa repetição de “com Minha permissão” indica claramente que Issa não é a fonte última do milagre; ele é o mensageiro através do qual Allah manifesta Seus sinais. Assim, os milagres de Issa não são prova de divindade, mas prova de missão profética, exatamente como no caso de Mussa, Ibrahim, Muhammad e os demais profetas, que a paz esteja sobre todos.


A sua mensagem: continuidade e restauração

A missão de Issa também inclui a restauração da lei revelada anteriormente, não a sua abolição absoluta. Ele veio confirmar a Torá e, ao mesmo tempo, revelar ajustes específicos, como Allah descreve:

“E fazendo-o Mensageiro para os Filhos de Israel (dizendo): ‘Em verdade, eu vos trouxe um sinal de vosso Senhor… E venho confirmar o que há, em minhas mãos, da Torá, e para tornar lícito a vós parte do que vos era vedado. E vos trouxe um sinal de vosso Senhor; então, temei a Allah e obedecei-me.’” (Surah 3, 49-50)

Portanto, Issa se apresenta como elo de continuidade, e não como ruptura total com o que veio antes. Sua missão é reconduzir os Filhos de Israel ao monoteísmo puro, corrigir exageros e distorções, restaurar a misericórdia e a justiça na prática da lei e preparar o caminho para o último Mensageiro, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.


O Messias e a questão da crucificação

Issa possuía vários discípulos e, com o tempo, começou a ficar muito conhecido na região, pois todos queriam ouvi-lo e até ser curados por seus milagres. Essa popularidade despertou o interesse do Império Romano, que passou a temer que Issa incitasse as pessoas a organizar uma revolta. Dessa forma, os chefes locais, representantes do poder romano, junto com alguns líderes religiosos que sentiram seu prestígio ameaçado pela mensagem pregada por Issa, planejaram uma emboscada para condená-lo à morte.

Na narrativa corânica, porém, esse plano não se concretiza como os inimigos de Issa imaginavam. Allah não permitiu que Seu profeta fosse humilhado por eles dessa forma. O Alcorão afirma de modo categórico que não mataram nem crucificaram Issa, embora lhes tenha parecido assim:

“E por sua palavra: ‘Por certo, matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, Mensageiro de Allah.’ Mas não o mataram nem o crucificaram; mas isso lhes pareceu. E, por certo, os que discordam acerca dele estão em dúvida quanto a isso. Não têm conhecimento algum disso, apenas seguem conjecturas. E, com certeza, não o mataram. Outrossim, Allah elevou-o a Si. E Allah é Todo-Poderoso, Sábio.” (Surah 4, 157-158)

Alguns sábios entendem que uma outra pessoa foi feita semelhante a Issa e foi crucificada em seu lugar; outros preferem apenas afirmar, como o próprio Alcorão faz, que o que aconteceu produziu a aparência de crucifixão, sem que Issa, de fato, fosse morto ali. O ponto essencial, do ponto de vista islâmico, é que Issa não morreu na cruz e que sua missão não foi a de expiar, com seu próprio sangue, os pecados da humanidade, mas sim chamar à fé, ao arrependimento e à obediência a Allah.


Onde está ele agora e o que o Islam diz sobre seu retorno

Mas, então, para onde foi e onde está Issa agora? O Islam acredita que Issa está vivo, elevado por Allah, e que retornará à terra antes do fim dos tempos. Sua volta está ligada aos grandes sinais da Hora e à correção das distorções que, ao longo dos séculos, foram feitas em torno de sua figura e de sua mensagem.

O Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse em um hadith autêntico:

“Por Aquele em cujas mãos está a minha alma, em breve descerá entre vós o filho de Maria como juiz justo; ele quebrará a cruz, matará o porco e abolirá o tributo de guerra, e haverá tal abundância de riqueza que ninguém a aceitará.” (Sahih al-Bukhari, nº 2222)

De acordo com os ensinamentos islâmicos, antes da volta de Issa aparecerá uma outra figura, o falso Messias (Al-Massih ad-Dajjal), um grande enganador que proclamará ser enviado por Allah e seduzirá muitas pessoas com seus prodígios e mentiras. Os crentes que se mantiverem firmes no monoteísmo reconhecerão a falsidade desse personagem, e Issa, ao retornar, o confrontará e o derrotará, restaurando a verdade sobre Allah, sobre a adoração correta e sobre si mesmo. Só depois disso, Issa morrerá na terra, como todos os demais seres humanos, e será sepultado.


