Ismail (Ismael) علیه السلام

Ismail (Ismael) علیه السلام

Ismail no Alcorão e na tradição islâmica

Ismail (Ismael, عليه السلام) é um dos grandes profetas de Allah, filho de Ibrahim e de Hajar. O Alcorão o descreve com elogios claros, como um homem veraz na promessa, paciente e dedicado à oração e à caridade. Allah diz:

“E menciona, no Livro, Ismail. Por certo, ele era veraz na promessa, e era mensageiro, profeta. E ordenava a sua família a oração e o zakat; e era, junto de seu Senhor, agradado.”
(Alcorão, surata Maryam, 19:54-55)

A tradição islâmica preservada por Ibn Kathir, pelos livros de hadith e por estudiosos ao longo dos séculos detalha como Ismail foi levado ainda bebê ao vale árido de Makkah, como sua mãe Hajar confiou em Allah, como surgiu o poço de Zamzam e como, ao lado de seu pai, ele participou da construção da Kaabah. Essa história está profundamente ligada aos rituais do Hajj e à identidade espiritual dos muçulmanos até hoje.


Hajar, Ismail e a instalação em Makkah

Um dia, Ibrahim acordou e pediu a Hajar que preparasse o pequeno Ismail para uma longa jornada. A criança ainda estava em fase de amamentação. Depois de atravessar terras cultivadas, desertos e montanhas, Ibrahim chegou à região desértica da Península Arábica, num vale completamente estéril, sem árvores, sem água, sem qualquer sinal de vida. Era a área onde hoje se encontra Makkah. Ali, ele deixou Hajar e o bebê com uma pequena bolsa de tâmaras e um odre com um pouco de água, provisão que mal duraria dois dias.

Quando Ibrahim se virou para partir, Hajar o seguiu aflita, perguntando repetidas vezes para onde ele ia, deixando-os em um vale sem pessoas ou recursos. Ibrahim permanecia em silêncio, até que, finalmente, ela perguntou se aquilo era ordem de Allah. Ele respondeu que sim. Então, essa mulher temente a Allah pronunciou as famosas palavras de confiança: se Allah ordenou, Ele não os abandonaria.

Ao se afastar, Ibrahim voltou-se em direção ao local da Casa Sagrada e fez uma súplica comovente:

“Senhor nosso! Por certo, eu fiz habitar parte de minha descendência em vale sem searas, junto de Tua Casa Sagrada – Senhor nosso! – para que eles cumpram a oração. Então, faze que os corações de parte dos homens se precipitem a eles, com fervor. E dá-lhes dos frutos, por sustento, na esperança de serem agradecidos. Senhor nosso! Por certo, Tu sabes o que escondemos e o que manifestamos. E nada se esconde de Allah na terra nem no céu.”
(Alcorão, surata Ibrahim, 14:37-38)

Esse duʿa de Ibrahim é o ponto de partida da história de Ismail em Makkah e explica por que aquele vale seco se tornaria, mais tarde, o centro espiritual da humanidade.


O desespero de Hajar e o milagre de Zamzam

Ibn ‘Abbas relatou que Hajar foi a primeira mulher a usar um cinto para disfarçar seus rastros, por causa do ciúme de Sara. Ibrahim a deixou com Ismail em um terreno elevado, próximo do local onde hoje está o poço de Zamzam, então completamente seco. Enquanto havia água no odre, Hajar amamentava Ismail e bebia um pouco, mas quando a água acabou, ela e o bebê começaram a sentir sede intensa.

Sem suportar ver o filho se contorcendo na areia, Hajar o deixou sob uma árvore e subiu a colina de as-Safa, o ponto mais alto à sua frente. Dali, olhou na direção do vale na esperança de ver alguém, mas não viu ninguém. Desceu então e, ao chegar ao fundo do vale, correu desesperada até a outra colina, al-Marwa. Voltou a olhar na direção do deserto e mais uma vez não viu ninguém. Assim, ela correu entre as duas colinas sete vezes, num esforço físico e espiritual que mais tarde se tornaria parte do ritual do Hajj e da ‘Umrah.

