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Introdução: o mais nobre dia do ano
O nono dia de Dhul-Hijjah, conhecido como o dia de ‘Arafah, ocupa uma posição singular no calendário islâmico. Nele, peregrinos de todos os cantos do mundo convergem para a planície de ‘Arafah, a fim de suplicar a Allah, renovar sua fé e aguardar o perdão divino em um dos momentos mais sublimes da vida religiosa islâmica. Mas as virtudes desse dia não pertencem apenas a quem está fisicamente naquele lugar sagrado: muitos de seus benefícios estendem-se a toda a Ummah, esteja ela na planície de ‘Arafah ou a milhares de quilômetros de distância.
Compreender as virtudes do dia de ‘Arafah é uma obrigação de conhecimento para todo muçulmano que deseja aproveitar plenamente os dons que Allah reservou para esse período. Seis virtudes principais foram destacadas pelos estudiosos com base em evidências textuais robustas do Alcorão e da Sunnah, e cada uma delas revela um aspecto diferente da grandeza desse dia extraordinário. A seguir, examinamos cada uma delas com base nas fontes islâmicas clássicas.
A religião completada em ‘Arafah
Entre todas as distinções do dia de ‘Arafah, a mais elevada é que nele Allah revelou ao Profeta Muhammad ﷺ o versículo que declarou o Islam completo e perfeito. Esse momento ocorreu durante a Peregrinação de Despedida, numa sexta-feira, enquanto o Profeta ﷺ estava parado na planície de ‘Arafah. Trata-se de um evento sem paralelo na história das revelações: a conclusão formal de uma religião enviada por Allah para toda a humanidade.
A história da revelação desse versículo foi preservada em Al-Sahihain (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim). Um judeu dirigiu-se a ‘Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, dizendo que havia um versículo no Alcorão que, se tivesse sido revelado a eles, teriam tomado aquele dia como festa. ‘Umar respondeu que os muçulmanos já sabiam em que dia e em que lugar esse versículo havia sido revelado: foi quando o Profeta ﷺ estava parado em ‘Arafah numa sexta-feira — e ambos eram ‘Eid para os muçulmanos. O versículo em questão é:
“É-vos proibido o animal encontrado morto e o sangue e a carne de porco e o que é imolado com a invocação de outro nome que o de Allah; e o animal estrangulado e o que é morto por espancamento e por queda e por chifradas e o que a fera devora, parcialmente — exceto se o imolais — e o que é imolado em nome dos ídolos; e é-vos proibido que adivinheis o destino por meio de varinhas da sorte. Isso é perversidade.
Hoje, os que renegam a Fé se desesperam de aniquilar vossa religião. Então, não os receeis, e receai-Me. Hoje eu completei vossa religião para vós e completei Minha graça para convosco e agradei-Me do Islam como religião para vós. Então, quem é impelido pela fome a alimentar-se do que é proibido, sem intuito de pecar, por certo, Allah é Perdoador, Misericordiador.” (Surah Al-Ma’idah, versículo 3) (5:3)
Os estudiosos de tafsir explicam que essa declaração — “Hoje eu completei vossa religião para vós” — representa o encerramento da revelação em seu aspecto legislativo mais essencial. Após esse versículo, nenhum novo preceito fundamental foi acrescentado ao Islam, o que confirma que a religião chegou à sua forma definitiva e perfeita naquele dia. Ibn Kathir, em seu Tafsir, comenta que esse versículo foi o último dos grandes versículos de legislação a ser revelado, e que o Profeta ﷺ viveu apenas cerca de oitenta dias após sua descida.
Um dia de ‘Eid para toda a Ummah
O dia de ‘Arafah é considerado pelos estudiosos um dia de ‘Eid, ou seja, uma celebração islâmica legítima. Isso foi explicitado pelo próprio Profeta Muhammad ﷺ e confirmado pelo entendimento de ‘Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele. Assim como o ‘Eid al-Fitr celebra o fim do Ramadan e o ‘Eid al-Adha celebra o sacrifício de Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, o dia de ‘Arafah possui o estatuto de festividade religiosa para a Ummah islâmica.
O Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme narrado pelos autores das coleções de Sunan:
“Yawm ‘Arafah (o dia de ‘Arafah), Yawm al-Nahr (o Dia do Sacrifício) e os dias de at-Tashriq (os três dias após Yawm al-Nahr) são ‘Eid para nós, o povo do Islam. Estes são dias de comer e beber.”
