Ciência da Aritmética e da Astronomia

Ciência da Aritmética e da Astronomia

Introdução: Din, ciência e aparente contradição

A questão da ciência da aritmética e da astronomia no Islam surge sempre que algum texto revelado parece, à primeira vista, entrar em choque com descobertas científicas. No exemplo citado, o muçulmano aprende, a partir do Din, que as estrelas foram criadas com três finalidades principais: embelezar o céu, servir como mísseis contra os demônios e funcionar como sinais de orientação.

Ao mesmo tempo, nos livros de geografia e astronomia lê que as estrelas são enormes corpos celestes, com massas, temperaturas e órbitas próprias, e que aquilo que se vê riscando o céu noturno são meteoros ou “estrelas cadentes” queimando ao entrar na atmosfera. A dúvida surge: como conciliar essas descrições? Há, de fato, contradição entre ciência da aritmética e da astronomia moderna e o que o Qur’an e a Sunnah afirmam sobre os astros, ou o problema está na forma como entendemos os textos?

O Comitê Permanente de Pesquisa Acadêmica e Emissão de Fatwas (al-Lajnah ad-Dâ’imah) respondeu a essa e a outras questões semelhantes lembrando um princípio básico: Allah é O Onisciente e O Sapientíssimo, Criador dos céus e da terra, Aquele que revelou o Alcorão e legislou a Shariah. Sendo Ele quem criou e quem revelou, não pode haver oposição real entre o que Ele nos informa nos textos e o que Ele criou no universo.

Se, em algum momento, nos parece haver choque entre Din e ciência, isso se deve a uma de duas coisas: ou a ciência em questão ainda é incompleta ou mal compreendida, ou nossa leitura dos textos revelados é superficial, deficiente em língua árabe ou em metodologia de tafsir.


Textos do Qur’an sobre as estrelas e seus propósitos

Quando se fala em ciência da aritmética e da astronomia no Islam, é fundamental começar pelos versículos que tratam explicitamente das estrelas. Allah menciona, em vários lugares, propósitos claros para os astros que vemos no céu mais próximo. Em Surah As-Saffat, por exemplo, lemos:

“Por certo, Nós ornamentamos o céu mais próximo, com um ornamento: os astros, e para custodiá-lo, contra todo demônio rebelde. Eles não podem ouvir a corte altíssima, e são arrojados, por todos os lados, rechaçados. E terão castigo perpétuo. Exceto quem arrebatar algo: então, persegui-lo-á uma bólide perfurante.” (Surah As-Saffat, versículos 6–10) (37:6–10)

Em outro versículo, Allah diz:

“E, com efeito, aformoseamos o céu mais próximo com lâmpadas, e delas fizemos mísseis contra os demônios. E preparamos-lhes o castigo do Fogo ardente.” (Surah Al-Mulk, versículo 5) (67:5)

E ainda:

“E, com efeito, fizemos, no céu, constelações, e aformoseamo-lo, para os olhadores. E custodiamo-lo, contra todo demônio maldito. Mas a quem tenta ouvir, às ocultas, então, uma evidente bólide persegue-o.” (Surah Al-Hijr, versículos 16–18) (15:16–18)

Além disso, Allah recorda que as estrelas foram criadas para orientação:

“E Ele é Quem vos fez as estrelas, para que vos guieis, por elas, nas trevas da terra e do mar. Com efeito, aclaramos os sinais a um povo que sabe.” (Surah Al-An’am, versículo 97) (6:97)

E também:

“E pontos de referência. E, com as estrelas, eles, os homens, se guiam.” (Surah An-Nahl, versículo 16) (16:16)

Esses textos, tomados em conjunto, mencionam três benefícios principais: embelezamento do céu visível, proteção contra os demônios por meio de bólides ou meteoros lançados contra quem tenta espionar o Alto Conselho, e função de orientação para os viajantes em terra e no mar. A Sunnah autêntica traz hadiths em harmonia com esses significados, descrevendo como certos jinn que tentam furtar parte das notícias do mundo superior são perseguidos por chamas brilhantes. Isso faz parte do invisível (al-ghayb), ao qual o crente tem acesso apenas pela revelação.


