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Quem foi o Profeta Ilyas
O Profeta Ilyas (Elias), descendente do Profeta Harun (que a paz esteja sobre ambos), foi enviado por Allah ao povo de Bal, região ao oeste de Damasco. Ele foi enviado para conduzir os israelitas ao Tawhid e encaminhá-los para a verdade. No versículo 85 da surat al-Anam, seu nome aparece entre os profetas virtuosos:
“E Zacarias, e João, e Jesus e Elias; todos estavam entre os virtuosos.”
(Surah Al-An’am, 85)
O Profeta Ilyas é, portanto, mencionado explicitamente como profeta no Alcorão e aparece em diversos outros versículos. Fontes islâmicas afirmam que seu nome completo é Ilyas ibn Yasin, e que ele e o povo ao qual foi enviado são mencionados na surata As-Saffat, quando Allah diz:
“E paz esteja sobre Ilyas.”
(Surah As-Saffat, 130)
Por isso, alguns exegetas explicam a expressão “Il Yasin” como “Ilyas e seus seguidores”, isto é, aqueles que creram com ele.
O texto islâmico tradicional relata que, após o falecimento do Profeta Suleiman (que a paz esteja sobre ele), o reino que antes era unido se dividiu em Israel e Yahuda. Foi nesse contexto conturbado, de fragmentação política e enfraquecimento espiritual, que se iniciou a missão profética de Ilyas, com a responsabilidade de chamar seu povo ao monoteísmo puro. Ele surge como um elo na cadeia dos profetas enviados especialmente aos Filhos de Israel, reafirmando a mesma mensagem: adorar somente Allah, sem parceiros, obedecer à revelação e afastar-se da idolatria e da corrupção moral.
Contexto histórico após Suleiman e o reino de Yahuda
Após o falecimento do Profeta Suleiman (Salomão, que a paz esteja sobre ele), o grande reino que havia sido unificado sob sua liderança se fragmentou. As fontes históricas mencionam dois reinos principais: o reino do norte, chamado Israel, e o reino do sul, conhecido como Yahuda. O reino de Yahuda permaneceu relativamente estável por mais tempo porque abrangia Quds (Jerusalém), onde se encontrava a Masjid al-Aqsa, o centro espiritual dos Filhos de Israel. Ali havia relíquias sagradas, estudiosos que orientavam o povo e a Torá era recitada, ensinada e aplicada nas decisões comunitárias.
Enquanto isso, em outras regiões, especialmente no norte, o distanciamento gradual da revelação e dos ensinamentos da Torá começou a crescer. Com a perda desse vínculo forte com Quds e com as práticas de conhecimento, o povo de Israel (Bani Israil) passou a se afastar da shari‘ah de Mussa (que a paz esteja sobre ele). O que começa, em muitos casos, como pequenas concessões culturais, aproximação de costumes de povos vizinhos e tolerância com práticas pagãs, pouco a pouco se transforma em um abandono aberto da lei revelada. Foi nesse cenário que a idolatria entre os Filhos de Israel começou a se espalhar de forma preocupante.
O nome do ídolo adorado por muitos cidadãos de Bani Israil era Baal (Baa‘l), um ídolo descrito nas fontes como tendo quatro faces, com cerca de 13,6 metros de altura e feito de ouro. A localização desse ídolo ficou conhecida como Ba‘lbek, nome dado em homenagem à divindade falsa. Até hoje, a cidade de Baalbek, na região do Levante, conserva esse nome como um testemunho histórico da antiga prática idólatra que ali existiu. Todo aquele reino foi se desviando, caindo nas tramas do shaitan, e, com exceção de um número muito pequeno de crentes sinceros, a população em geral passou a praticar shirk, adorando ídolos e cometendo atos ilícitos.
Aqueles que se recusavam a se rebelar contra os profetas e contra Allah, exaltado seja, foram submetidos a torturas, perseguições e, em muitos casos, executados. A mensagem dos profetas incomodava os líderes injustos, que estavam acostumados a manipular a religião e os símbolos sagrados para manter seu poder e seus interesses. Nesse contexto, Allah enviou o Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele) justamente para confrontar esse sistema de shirk, injustiça e corrupção, chamando o povo de volta ao monoteísmo puro e à obediência sincera ao Criador.