‘Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, comentou sobre o versículo “Hoje eu completei vossa religião para vós”: “Este foi revelado na sexta-feira, no Dia de ‘Arafah, e ambos — louvado seja Allah — são ‘Eids para nós.” Essa dupla distinção — a revelação do versículo da perfeição da religião em uma sexta-feira, que é ela própria o ‘Eid semanal dos muçulmanos — torna esse momento histórico de uma riqueza espiritual incomparável. Para os peregrinos que vivem o dia de ‘Arafah numa sexta-feira, a confluência de três ‘Eids simultâneos é considerada pelos estudiosos uma honra extraordinária.
O juramento de Allah por esse dia
Uma das provas mais eloquentes da grandeza do dia de ‘Arafah é que Allah, em Seu Livro, jurou por esse dia de maneiras distintas. O juramento divino no Alcorão é sempre por algo de elevado valor e significado perante Allah, e o dia de ‘Arafah recebeu esse honor em pelo menos dois lugares do Alcorão Sagrado.
O primeiro juramento está em Surah Al-Buruj, onde Allah declara:
“E por uma testemunha e um testemunhado!” (Surah Al-Buruj, versículo 3) (85:3)
Foi relatado de Abu Hurairah, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta Muhammad ﷺ disse, conforme narrado por al-Tirmidhi e classificado como sahih por al-Albani:
“O dia prometido é o Dia da Ressurreição; o dia testemunhado é o dia de ‘Arafah; e o dia testemunhador é a sexta-feira.”
O segundo juramento está em Surah Al-Fajr, onde Allah jura:
“Pelo par e pelo ímpar!” (Surah Al-Fajr, versículo 3) (89:3)
Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, interpretou esse versículo dizendo que o par é o Dia de al-Adha — o décimo de Dhul-Hijjah — e o ímpar é o Dia de ‘Arafah — o nono de Dhul-Hijjah. ‘Ikrimah e al-Dahhak concordaram com essa interpretação. O fato de Allah jurar por ‘Arafah de dois modos distintos, em duas suratas diferentes, é por si só uma demonstração da magnitude desse dia perante Seu Criador.
O jejum que expia dois anos
Para os muçulmanos que não estão realizando o Hajj, o dia de ‘Arafah representa uma oportunidade de expiação de pecados sem igual em qualquer outro dia do calendário islâmico. O Profeta Muhammad ﷺ estabeleceu que o jejum voluntário nesse dia carrega uma recompensa que nenhum outro jejum isolado pode igualar.
Abu Qatadah, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah ﷺ foi perguntado sobre o jejum no dia de ‘Arafah. Conforme narrado em Sahih Muslim (n.º 1162):
“Este expia os pecados do ano anterior e do ano seguinte.”
Imam al-Nawawi registrou esse hadith no Riyad al-Salihin, no capítulo intitulado “A Excelência de Cumprir o Saum no Dia de ‘Arafah, ‘Ashura e Tasu’a”, sublinhando que os estudiosos da Sunnah classificaram essa expiação como relativa aos pecados menores. A expiação dos pecados maiores requer o arrependimento sincero (tawbah), mas a dimensão da misericórdia envolvida em dois anos de pecados menores apagados por um único dia de jejum voluntário é um convite generoso que a Sunnah faz a todo crente que não está em ‘Arafah.
Imam at-Tirmidhi (m. 275 H), em seu Jami’, registrou que os eruditos da tradição islâmica consideram esse jejum altamente recomendável (mustahabb) para quem não está realizando o Hajj. Para os peregrinos que estão fisicamente em ‘Arafah, entretanto, não é sunnah jejuar naquele dia, porque o Profeta Muhammad ﷺ não jejuou durante sua Peregrinação de Despedida, e chegou a proibir esse jejum para os que estivessem em ‘Arafah, a fim de preservar a força necessária para as invocações e rituais do dia.
A aliança primordial dos filhos de Adão
Uma das dimensões mais profundas do dia de ‘Arafah é que, segundo a Sunnah, foi nessa terra sagrada — chamada de Na’maan — que Allah tomou de todos os descendentes de Adão, que a paz esteja sobre ele, a aliança primordial do reconhecimento de Sua senhoria. Esse evento, anterior à existência do mundo tal como o conhecemos, está registrado no Alcorão e é explicado em hadith relatado por Ibn ‘Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrado por Ahmad e classificado como sahih por al-Albani.