O Profeta Muhammad ﷺ explicou que esse saʿi entre as-Safa e al-Marwa é uma revivificação da corrida de Hajar. Ele disse que, quando ela chegou pela última vez em al-Marwa, ouviu uma voz e parou para escutar atentamente. Ao ouvir de novo, pediu ajuda, e então viu um anjo – Jibril – no local de Zamzam, cavando a terra com o calcanhar ou com a asa, até que a água começou a brotar. Hajar então formou com as mãos como uma pequena bacia e começou a recolher água, enchendo o odre e tentando controlar o fluxo.

O Profeta ﷺ comentou:

“Que Allah conceda misericórdia à mãe de Ismail! Se ela tivesse deixado Zamzam fluir sem tentar contê-lo, teria sido um riacho visível na superfície da terra.” (Sahih al-Bukhari)

Hajar bebeu daquela água e seu leite aumentou, permitindo que amamentasse Ismail. O anjo tranquilizou-a, dizendo que aquela era a Casa de Allah que seria reconstruída por aquele menino e por seu pai, e que Allah jamais abandona Seus servos.


O início da cidade e a tribo de Jurhum

Por algum tempo, Hajar e Ismail viveram sozinhos, sustentados por Zamzam. Certo dia, uma caravana da tribo de Jurhum passou pelo vale a caminho da região da Kaabah. Os viajantes perceberam pássaros sobrevoando um ponto específico, o que indicava presença de água. Enviaram batedores, que encontraram o poço e retornaram para informar a tribo.

Jurhum veio até o local e encontrou Hajar junto à água. Pediram permissão para se estabelecer ali. Ela concordou, com a condição de que a água permanecesse sob sua responsabilidade, sem que eles a reivindicassem como propriedade exclusiva. Eles aceitaram e se instalaram, chamando depois suas famílias. Assim, o vale estéril começou a se transformar em um pequeno assentamento.

Ismail cresceu entre os jurhumitas, aprendeu o árabe deles e passou a ser admirado por suas virtudes e caráter. Quando atingiu a puberdade, eles o casaram com uma mulher da própria tribo. Desse modo, o profeta Ismail se tornou parte da comunidade de Makkah, e ali se consolidou uma linhagem que mais tarde culminaria no nascimento do Profeta Muhammad ﷺ, descendente de Ismail pelo lado paterno.


As visitas de Ibrahim e a “soleira da porta”

Depois da morte de Hajar, Ibrahim voltou a Makkah para rever o filho. Não o encontrou em casa e conversou com a primeira esposa de Ismail. Perguntou sobre a vida do casal e ela reclamou de pobreza e dificuldades, sem qualquer menção de gratidão. Ibrahim pediu, então, que ela transmitisse um recado ao marido: que ele “mudasse a soleira da porta”.

Ao retornar, Ismail percebeu algo diferente e perguntou à esposa se alguém os havia visitado. Ela relatou a conversa e o recado. Ismail compreendeu que se tratava de seu pai e que o conselho significava a necessidade de se divorciar. Mandou-a de volta para a família e casou-se com outra mulher de Jurhum.

Passado algum tempo, Ibrahim voltou novamente. Outra vez não encontrou Ismail em casa e conversou com a segunda esposa. Perguntou sobre sua situação e ela respondeu com gratidão, dizendo que viviam bem, com carne e água em abundância, louvando a Allah. Ibrahim fez duʿa pedindo bênção para a carne e a água de Makkah. Depois pediu que ela levasse ao marido seu salam e o recado de “manter firme a soleira da porta”. Ismail entendeu que seu pai estava satisfeito com o novo lar e com a conduta daquela esposa, e que deveria permanecer com ela.

Esses episódios mostram a importância do olhar de um pai profeta sobre a vida familiar do filho, a necessidade de gratidão pelos favores de Allah e o impacto espiritual da escolha de um cônjuge temente a Allah.