Lições de fé na história deste profeta

A história de Issa, que a paz esteja sobre ele, traz inúmeras lições para muçulmanos e não-muçulmanos. Em primeiro lugar, mostra que o verdadeiro valor de um mensageiro está em sua submissão a Allah e em sua fidelidade ao monoteísmo, e não em títulos de poder ou em imagens de glória mundana. Issa viveu com humildade, chamou à justiça, corrigiu desigualdades, aproximou-se dos pobres e dos marginalizados e convidou todos a uma relação direta com Allah.

Em segundo lugar, sua vida corrige exageros de ambos os lados: de um lado, aqueles que o rejeitaram e o reduziram a um simples agitador; de outro, aqueles que o elevaram ao status de divindade ou parte de uma “trindade”. O Alcorão alerta:

“Ó povo do Livro! Não exagereis em vossa religião, nem digais, acerca de Allah, senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, não é senão o Mensageiro de Allah e Seu Verbo que Ele lançou a Maria, e um espírito vindo d’Ele. Crede, pois, em Allah e em Seus Mensageiros e não digais: ‘Três’. Desisti disso; será melhor para vós. Allah é, por certo, uma só divindade. Glorificado seja, por estar acima de ter um filho.” (Surah 4, 171)

Em terceiro lugar, a figura de Issa no Islam mostra como a revelação é uma só cadeia: ele confirma a Torá, anuncia o último Profeta, Muhammad, e será uma testemunha contra aqueles que deturparam sua mensagem. A sua volta, antes do fim dos tempos, simboliza também a restauração da unidade da fé em Allah, quando os crentes compreenderão, sem dúvidas, que todos os profetas trouxeram a mesma mensagem essencial.


Conclusão

Issa (Jesus, que a paz esteja sobre ele) é, ao mesmo tempo, ponto de encontro e ponto de esclarecimento entre Islam e Cristianismo. De um lado, ambos reconhecem sua nobreza, seu nascimento milagroso e sua vida de pureza, compaixão e milagre. De outro, o Islam convida a uma reflexão sobre o lugar correto de Issa: não como Deus ou filho literal de Deus, mas como servo de Allah, Messias e Mensageiro, que chamou à mesma fé pura de Ibrahim, Mussa, Dawud e, por fim, Muhammad, que a paz esteja sobre todos.

Ao estudar a figura de Issa no Islam, o leitor encontra um convite à serenidade: abandonar exageros, afastar-se de dogmas posteriores e voltar à simplicidade poderosa do monoteísmo. Adorar apenas Allah, sem intermediários divinos, amar e honrar todos os profetas, seguir a orientação revelada com sinceridade e esperar, com esperança e temor, o Dia em que todos serão reunidos para prestar contas.


Referências

  1. Alcorão Sagrado, com tradução de Helmi Nasr.
  2. Baseado no texto autoral do vídeo da série “Olhares Islam” por Tayryni Costa.
  3. Ibn Kathir, História dos Profetas (adaptado para português).
  4. IslamReligion.com – Seções sobre “Jesus no Islam” e “Histórias dos Profetas”.
  5. IslamQA.info – Fatawa sobre a crença correta em Issa (Jesus, que a paz esteja sobre ele).
  6. Sunnah.com – Coleção Sahih al-Bukhari (hadith sobre a descida de Jesus no fim dos tempos).
  7. Al-Tabari, Tafsir at-Tabari – comentários sobre as suratas 3, 4, 5 e 19.
  8. Al-Qurtubi, Tafsir al-Qurtubi – comentários sobre os versículos relativos a Issa e Mariam.

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