Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

Apenas dois Eids no Islam

O ponto de partida para entender o Dia dos Namorados no Islam é a regra clara de que a Shari‘ah reconhece apenas dois Eids anuais para os muçulmanos: Eid al-Fitr, ao final do jejum de Ramadan, e Eid al-Adha, após o dia de ‘Arafah na peregrinação. Isso é estabelecido pelo consenso das primeiras gerações e por hadiths autênticos. Anas ibn Malik relatou que, quando o Mensageiro de Allah ﷺ chegou a Madinah, encontrou o povo celebrando dois dias de diversão herdados da época pré-islâmica. Ele perguntou o que eram, e ao saber que eram festas da Jahiliyyah, disse:

“Vocês tinham dois dias em que se divertiam, mas Allah os substituiu por dois dias melhores: o dia de al-Fitr e o dia de al-Adha.” (Sunan an‑Nasa’i; classificado como sahih)

Em outro hadith, ‘Aisha relatou que o Profeta ﷺ disse:

“O (‘Eid) al‑Fitr é o dia em que as pessoas rompem o jejum, e o (‘Eid) al‑Adha é o dia em que as pessoas oferecem o sacrifício.” (at‑Tirmidhi; hadith hasan)

A partir desses textos, os sábios concluíram que qualquer outro “Eid” ligado a pessoa, grupo, incidente ou data específica – seja nacional, romântico, folclórico ou religioso – é um Eid inovado, sem base no Qur’an nem na Sunnah. Participar de tais festivais significa, na prática, introduzir no Islam um terceiro tipo de Eid, além daqueles que Allah legislou. Por isso, a resposta do Comitê Permanente inicia lembrando esse princípio: o muçulmano deve se contentar com o que Allah escolheu como dias de alegria e culto coletivo, sem acrescentar celebrações externas à lei revelada.


Por que o “Eid al-Hubb” é um Eid inovado

Aplicando esse princípio ao chamado Dia dos Namorados, ou “Yawm al-Hubb”, os estudiosos explicam que tal data se enquadra exatamente na categoria de Eid inovado. As práticas associadas ao Dia dos Namorados – troca de rosas vermelhas, doces em formato de coração, roupas vermelhas, mensagens românticas específicas daquele dia, decoração temática nas lojas – transformam 14 de fevereiro em uma ocasião de alegria ritualizada e repetida, com símbolos próprios e expectativas sociais claras. Isso preenche, na prática, a definição de Eid, ainda que as pessoas não usem essa palavra.

O problema, portanto, não é apenas o fato de se falar de “amor”, mas sim de transformar um dia importado de tradições cristãs e pagãs em uma festa anual, paralela aos dois Eids do Islam. Quando muçulmanos aderem a essa data, organizando celebrações, trocando presentes específicos e marcando-na como especial, estão, de fato, adotando um terceiro Eid. Os membros do Comitê Permanente descrevem isso como “transgressão dos limites de Allah”, invocando o versículo:

“Esses são os limites de Allah. E quem quer que transgrida os limites de Allah, com efeito, comete injustiça contra si mesmo.” (Surah At‑Talaq, versículo 1) (65:1)

O texto lembra que qualquer ultrapassagem desses limites, incluindo a introdução de festas religiosas ou simbólicas não legisladas, é, antes de tudo, injustiça contra a própria alma. O muçulmano se afasta da proteção da obediência e se aproxima de práticas estranhas à revelação.


Imitação dos descrentes e lealdade indevida

O pecado se torna ainda mais grave quando o Eid inovado é, ao mesmo tempo, um festival distintivo dos descrentes. O Dia dos Namorados é reconhecido como uma data de origem pagã e desenvolvimento cristão, ligada à cultura ocidental moderna e frequentemente associada à permissividade nos relacionamentos. Ao adotá-lo, o muçulmano não cai apenas em inovação, mas também em imitação (tashabbuh) e um tipo de lealdade e afeição (muwalat) em relação a práticas religiosas e culturais que contrariam a orientação islâmica.

O Profeta Muhammad ﷺ advertiu:

“Quem quer que imite um povo é um deles.” (relatado por Abu Dawud, Ahmad; hadith hasan)

Os estudiosos explicam que esse hadith, no mínimo, indica a proibição de imitar os descrentes em práticas que são distintivas deles, especialmente em assuntos ligados a sua religião, seus festivais e seus símbolos identitários. Artigos especializados lembram que a imitação gera, com o tempo, admiração, amor e sensação de inferioridade em relação ao modelo imitado, levando a pessoa a afastar-se do caminho de Allah, a desacreditar os heróis e valores do Islam e a preferir o estilo de vida daqueles que negam a revelação.

No caso específico do Dia dos Namorados, além da imitação, há o risco de normalizar conceitos de “amor” desvinculados do casamento legítimo e de abrir espaço para relacionamentos ilícitos, encontros secretos, trocas de presentes entre não mahram e outros comportamentos que a Shari‘ah claramente condena. Por isso, os sábios afirmam que nenhum muçulmano que crê em Allah e no Último Dia deve participar desse “Eid al‑Hubb”, aprovando-o, felicitando os outros por ele ou tomando parte em suas práticas, seja direta seja indiretamente.