A construção da Kaabah e a Estação de Ibrahim

Em uma de suas visitas seguintes, Ibrahim encontrou Ismail perto de Zamzam, afiando flechas. Foi então que lhe comunicou uma nova ordem divina: Allah havia lhe ordenado que erguesse ali uma Casa para Sua adoração. Ismail, sempre obediente, respondeu que apoiaria o pai em tudo o que Allah tivesse ordenado.

Os dois se dirigiram a uma elevação no terreno e começaram a levantar os alicerces da Kaabah. Ismail trazia as pedras e Ibrahim construía as paredes. Quando estas ficaram altas demais, Ismail trouxe uma pedra para que o pai subisse sobre ela e continuasse. Essa pedra ficou conhecida como Maqam Ibrahim, a Estação de Ibrahim, onde ainda hoje os muçulmanos rezam duas unidades de oração após o tawaf.

Enquanto levantavam a Casa, pai e filho faziam uma súplica que ficou registrada no Alcorão:

“E quando Ibrahim e Ismail levantaram os alicerces da Casa, disseram: ‘Senhor nosso! Aceita-a de nós. Por certo, Tu és o Oniouvinte, o Onisciente. Senhor nosso! Faze de nós dois submissos a Ti e, de nossa descendência, uma nação submissa a Ti. E mostra-nos nossos ritos e volta-Te para nós com indulgência. Por certo, Tu és o Remissório, o Misericordiosíssimo’.” (Alcorão, surata Al-Baqarah, 2:127-128)

Em outra passagem, Allah menciona que ordenou a Ibrahim purificar a Casa para os que circundam, se retiram em devoção, se inclinam e se prostram. Essa Kaabah, erguida por Ibrahim e Ismail, tornou-se o primeiro centro de adoração monoteísta estabelecido para toda a humanidade, um local de segurança e peregrinação, como o Alcorão afirma:

“A primeira Casa erigida para a humanidade é a em Bakkah, abençoada e orientação para os mundos. Nela há sinais evidentes, a Estação de Ibrahim; e quem nela entra está em segurança.” (Alcorão, surata Aal ‘Imran, 3:96-97)

A participação de Ismail nessa construção o conecta diretamente aos ritos do Hajj e à centralidade de Makkah na vida de todos os muçulmanos.


O grande sacrifício: submissão de pai e filho

Outra cena marcante da história de Ismail é o episódio do sacrifício, que representa um dos maiores testes na vida de Ibrahim e de seu filho. Depois de pedir por descendência reta, Ibrahim recebeu a boa notícia de um filho paciente. Quando esse filho atingiu a idade de caminhar ao lado do pai, Allah o testou com um sonho. O Alcorão relata:

“E ele disse: ‘Por certo, vou aonde meu Senhor me ordena; Ele me guiará. Senhor meu! Concede-me um [filho] de entre os justos.’ Então, alvissaramo-lo com um menino dócil. E quando este atingiu a idade de caminhar com ele, [Ibrahim] disse: ‘Ó meu filho! Por certo, vi em sonho que te imolava. Então, vê o que achas.’ Ele disse: ‘Ó meu pai! Faze o que te é ordenado. Encontrar-me-ás, se Allah quiser, dentre os perseverantes’.” (Alcorão, surata As-Saffat, 37:99-102)

O diálogo revela a grandeza de caráter de Ismail. Mesmo sendo o único filho com o qual Ibrahim havia sonhado por tantos anos, ele se entrega ao decreto de Allah com serenidade e confiança, pedindo apenas que o pai cumpra o que lhe foi ordenado. O Alcorão continua:

“E quando ambos se submeteram e [Ibrahim] o deitou com a fronte por terra, chamamo-lo: ‘Ó Ibrahim! Com efeito, tornaste verdadeiro o sonho.’ Por certo, assim recompensamos os benfeitores. Por certo, isto é a evidente provação. E resgatamo-lo com um imolado magnífico. E deixamos sobre ele [Ibrahim] boa lembrança nas gerações posteriores: ‘Paz sobre Ibrahim.’ Assim recompensamos os benfeitores. Por certo, ele era um de Nossos servos crentes.” (Alcorão, surata As-Saffat, 37:103-111)

Os comentaristas explicam que o “imolado magnífico” foi um carneiro enviado por Allah para substituir Ismail. Esse episódio é lembrado todos os anos no Hajj e na celebração de Eid al-Adha, quando os muçulmanos realizam o sacrifício em memória da obediência de Ibrahim e Ismail. Mais uma vez, a vida de Ismail é apresentada como exemplo de paciência, submissão e confiança plena no Senhor.


