Dhul Kifl علیه السلام

Dhul Kifl علیه السلام

Introdução: quem é Dhul Kifl no Islam?

Dhul Kifl, que a paz esteja sobre ele, é uma das figuras brevemente mencionadas no Alcorão, mas cuja história carrega lições profundas sobre paciência, autocontrole e compromisso com a obediência a Allah. Diferente de profetas como Mussa ou Ibrahim, cuja biografia ocupa muitos versículos, o Profeta Dhul Kifl aparece em poucas passagens, porém sempre associado a qualidades nobres, como perseverança e retidão. Isso faz com que muitos estudiosos o incluam entre os profetas, enquanto outros o consideram um servo extremamente piedoso, elevado a uma posição especial.

O nome “Dhul Kifl” pode ser traduzido como “o possuidor da porção” ou “o homem da dupla porção”, expressão que alguns estudiosos entendem como alguém a quem Allah concedeu dupla recompensa por sua paciência e pela fidelidade aos compromissos que assumiu.

A história de Dhul Kifl, preservada em relatos de estudiosos clássicos e especialmente associada às narrações de Imam Ibn Jarir e Ibn Kathir, gira em torno de um teste rigoroso: jejuar constantemente, passar as noites em oração e não perder a paciência diante das provocações. Para o muçulmano contemporâneo, a história do Profeta Dhul Kifl é um lembrete poderoso de que o verdadeiro sucesso está em controlar o próprio ego, ser firme no bem e não se desviar, mesmo quando o shaitan tenta nos abalar.


Quem foi Dhul Kifl segundo os estudiosos

Imam Ibn Jarir faz um relato de Dhul Kifl que fornece algumas dicas sobre a vida deste Profeta: quando Al-Yassa’ (Eliseu) envelheceu, ele buscava um sucessor que pudesse ajudar a guiar os israelitas e precisava de alguém com comportamento calmo e mente clara.

Nesse contexto, muitos estudiosos explicam que Dhul Kifl era um dos Filhos de Israel, vindo após uma longa sequência de profetas que foram enviados para corrigir os desvios do povo e reconduzi-los ao monoteísmo puro. Sua história se encaixa na fase em que a liderança religiosa e moral precisava ser renovada para manter vivo o legado da Torá revelada a Mussa, que a paz esteja sobre ele.

Embora o Alcorão não descreva detalhadamente sua biografia, ele o menciona ao lado de outros profetas, o que levou boa parte dos exegetas a considerá-lo profeta também. Allah diz:

“E lembra-te de Ismael, Idris e Dhu-l-Kifl; todos foram perseverantes. E Nós os fizemos entrar em Nossa misericórdia. Em verdade, estavam entre os justos.” (Alcorão 21, 85-86)

A menção de Dhul Kifl junto de Ismael e Idris, que são profetas reconhecidos, e a descrição “todos foram perseverantes” reforçam o entendimento de que, mesmo que os detalhes de sua missão não tenham sido amplamente narrados, seu status diante de Allah é elevado.

Ibn Kathir comenta que o fato de ser citado com esse grupo indica, no mínimo, que ele foi um servo exemplar, conhecido por sua paciência, justiça e devoção. Essa combinação de silêncio sobre detalhes e elogio sobre seu caráter abre espaço para que o foco do texto islâmico recaia mais sobre as lições morais do que sobre dados biográficos.


O contexto: a busca por um sucessor justo

Quando Al-Yassa’ (Eliseu) envelheceu, ele buscava um sucessor que pudesse ajudar a guiar os israelitas e precisava de alguém com comportamento calmo e mente clara. Ele reuniu um grupo de companheiros e estabeleceu três condições que acreditava serem requisitos de grande líder: “a pessoa que será considerada minha substituta é aquela que jejua o ano todo durante o dia, lembra-se de Allah em oração durante a noite e nunca perde a paciência.”

Essa cena, relatada por estudiosos como Ibn Jarir, mostra que a liderança entre os Filhos de Israel não era vista apenas como um cargo político, mas, antes de tudo, como uma responsabilidade espiritual, baseada em adoração, autocontrole e firmeza de caráter.

A escolha dessas três condições não foi aleatória. Jejuar durante o dia treina a disciplina, rompe a dependência exagerada dos prazeres materiais e faz o coração lembrar constantemente de Allah. Passar as noites em oração, lembrando-se de Allah, fortalece a sinceridade e a conexão com o Criador, mantendo o líder humilde e consciente de sua fragilidade.

Já a condição de “nunca perder a paciência” é essencial para quem lidará com injustiças, reclamações, conflitos e provações contínuas. Um líder que se irrita rapidamente, que responde com dureza ou que perde o controle diante da provocação, dificilmente conseguirá ser justo. Ao apresentar esses três critérios, Al-Yassa’ definiu o perfil de alguém que não apenas conhece a verdade, mas vive de acordo com ela, sendo exemplo para o povo.