A missão do Profeta Ilyas e o combate à idolatria
A missão do Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele) foi, desde o início, clara: chamar seu povo ao Tawhid e proibi-los de adorar Baal e outros ídolos. Em um esforço constante para reconduzi-los à verdade, ele os aconselhou contra o shirk (idolatria) e o kufr (rejeição da fé) e os advertiu sobre as consequências espirituais e sociais de abandonarem a adoração sincera a Allah. A mensagem de Ilyas era simples e direta, mas extremamente profunda: os ídolos eram fracos, impotentes, incapazes de beneficiar ou prejudicar, enquanto Allah é o Criador, Sustentador e Senhor de todos.
O Alcorão resume com grande eloquência esse chamado do Profeta Ilyas ao seu povo:
“E, por certo, Elias foi, realmente, um dos Mensageiros. Quando disse a seu povo: ‘Não temeis a Allah? Invocais Baal e deixais O Melhor dos criadores, Allah, vosso Senhor e O Senhor de vossos pais antepassados?’”
(Surah As-Saffat, 123-126)
Nesses versículos vemos a essência da missão de Ilyas: ele apela primeiro ao temor consciente de Allah (“Não temeis a Allah?”), depois denuncia a incoerência de invocar uma divindade falsa (“Invocais Baal”) e, em seguida, recorda quem é o verdadeiro Senhor (“O Melhor dos criadores, Allah, vosso Senhor e o Senhor de vossos pais antepassados”). Ao mencionar os “pais antepassados”, Ilyas está lembrando ao povo que a verdadeira tradição de seus ancestrais não era a idolatria, mas sim o monoteísmo dos profetas anteriores, como Ibrahim, Ishaq, Yaqub, Mussa e Harun (que a paz esteja sobre todos eles).
Apesar desse chamado claro, os incrédulos prestaram pouca atenção às suas mensagens. Muitos estavam profundamente apegados à idolatria não apenas por crença, mas também por interesse político, econômico e social.
A adoração de Baal estava ligada a cultos, festas, rituais agrários e um sistema de poder no qual sacerdotes, líderes locais e elites se beneficiavam da ignorância do povo. Ao atacar diretamente Baal, Ilyas não estava contestando apenas uma crença religiosa, mas também uma estrutura de dominação que se alimentava do shirk. Por isso, aqueles que se mantiveram firmes com Ilyas foram perseguidos, enquanto os que persistiam na idolatria se sentiam confortáveis e, em muitos casos, protegidos pelos governantes.
A súplica de Ilyas, a seca e o arrependimento do povo
Quando a idolatria se espalhou e a maioria do povo se recusou a ouvir sua mensagem, o Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele) voltou-se a Allah com súplicas sinceras. Ele pediu que Allah corrigisse aquele povo e os fizesse perceber a falsidade dos ídolos. As fontes islâmicas relatam que Ilyas suplicou a Allah que enviasse uma prova severa, para que seu povo despertasse do estado de negligência espiritual e arrogância em que se encontrava.
Allah respondeu à súplica do Seu profeta. Uma seca intensa se espalhou por todo o reino de Ácabe (Ahab), afetando colheitas, rebanhos e fontes de água. Essa seca durou cerca de três anos, segundo muitos relatos. A fome começou a matar pessoas e animais, e, ainda assim, durante muito tempo, elas continuaram pedindo ajuda a Baal, fazendo sacrifícios e rituais na esperança de chuva. O contraste era evidente: o Profeta Ilyas convocava à adoração de Allah, Único, enquanto o povo insistia em clamar por uma divindade incapaz de lhes trazer benefício algum.
Com o agravamento da fome e do sofrimento, parte do povo começou a refletir sobre a inutilidade de Baal. Depois de anos sem resposta, eles finalmente se lembraram do chamado de Ilyas e de suas advertências. Diante do desespero, arrependeram-se de suas ações passadas e imploraram ao Profeta Ilyas que pedisse a Allah que enviasse chuva. Reconheceram que, até aquele momento, nada havia funcionado, que todos os rituais realizados diante do ídolo haviam falhado, e que apenas o Senhor dos mundos poderia realmente socorrê-los.