A visita dos anjos e a linhagem profética

A história de Ismail também aparece ligada às boas novas de outro filho de Ibrahim, Ishaq, por meio da visita de anjos à tenda de Ibrahim e Sara. Os mensageiros chegaram em forma humana, foram recebidos com hospitalidade e, quando não comeram da refeição preparada, Ibrahim sentiu temor. Eles explicaram que eram anjos enviados a destruir o povo de Lut e, ao mesmo tempo, anunciaram um filho a Sara. O Alcorão relata:

“E, com efeito, Nossos mensageiros chegaram a Abraão com alvíssaras. Disseram: ‘Paz.’ Ele disse: ‘Paz.’ E não tardou em trazer-lhes um bezerro assado. Então, quando viu que suas mãos não se estendiam a ele, desconfiou deles e teve medo. Disseram: ‘Não temas. Por certo, fomos enviados ao povo de Lot.’ E sua mulher estava de pé, e riu. Então, alvissaramo-la com Ishaq e, depois de Ishaq, com Jacó. Ela disse: ‘Ai de mim! Darei à luz, sendo velha, e este meu marido, ancião? Por certo, isto é algo espantoso.’ Disseram: ‘Admiras-te da ordem de Allah? A misericórdia de Allah e Suas bênçãos estejam sobre vós, ó gente da casa. Por certo, Ele é Louvável, Glorioso’.” (Alcorão, surata Hud, 11:69-73)

Assim, de Ibrahim descende uma dupla linhagem profética: por Ishaq, a linhagem de Yaqub e dos profetas de Bani Israil; por Ismail, a linhagem árabe que culmina no Profeta Muhammad ﷺ. A posição de Ismail como profeta, filho de Ibrahim e antepassado do Mensageiro final reforça sua importância na história da revelação.


Lições de fé e confiança na história de Ismail

A história de Ismail e de sua mãe Hajar é um exemplo contínuo de tawakkul, a confiança ativa em Allah, aliados ao esforço concreto. Hajar não ficou parada esperando o socorro cair do céu: ela correu entre as colinas sete vezes, procurou ajuda e, somente então, foi agraciada com o milagre de Zamzam. Ismail, por sua vez, encarna a soma de três qualidades: obediência ao pai, paciência diante do decreto divino e participação prática na construção da religião, seja na construção da Kaabah, seja em sua vida entre o povo de Makkah, ensinando a adorar somente Allah.

Os rituais do Hajj – o saʿi entre as-Safa e al-Marwa, o beber de Zamzam, o sacrifício de Eid al-Adha, as orações próximas ao Maqam Ibrahim – mantêm viva essa memória e transformam a biografia de Ismail em uma experiência vivida por milhões de muçulmanos todos os anos. A mensagem central permanece atual: colocar Allah acima de tudo, confiar em Seu decreto, trabalhar com sinceridade e transmitir a fé às próximas gerações.


Referências

  1. Alcorão Sagrado, tradução de Dr. Helmi Nasr.
  2. Ibn Kathir, Al-Bidāya wa an-Nihāya (História dos Profetas e Mensageiros).
  3. Ibn Kathir, Qasas al-Anbiyā’ (Relatos dos Profetas).
  4. Al-Bukhari, Sahih al-Bukhari, livros sobre os Profetas e sobre o Hajj.
  5. Muslim, Sahih Muslim, livros sobre a fé e virtudes dos profetas.
  6. Artigo “Isma‘il (Ishmael)”, IslamReligion.com.
  7. Al-Tabari, Jāmiʿ al-Bayān fī Tafsīr al-Qur’ān (Tafsir at-Tabari), comentários sobre as suratas Ibrahim, As-Saffat e Al-Baqarah.

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