O homem desconhecido que se ofereceu: o início de Dhul Kifl

Uma pessoa relativamente desconhecida, desprezada pelo povo, se levantou e se ofereceu ao cargo. O Profeta Yassa’ perguntou a ele se essas três condições haviam sido atendidas. O homem respondeu sim a todas três, mas por alguma razão Yassa’ não acreditou em sua afirmação e o rejeitou.

Esse detalhe é muito significativo: o candidato não era alguém famoso, de linhagem destacada, nem conhecido por possuir grande influência. Era alguém que, aos olhos do povo, parecia “qualquer um”, e é justamente a partir daí que aprendemos que Allah frequentemente eleva aqueles que são humildes e pouco considerados pelas pessoas, mas grandes em sinceridade.

Depois de mais alguns dias, Yassa’ reuniu o grupo novamente e enumerou as mesmas condições. Todos permaneceram sentados, além do mesmo homem. Yassa’, vendo sua persistência, nomeou o homem para servir como seu vice. Nesse ponto, muitos exegetas entendem que esse homem era Dhul Kifl, e que o seu nome passou a estar associado a essa dupla porção de responsabilidade e recompensa: ele assumiu a promessa de jejuar, de vigiar a noite em adoração e de conter a própria ira, e Allah o auxiliou para cumprir seu compromisso. A história lembra a lógica geral do Alcorão, que declara:

“A bondade não está em voltardes as faces para o Levante e para o Poente; mas a bondade é a de quem crê em Allah, e no Derradeiro Dia, e nos anjos, e no Livro, e nos profetas; e a de quem concede a riqueza, embora a ela apegado, aos parentes, e aos órfãos, e aos necessitados, e ao filho do caminho, e aos mendigos, e aos escravos; e a de quem cumpre a oração e concede az-zakah; e a dos que são fiéis a seu pacto, quando o pactuam; e a dos que são perseverantes na adversidade e no infortúnio e em tempo de guerra. Esses são os que são verídicos e esses são os piedosos.” (Alcorão 2, 177)

Essa descrição de “bondade” se encaixa perfeitamente em Dhul Kifl: fé correta, cumprimento de pactos, generosidade, perseverança nas provas. A história mostra que Allah escolhe, para liderar, aqueles que se responsabilizam por si mesmos antes de se responsabilizarem pelos outros.


O teste de Dhul Kifl: jejum, oração e paciência

Mas, para testar verdadeiramente a disposição daquele homem, Al-Yassa’ pediu a algumas pessoas que tentassem persuadi-lo a fazer algo que resultaria na destituição de seu cargo de vice. Todos tentaram e todos falharam. Esse detalhe reforça que a paciência de Dhul Kifl não era artificial; não se tratava de alguém que aparentava tranquilidade apenas quando tudo corria bem, mas de um servo que se mantinha firme mesmo quando provocado de maneira planejada. Ele guardava o jejum, não negligenciava a oração da noite e não permitia que provocações o tirassem da obediência a Allah.

O nome Dhul Kifl, entendido como “o possuidor da porção” ou “aquele que assume um compromisso”, foi associado por alguns estudiosos ao fato de ele ter assumido uma “cota dupla” de responsabilidade: comprometeu-se com aquilo que a maioria das pessoas não consegue sustentar por muito tempo.

Em um hadith relatado por at-Tirmidhi, classificado como hasan por alguns estudiosos, é mencionada a história de um homem chamado Dhul Kifl, que assumiu sobre si uma garantia especial e foi preservado por Allah em sua promessa. Ainda que os detalhes das cadeias de transmissão sejam discutidos, o sentido geral é coerente com a imagem que o Alcorão transmite: um servo perseverante que cumpre sua palavra. A perseverança de Dhul Kifl se torna, assim, um modelo de constância para o muçulmano que deseja manter boas obras sem se deixar abalar pelos testes da vida.


Dhul Kifl e Iblis: a trama para quebrar a paciência

Então Iblis (Satanás) ofereceu seus serviços a Al-Yassa’: “Deixe-o comigo. Eu cuidarei dele.” A partir desse momento, a narrativa tradicional descreve como o shaitan tentou, por diversos meios, abalar o compromisso de Dhul Kifl. O homem tinha uma rotina que envolvia jejuar durante o dia e oferecer orações lembrando-se de Allah durante a noite. À tarde, tirava um cochilo para descansar. Essa pequena soneca era o momento em que seu corpo se recuperava para sustentar, com equilíbrio, o ritmo intenso de adoração e responsabilidades. Iblis decidiu perturbar o homem logo antes de seu cochilo à tarde, batendo na porta e implorando para entrar, dizendo: “Eu sou um velho torturado.”