Benefícios revelados não excluem outros efeitos físicos

Um dos pontos centrais da resposta do Comitê é que nada nesses versículos limita os benefícios das estrelas exclusivamente às três funções mencionadas. Em outras palavras, o Alcorão nos informa sobre certos propósitos espirituais e práticos – beleza do céu, proteção, orientação – mas não afirma que essas sejam as únicas propriedades ou funções dos astros. A língua árabe dispõe de expressões específicas para exclusão e confinamento de sentido; o estilo dos versículos citados, porém, é descritivo, não restritivo. Quem estuda a retórica árabe sabe distinguir entre um texto que diz “apenas isso” e outro que diz “isso, entre outras coisas”.

Da mesma forma, quando os textos falam em “bólide perfurante” perseguindo demônios, não dizem que todo meteoro ou todo fenômeno luminoso que vemos é necessariamente, em cada caso, um ataque a jinn. O Qur’an menciona o princípio: Allah fez, de certos corpos celestes e meteoros, mísseis contra demônios; não detalha todos os fenômenos possíveis no céu nem classifica cada rastro luminoso visível para nós.

Isso significa que é perfeitamente possível que haja meteoros resultantes de leis físicas conhecidas – fragmentos de rocha entrando na atmosfera, aquecendo-se por atrito e produzindo luz – e que, ao mesmo tempo, Allah use parte desse mesmo sistema, ou fenômenos de natureza semelhante, como instrumentos para repelir demônios que tentam subir aos céus. Não há, portanto, choque necessário entre o aspecto físico e o aspecto invisível da questão.

Assim, a ciência da aritmética e da astronomia pode descrever massas, órbitas, temperaturas, composição química e dinâmica dos corpos celestes, sem que isso negue o que o Qur’an ensina sobre significados e funções espirituais. Quando um texto revelado informa que algo foi criado “para” certo fim, isso não exclui que tenha outros efeitos, conhecidos ou desconhecidos.

Allah é O Onisciente, que “abarcou todas as coisas em número” e conhece cada detalhe da criação. Se Ele escolhe mencionar, em Seu Livro, apenas alguns aspectos dos astros, é porque eles são os mais relevantes para a guia da humanidade, não porque os demais não existam.


Meteoros, “estrelas cadentes” e limites da informação científica

Outro ponto abordado na fatwa é a distinção entre aquilo que os geógrafos e astrônomos chamam de “estrelas cadentes” e o que os textos chamam de “bólides” usados contra os demônios. A ciência observa que muitos dos riscos luminosos que vemos no céu são pequenos fragmentos rochosos – meteoróides – que, ao entrar na atmosfera da Terra a alta velocidade, aquecem-se e produzem uma trilha de luz, sendo chamados vulgarmente de meteoros ou “estrelas cadentes”. Alguns alcançam o solo e passam a ser designados meteoritos; outros se desintegram no ar. Esse processo é explicado por leis físicas de gravidade, atrito, calor e luminosidade.

A Shariah, por sua vez, informa que certos “bólides evidentes” perseguem demônios que tentam ouvir, às ocultas, o que se passa na corte celestial. Nada, porém, obriga a concluir que cada meteoro que vemos seja, necessariamente, um desses bólides destinados a jinn. Ao mesmo tempo, nada impede que alguns fenômenos luminosos – visíveis ou não a olho nu – sejam, de fato, manifestações desse “apedrejamento” espiritual.

A ciência, por sua metodologia, limita-se a descrever o observável e o mensurável; ela não tem ferramentas para afirmar o que Allah faz ou deixa de fazer com esses fenômenos no plano invisível. Quando um cientista descreve a queda de um meteoro em termos de massa, velocidade e temperatura, está apenas tratando da “casca” física do evento, não da sua dimensão espiritual.