Os versículos que descrevem essa aliança são:
“E lembra-te, Muhammad, de quando teu Senhor tomou, dos filhos de Adão — do dorso deles — seus descendentes e fê-los testemunhas de si mesmos, dizendo-lhes: ‘Não sou vosso Senhor?’ Disseram: ‘Sim, testemunhamo-lo.’ Isso, para não dizerdes, no Dia da Ressurreição: ‘Por certo, a isto estávamos desatentos’.” (Surah Al-A’raf, versículo 172) (7:172)
“Ou, para não dizerdes: ‘Apenas, nossos pais idolatraram antes, e somos sua descendência, após eles. Tu nos aniquilas pelo que fizeram os defensores da falsidade?'” (Surah Al-A’raf, versículo 173) (7:173)
O fato de essa aliança ter sido tomada especificamente na terra de Na’maan — que é ‘Arafah — acrescenta uma dimensão espiritual única a esse local. Cada vez que um peregrino pisa em ‘Arafah, está pisando no lugar onde sua alma, antes mesmo de entrar no corpo, testemunhou a unicidade de Allah. Ibn Kathir, em seu Tafsir, explica que o propósito dessa aliança primordial é que ninguém poderá alegar, no Dia da Ressurreição, que desconhecia a existência de seu Senhor: a fitra — a natureza humana inata — é o reflexo permanente dessa aliança.
O dia do perdão, da libertação e do orgulho divino
A sexta e mais conhecida virtude do dia de ‘Arafah é aquela que diz respeito diretamente ao destino dos servos de Allah: é o dia em que mais pessoas são libertadas do Fogo do Inferno em toda a história. Esse dado, transmitido com autoridade, revela a magnitude da misericórdia divina nesse dia e é a base principal para que os muçulmanos intensifiquem a du’a, o istighfar e a busca de proximidade a Allah tanto em ‘Arafah quanto em suas casas ao redor do mundo.
Em Sahih Muslim foi narrado de ‘Aishah, que Allah esteja satisfeita com ela, que o Profeta Muhammad ﷺ disse:
“Não há dia em que Allah liberta mais os Seus servos do Fogo do que no dia de ‘Arafah. Ele aproxima-Se e, em seguida, Se revela perante os Seus anjos dizendo: ‘O que estas pessoas querem?'”
Esse momento de orgulho divino pelos peregrinos reunidos em ‘Arafah é descrito com ainda mais detalhe no hadith de Ibn ‘Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, narrado por Ahmad e classificado como sahih por al-Albani:
“Allah expressa Seu orgulho para os Seus anjos no momento da ‘Isha no Dia de ‘Arafah, sobre as pessoas de ‘Arafah. Ele diz: ‘Observem os Meus servos que vieram despenteados e sujos’.”
Essa imagem do crente que chegou a ‘Arafah humilde, despojado, com cabelos despenteados e roupas simples, e pelo qual Allah expressa orgulho diante dos anjos, é uma das mais tocantes de toda a literatura hadithica. Ela transmite a mensagem de que o que vale diante de Allah não é a aparência exterior nem a riqueza material, mas a sinceridade da presença, a humildade do coração e a busca genuína de Seu perdão.
Para os que não estão em ‘Arafah, os estudiosos orientam que o dia de ‘Arafah seja vivido com jejum, du’a abundante, dhikr contínuo, arrependimento sincero e intensificação das boas obras. A misericórdia de Allah nesse dia não é geograficamente limitada: quem estiver em casa e passar o dia em obediência a Allah pode esperar colher parte das bênçãos que esse dia carrega, mesmo à distância da planície sagrada.
Referências
- Alcorão Sagrado, tradução dos significados para o português por Helmi Nasr.
- Sunnah.com
- Ibn Kathir, Tafsir al-Qur’an al-‘Azim, comentários a 5:3 e 7:172-173, sobre o contexto da revelação e o significado da aliança primordial.
- IslamQA (islamqa.info), artigos sobre as virtudes do dia de ‘Arafah, o jejum desse dia e as du’as recomendadas.
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