Dhul Kifl recebeu aquele “velho” em sua casa e o deixou falar. Iblis começou a divagar sobre a crueldade e a injustiça que sofria. Ele esticou tanto a história que não sobrou tempo para a soneca diária do homem. Dhul Kifl, no entanto, continuou calmo. Não o expulsou, não o humilhou, não disse uma palavra rude. O homem ofereceu a Iblis que o visitasse na corte (tribunal) no dia seguinte, para que a justiça fosse feita. A ideia era transferir o caso para o cenário adequado, de forma organizada, sem prejudicar o equilíbrio da rotina de adoração.

O que vemos aqui é a união de misericórdia, justiça e gestão do tempo: Dhul Kifl não ignorou o sofrimento alegado, mas também não deixou que aquilo destruísse seu hábito de descanso, fundamental para permanecer firme na obediência.


O plano insistente de Iblis e a firmeza de Dhul Kifl

O homem esperou por Iblis no dia seguinte, mas ele não apareceu. Na próxima manhã, ele esperou que Iblis voltasse, mas não voltou. Finalmente, à tarde, logo antes de o homem tirar sua soneca, Iblis veio e bateu na porta. O homem, ainda calmo, questionou-o: “Eu não disse para você vir ao meu tribunal ontem, mas você não apareceu, nem veio esta manhã?”

Iblis respondeu: “Senhor, meus inimigos são pessoas muito perversas; quando souberam que você estava sentado em seu tribunal e os forçaria a me devolver o que era devido, eles concordaram em resolver a questão fora do tribunal. Mas, assim que você deixou a corte, eles voltaram atrás na promessa.” Assim, a conversa continuou por um longo tempo, e novamente Dhul Kifl perdeu sua soneca habitual.

Mais uma vez, o homem propôs que o suposto oprimido fosse à corte, onde a justiça poderia ser feita diante de testemunhas. E, mais uma vez, Iblis não apareceu nos horários combinados. Quando voltou para casa naquele dia, Dhul Kifl sentia-se muito cansado por causa da falta de sono. Pediu aos familiares que não deixassem ninguém bater à porta. Ainda assim, Iblis, determinado a abalar a sua paciência, forçou outro caminho para a casa do homem e começou a bater na porta de seu quarto.

O objetivo era claro: fazê-lo explodir de raiva, abandonar o compromisso de não se irritar, negligenciar os atos de adoração por fadiga e, assim, desqualificá-lo das qualidades que o haviam tornado vice de Al-Yassa.


O desmascaramento de Iblis e o título “Dhul Kifl”

O homem viu que Iblis entrou na casa enquanto a porta estava fechada. Então, de repente, percebeu que o homem diante dele era Iblis e perguntou-lhe: “Você é o inimigo de Allah?” Ele admitiu que era Iblis e comentou: “Você frustrou todos os meus planos e frustrou todos os meus esforços para seduzi-lo em meu projeto. Minha intenção era deixá-lo com raiva de alguma forma, para que uma de suas reivindicações perante Yassa pudesse ser provada como falsa.”

A admissão de Iblis é, por si só, uma confirmação da firmeza de Dhul Kifl. Ele não apenas manteve o jejum e a oração, mas, sobretudo, preservou a paciência e o autocontrole, mesmo diante do cansaço físico e da irritação que qualquer outro sentiria.

Foi por causa desse episódio que este homem recebeu o título de Dhul Kifl, um título que significa “possuidor de (ou dando) uma dupla retribuição ou porção”. Segundo alguns exegetas, ele obteve “dupla porção” de recompensa por unir, em um só comportamento, três dimensões difíceis: adoração constante, serviço ao povo e controle da ira. Outros sugerem que “kifl” está ligado ao compromisso assumido e cumprido.

De qualquer modo, o sentido central permanece: Dhul Kifl é o homem que assumiu uma responsabilidade pesada na obediência a Allah e não falhou. A menção elogiosa no Alcorão confirma isso, pois Allah diz sobre ele, em outra passagem, ao lado de outros servos especiais:

“E menciona Ismael e Al-Yassa e Dhu-l-Kifl. E todos eles estão entre os melhores.” (Alcorão 38, 48)

Ao descrevê-lo como “entre os melhores”, o Alcorão reforça que o valor de Dhul Kifl não está em milagres espetaculares, mas na excelência de seu caráter.


As lições espirituais da história de Dhul Kifl

A história do Profeta Dhul Kifl oferece múltiplas lições para o muçulmano de hoje. Em primeiro lugar, ela mostra que a liderança, na perspectiva islâmica, está profundamente ligada à ibadah e ao controle do ego. Não se trata apenas de saber, mas de viver aquilo que se sabe. Jejuar, rezar à noite e conter a ira são atos que, juntos, moldam um coração humilde, atento e justo.