O Comitê Permanente ressalta ainda que mesmo certas “estrelas cadentes” de que fala o questionador podem, em parte, envolver equívocos de terminologia. Algumas formações rochosas que chegam ao solo não se queimam totalmente, não se transformam em cinzas, e são estudadas como meteoritos sólidos. Isso mostra que as simplificações comuns em livros escolares nem sempre captam toda a complexidade da astronomia real.

Por isso o parecer adverte: antes de afirmar que há oposição entre o que se lê em ciências e o que a Shariah ensina, a pessoa deve certificar-se de ter entendido corretamente ambas as áreas. Muitas contradições aparentes desaparecem quando se aprofunda um pouco mais o estudo.


Princípio geral: nenhuma contradição entre criação e revelação

A mensagem central da fatwa sobre ciência da aritmética e da astronomia é um princípio que se aplica a todas as ciências: não existe contradição verdadeira entre o que Allah revelou em Seu Livro e na Sunnah autêntica e o que Ele criou e submeteu a leis no universo. Se algo nos parece contraditório, a falha está na compreensão humana. Pode ser que a suposta “ciência” seja, na verdade, uma teoria frágil ou uma interpretação ideológica dos dados, e não um fato estabelecido. Pode ser que nosso entendimento dos textos revelados esteja incompleto, por falta de domínio do árabe, de usul at-tafsir ou de conhecimento do contexto. Em ambos os casos, o remédio é buscar mais saber, com humildade.

Allah diz, em muitos versículos, que Seus sinais estão tanto no Livro recitado quanto no horizonte e em nós mesmos. O mesmo Senhor que declarou: “Por certo, Nós ornamentamos o céu mais próximo, com um ornamento: os astros, e para custodiá-lo, contra todo demônio rebelde.” (37:6–7), também incentivou a observação do céu, da sucessão da noite e do dia, dos ciclos lunares, do movimento dos astros e da alternância das estações, para que as pessoas reconheçam Sua grandeza. A história islâmica mostra que grandes sábios dominaram a ciência da aritmética e da astronomia sem ver aí oposição ao Qur’an; pelo contrário, muitos deles consideravam seus estudos um meio de melhor compreender a ordem criada por Allah.

Por isso, o parecer conclui lembrando que o muçulmano deve se avaliar corretamente e evitar mergulhar em questões acima de seu nível, sem base sólida. Falar de mecânica celeste, gravitação e física de meteoros exige preparo técnico; falar de tafsir, ‘aqidah e limites do invisível exige estudo sério das ciências islâmicas. Quem tenta julgar um campo complexo com conhecimento superficial tanto de religião quanto de ciência acaba caindo em contradições e dúvidas desnecessárias.

O caminho correto é buscar o conhecimento com especialistas de confiança em cada área, mantendo sempre a certeza de que o Qur’an e a Sunnah são verdade absoluta, e que as ciências, quando corretamente compreendidas, apenas confirmam, em seu campo limitado, a sabedoria do Criador.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução para o português por Helmi Nasr.
  • Surah As-Saffat 37:6–10; Surah Al-Mulk 67:5; Surah Al-Hijr 15:16–18; Surah Al-An’am 6:97; Surah An-Nahl 16:16, e outros versículos relacionados aos astros e à orientação.
  • Fatwas do Comitê Permanente de Pesquisa Acadêmica e Ifta’ (Lajnah ad-Dâ’imah) sobre ciência, estrelas, meteoros e reconciliação entre Shariah e fatos científicos.
  • Obras de tafsir clássicas (como Tafsir Ibn Kathir e Tafsir At-Tabari) sobre os versículos referentes às estrelas como ornamento, mísseis e guias.
  • Livros de ‘aqidah e usul at-tafsir explicando o princípio da inexistência de contradição entre revelação autêntica e realidade correta observada.
  • Estudos introdutórios sobre a astronomia islâmica e contribuições de sábios muçulmanos às ciências matemáticas e astronômicas, mostrando a compatibilidade entre fé e investigação científica.

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