Ilyas, então, suplicou a Allah novamente. Allah, em Sua misericórdia, atendeu à súplica do Seu servo. As nuvens começaram a se formar, a chuva caiu sobre a terra ressequida, e as pessoas foram libertadas, por um tempo, daquele sofrimento. A seca se encerrou, os campos voltaram a produzir e a fome diminuiu. Muitos aceitaram a da’wah (convite à submissão a Allah) de Ilyas, reconhecendo que somente Allah responde às invocações. Essa resposta à súplica do profeta é mais um exemplo de como o Alcorão destaca que Allah ouve e responde aos Seus servos, especialmente aos profetas e àqueles que são sinceros em sua fé.
Entretanto, a natureza humana é frágil. Assim como ocorreu com outros povos mencionados no Alcorão, parte daqueles que prometeram se manter firmes retornou, depois de algum tempo, aos velhos hábitos. Muitos simplesmente se esqueceram da lição e continuaram adorando ídolos, negando a realidade clara que tinham testemunhado com os próprios olhos. Em outros episódios do Alcorão, vemos esse padrão: povos que são salvos por Allah em momentos de aflição, mas que, ao passar do perigo, voltam à ingratidão e à desobediência. A história de Ilyas encaixa-se nesse padrão de prova, misericórdia e, infelizmente, recaída de muitos na descrença.
O fim da missão de Ilyas e o decreto de Allah
Relatos presentes em fontes islâmicas mencionam que, ao ver a persistência da ignorância e da idolatria entre grande parte do povo, o Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele) suplicou a Allah que colocasse um fim à sua missão na terra. Ele não desejava abandonar o povo, mas, ao ver que muitos continuavam rejeitando a verdade e perseguindo os crentes, pediu a Allah que decretasse o que fosse melhor para ele e para a religião. Assim como outros profetas que enfrentaram rejeição prolongada, Ilyas sabia que o controle do tempo, das provas e dos resultados está nas mãos de Allah, e não nas mãos dos mensageiros.
Alguns relatos históricos mencionam que Allah elevou Ilyas aos céus em uma espécie de “carruagem de fogo” ou algo que, para os olhos daquele povo, foi visto como um evento extraordinário. Em qualquer caso, o ponto central para os muçulmanos não é o formato exato desse evento, mas a certeza de que Allah é Quem decide o momento e a forma de encerrar a missão de Seus profetas. O Alcorão é discreto em detalhes, e os estudiosos lembram que, onde o texto revelado não detalha, o crente deve manter o respeito, afirmando aquilo que é certo e deixando o restante ao conhecimento de Allah, o Sapiente, o Onisciente.
Assim, encerra-se a vida terrena do Profeta Ilyas com uma lição de entrega e submissão completa à vontade de Allah. Ele cumpriu sua missão: chamou ao Tawhid, proibiu o shirk, advertiu contra a injustiça e invocou Allah em favor de seu povo em momentos de calamidade. Alguns creram e foram salvos, outros persistiram na idolatria e foram destruídos. Sobre os profetas dessa linhagem – Zacarias, João, Jesus e Ilyas – Allah diz:
“E Zacarias, e João, e Jesus e Elias; todos estavam entre os virtuosos.”
(Surah Al-An’am, 85)
E, para destacar a honra de Ilyas e dos que seguiram sua mensagem, Allah afirma:
“E paz esteja sobre Ilyas. Assim recompensamos os que fazem o bem.”
(Surah As-Saffat, 130-131)
Esses versículos mostram que, independentemente da resposta da maioria de seu povo, o Profeta Ilyas alcançou o grau dos virtuosos e foi agraciado com a saudação de paz da parte de Allah, algo que é um sinal de aceitação e de recompensa na Outra Vida.
Lições da história do Profeta Ilyas para os muçulmanos
Da história do Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele), os muçulmanos podem extrair diversas lições práticas para a própria vida espiritual. Em primeiro lugar, a história de Ilyas é uma lembrança poderosa de que o Tawhid é o centro da religião.
O desvio do povo começou quando eles se afastaram da Torá e dos ensinamentos dos profetas anteriores, tolerando costumes de povos pagãos e, aos poucos, aceitando a adoração de Baal. Isso mostra como o abandono gradual da revelação abre espaço para a idolatria, para o culto ao poder, ao dinheiro, aos símbolos culturais e a tudo que compete com o lugar que pertence somente a Allah no coração humano.