Em segundo lugar, a narrativa nos ensina que o shaitan trabalha de maneira sutil, usando até pretextos aparentemente nobres – como o relato de injustiças – para desorganizar a vida de adoração do servo. A resposta do crente deve ser, como a de Dhul Kifl, equilibrar misericórdia pelas pessoas com firmeza em seus compromissos com Allah.

Além disso, Dhul Kifl nos mostra que a paciência não é apenas suportar a dor em silêncio, mas manter-se constante na obediência mesmo quando o corpo está cansado e a alma está sob pressão. O Alcorão elogia a perseverança repetidas vezes, e a vida de Dhul Kifl é um exemplo concreto disso. Os servos verdadeiramente piedosos são aqueles que se mantêm firmes “na adversidade e no infortúnio e em tempo de guerra”, como descreve o versículo já citado.

A história também corrige uma visão limitada de sucesso: não é necessário ser um personagem “famoso” e cheio de feitos visíveis para ser grande aos olhos de Allah. Pode-se ser, como esse homem inicialmente desconhecido, alguém firme nos compromissos escondidos, mas imenso diante do Senhor dos Mundos.


Dhul Kifl no Alcorão e nas opiniões dos estudiosos

Como vimos, o Profeta Dhul Kifl é mencionado explicitamente em duas passagens do Alcorão. Em ambas, o foco está em suas qualidades morais, não em relatos de milagres ou conquistas políticas. Em Al-Anbiya, ele é associado à perseverança e à misericórdia de Allah; em Sad, está incluído entre “os melhores”. Os estudiosos discutem se Dhul Kifl foi profeta ou apenas um servo extremamente justo. Ibn Kathir inclina-se à opinião de que ele foi profeta, justamente porque o contexto dos versículos o coloca ao lado de outros profetas conhecidos, e porque o Alcorão costuma citar os profetas em listas específicas, distinguindo-os dos demais.

Outros estudiosos, como alguns mencionados em compêndios de tafsir, sugerem que Dhul Kifl pode ter sido um homem justo que assumiu sobre si o compromisso de julgar entre as pessoas com justiça, sem se irritar nem negligenciar a adoração, e que, por isso, recebeu esse título especial. Ambas as opiniões, no entanto, concordam em algo fundamental: Dhul Kifl é um modelo de sabr e de fidelidade aos compromissos assumidos por Allah. Em qualquer dos dois entendimentos, o muçulmano é convidado a olhar para ele como alguém que encarnou, de forma exemplar, o ideal de bondade descrito pelo Alcorão: fé, boas obras, cumprimento de pactos e perseverança nas provas.


Seguir o exemplo de Dhul Kifl hoje

A história de Dhul Kifl, ainda que curta nas fontes, é rica em significado. Ela nos apresenta um homem que, em meio a um povo em crise, aceitou uma responsabilidade extremamente pesada: jejuar continuamente, vigiar grande parte da noite em oração e nunca perder a paciência. Ele foi testado não apenas por pessoas comuns, mas pelo próprio Iblis, que tentou exaustivamente provocar sua ira e quebrar seus compromissos. Ainda assim, o Profeta Dhul Kifl permaneceu firme. Por isso, foi elogiado por Allah como perseverante, justo e entre os melhores servos.

Para o muçulmano contemporâneo, o exemplo de Dhul Kifl é um convite a colocar a paciência no centro da vida espiritual. Em um mundo marcado por pressa, irritação e impaciência, a história desse profeta nos lembra que a verdadeira grandeza está em cumprir o que prometemos a Allah, organizar nossa rotina de forma que a adoração tenha prioridade e não ceder às provocações do shaitan. Ao estudar o Profeta Dhul Kifl, que a paz esteja sobre ele, aprendemos que mesmo um servo inicialmente desconhecido pode ser elevado por Allah a uma posição de honra eterna, desde que se mantenha firme na fé, na justiça e na paciência.


Referências

  1. Alcorão Sagrado. Tradução dos significados para o português por Helmi Nasr.
  2. Ibn Kathir. História dos Profetas (Al-Bidaya wa-n-Nihaya / Qasas al-Anbiya’), diversas edições em árabe, inglês e português.
  3. At-Tabari (Imam Ibn Jarir). Tafsir at-Tabari – comentários sobre as passagens de Dhul Kifl em Al-Anbiya e Sad.
  4. Hadith de Dhul Kifl. Sunan at-Tirmidhi e outras coleções, narrativas classificadas como hasan por alguns estudiosos, acessíveis em bases como sunnah.com.
  5. Artigos de biografia profética em sites de da’wah, como islamreligion.com, sobre os Profetas dos Filhos de Israel e as virtudes da paciência.

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