Cooperação no pecado: comprar, vender e participar indiretamente

A pergunta original não tratava apenas da celebração em si, mas também de outras formas de envolvimento: comprar em lojas que promovem o Dia dos Namorados, vender produtos temáticos a quem celebra, produzir doces, flores ou presentes específicos para essa data. A resposta do Comitê Permanente deixa claro que todas essas formas de cooperação são proibidas, porque entram na categoria de “ajuda no pecado e na transgressão”. O Alcorão estabelece o princípio geral:

“E ajudai-vos mutuamente na virtude e na piedade, e não vos ajudeis mutuamente no pecado e na agressão. E temei a Allah. Por certo, Allah é severíssimo no castigo.” (Surah Al‑Ma’idah, versículo 2) (5:2)

Os exegetas explicam que essa ordem de cooperar apenas no bem e nunca no pecado é ampla: abrange todas as situações em que o auxílio de uma pessoa contribui para que outra cometa algo ilícito. Vender rosas e cartões especificamente voltados à celebração do Dia dos Namorados, preparar doces em formato de coração para essa data, decorar lojas com símbolos do “Eid al‑Hubb” ou fazer promoções especiais nessa ocasião são formas de dar suporte prático a uma festa que o Islam não aprova. Mesmo que o vendedor pessoalmente não celebre, seu comércio se torna um meio pelo qual o haram se espalha.

Por isso, os estudiosos afirmam que é proibido ao muçulmano assistir, apoiar ou lucrar com o Dia dos Namorados, seja através de comida e bebida, venda e compra, produção, doação de presentes, mensagens, publicidade ou qualquer outra forma de participação. Tudo isso se enquadra no versículo acima como “ajudar no pecado e na agressão”, e o crente é chamado a temer Allah e afastar-se dessa cooperação, mesmo que vá contra modas sociais ou pressões comerciais.


Distinção do muçulmano e busca de firmeza

Diante da pressão global para adotar festivais alheios, a orientação final da fatwa é que o muçulmano se agarre com firmeza ao Qur’an e à Sunnah em todas as situações, sobretudo em tempos de fitnah e corrupção moral. Artigos clássicos e contemporâneos lembram que os judeus são descritos como aqueles com quem Allah Se indignou, e os cristãos como aqueles que se desviaram, e o muçulmano não deve seguir suas trilhas de distorção naquilo que Allah não legislou. O crente precisa estar atento para não se deixar arrastar por costumes de pessoas que não temem o castigo de Allah nem aguardam Sua recompensa, e que, muitas vezes, não dão qualquer importância aos limites do Islam.

Ao invés de procurar no Dia dos Namorados uma ocasião para expressar afeto, o muçulmano é convidado a honrar as formas lícitas e belas de amor determinadas pela Shari‘ah: fortalecer o vínculo com o cônjuge dentro do casamento, tratar com carinho os pais, filhos e parentes, cultivar irmandade sincera pela causa de Allah. Essas expressões de afeto não precisam de um calendário estrangeiro; podem e devem ser vividas o ano inteiro, especialmente em dias de Eid lícitos e em outros momentos que não estejam atrelados a festivais não islâmicos.

Por fim, a resposta orienta o crente a fugir para Allah, buscando Sua orientação (hidayah) e firmeza (thabat) sobre o caminho reto. Em um mundo saturado de datas, campanhas e modas, manter a identidade islâmica exige coragem, conhecimento e súplica constante. Não há Guia além de Allah, nem quem conceda firmeza senão Ele. Assim, ao rejeitar o “Dia dos Namorados” por amor à obediência, o muçulmano não está sendo “contra o amor”, mas sim protegendo seu coração e sua fé, e buscando que seus sentimentos e celebrações sejam purificados e elevados, conforme a revelação.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução dos significados para o português por Helmi Nasr.
  • Hadith de Anas ibn Malik, em Sunan an‑Nasa’i e outros, sobre os dois dias de diversão na Jahiliyyah substituídos por Eid al‑Fitr e Eid al‑Adha; e hadith de ‘Aisha em at‑Tirmidhi: “Eid al‑Fitr é o dia em que as pessoas rompem o jejum, e Eid al‑Adha é o dia em que as pessoas oferecem o sacrifício.”
  • Hadith “Quem quer que imite um povo é um deles”, relatado por Abu Dawud e Ahmad, classificado como hasan, usado por Ibn Taymiyyah e outros para demonstrar a gravidade de imitar práticas distintivas dos descrentes, incluindo seus festivais.
  • Artigos e fatawa sobre o Dia dos Namorados, como os de IslamQA, IslamWeb e o livreto “The Islamic Legal Ruling Concerning Valentine’s Day (Eid al‑Hubb)”, que reúnem as posições do Comitê Permanente e de outros sábios quanto à proibição de celebrar, felicitar, comprar, vender ou apoiar esse festival.
  • Textos sobre a distinção dos Eids islâmicos, como “Muslims are Distinguished by their Festivals”.

Leia mais em Festividades e Meses Sagrados

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