Em segundo lugar, a postura de Ilyas diante de seu povo nos ensina sobre coragem e clareza na transmissão da verdade. Mesmo em minoria, diante de um povo que praticava shirk de maneira aberta e violenta contra os crentes, Ilyas não suavizou sua mensagem ao ponto de torná-la irreconhecível. Ele chamou seu povo diretamente ao temor de Allah e denunciou a adoração de Baal. Isso não significa falta de sabedoria ou de estratégia, mas sim a consciência de que a essência da mensagem não pode ser sacrificada para agradar a maioria.
Outra lição fundamental está na forma como Ilyas recorre a Allah em momentos de extrema dificuldade. Ao ver o povo se afastar, ele suplica por uma prova que o faça despertar. Quando o povo finalmente se arrepende e pede chuva, Ilyas não guarda rancor nem diz “agora é tarde demais”; ao contrário, volta-se novamente a Allah, pede misericórdia para eles e vê a chuva cair como sinal de que Allah continua abrindo portas para o arrependimento. Esse equilíbrio entre firmeza no princípio e misericórdia prática é uma marca da missão dos profetas.
Por fim, a própria conclusão da história de Ilyas reforça que a honra de um mensageiro não está no número de seguidores, nem no resultado visível em termos de poder político ou estabilidade social. A honra do profeta está em cumprir a sua missão com sinceridade. Por isso, Allah diz:
“E paz esteja sobre Ilyas. Assim recompensamos os que fazem o bem.”
(Surah As-Saffat, 130-131)
Que os muçulmanos possam aprender com a história do Profeta Ilyas a manter a fé em tempos difíceis, a não se deixar seduzir por “ídolos” modernos – sejam eles ideologias, desejos, status ou pessoas – e a confiar plenamente em Allah, tanto na adversidade quanto na facilidade.
Conclusão
A história do Profeta Ilyas (que a paz esteja sobre ele) é uma continuação da linha de profetas enviados aos Filhos de Israel para renovar o compromisso com o monoteísmo e a justiça. Ele aparece no Alcorão ao lado de nomes como Zacarias, João e Jesus (que a paz esteja sobre todos eles), sendo descrito como um dos virtuosos e agraciado com a saudação de paz de Allah. Enviado a um povo profundamente envolvido com a idolatria de Baal, Ilyas enfrentou rejeição, perseguição e desdém, mas permaneceu firme em sua missão de chamar ao Tawhid e de denunciar o shirk e a corrupção.
O contexto pós-Suleiman, com a divisão do reino e o enfraquecimento da prática da Torá, ajuda a entender por que a idolatria cresceu tão rapidamente entre Bani Israil. Ao mesmo tempo, mostra como a ausência de conhecimento, de instituições religiosas sólidas e de submissão à revelação abre espaço para que costumes pagãos ganhem força. Nesse cenário, Ilyas é um exemplo de constância: mesmo quando quase todos se afastam, ele ainda invoca Allah, pede provas para despertar seu povo e, quando eles se arrependem, intercede por eles novamente.
Ao estudarmos a história do Profeta Ilyas no Islam, somos convidados a refletir sobre nossa própria realidade. Em meio a tantas pressões culturais, ideológicas e espirituais, os muçulmanos precisam recordar que a verdadeira proteção e honra vêm de Allah, não de ídolos antigos nem de “ídolos” modernos. Que possamos aprender algo valioso com a história do Profeta Ilyas para nos tornarmos mais piedosos, firmes no Tawhid e confiantes em Allah durante tempos difíceis e de provação.
Referências
- Alcorão Sagrado – tradução para o português do Brasil por Helmi Nasr, Complexo do Rei Fahd para a Impressão do Alcorão Sagrado.
- Ibn Kathir. História dos Profetas (Qasas al-Anbiya), diversas edições em português.
- Artigo “Prophet Elias (Ilyas)” – IslamReligion.com (consultado como base temática e cronológica).
- Artigos biográficos sobre os profetas – SunnahOnline.com (material de apoio narrativo).
- Compilações clássicas de Tafsir (exegese do Alcorão), como Tafsir Ibn Kathir e Tafsir al-Tabari (consultadas indiretamente por meio de resumos em língua portuguesa).
- Obras de introdução à crença islâmica e aos profetas, em especial: Aqeedah at-Tahawiyyah com comentários de estudiosos sunitas contemporâneos, usadas para reforçar conceitos de Tawhid e missão profética.
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