Al-Yassa (Eliseu) علیه السلام

Al-Yassa (Eliseu) علیه السلام

Quem foi o profeta Al-Yassa

Al-Yassa, também conhecido como Eliseu, é considerado um profeta no Judaísmo, no Cristianismo e no Islam. A tradição islâmica o descreve como um dos Filhos de Israel, descendente de Yusuf ibn Ya‘qub ibn Is-haaq ibn Ibrahim, que a paz esteja sobre todos eles. Assim, sua linhagem está ligada diretamente ao profeta Ibrahim, o amigo íntimo de Allah, o que já indica a honra e o estatuto elevado de Al-Yassa entre os mensageiros enviados à humanidade. Seu nome aparece no Alcorão ao lado de outros profetas, o que reforça sua posição entre os servos escolhidos de Allah, ainda que poucos detalhes históricos tenham chegado até nós.

Allah enviou Al-Yassa como sucessor do profeta Ilyas, que a paz esteja sobre ambos, para ajudar a guiar os Filhos de Israel em uma época de desobediência e afastamento da revelação. Depois da missão de Ilyas, muitos entre Bani Israil voltaram à idolatria, abandonaram partes da Lei que lhes tinha sido revelada e passaram a seguir costumes pagãos. Al-Yassa viveu entre seu povo, conhecia seus desafios e suas fraquezas, e os exortou a obedecer às leis e aos mandamentos de Allah com paciência e firmeza, chamando-os ao tawhid e à retidão.

Não se sabe muito sobre os detalhes da vida cotidiana de Al-Yassa, pois o Alcorão adota um estilo conciso quando menciona alguns profetas, destacando mais as lições espirituais do que as datas ou episódios cronológicos. Ainda assim, os poucos versículos em que o seu nome aparece são suficientes para mostrar seu caráter e seu lugar entre os homens piedosos. O fato de ser reconhecido como profeta também pelas tradições judaica e cristã confirma que Al-Yassa faz parte da mesma corrente profética que une os mensageiros de Allah através dos séculos, todos chamando ao mesmo Deus Único, ainda que as escrituras anteriores tenham sofrido alterações.

Al-Yassa no Alcorão e a honraria de ser guiado

Entre os versículos mais importantes sobre Al-Yassa está o trecho da Surah Al-An‘am em que Allah menciona uma longa cadeia de profetas, todos incluídos entre os guiados e favorecidos. Allah diz:

“E agraciamos Ibrahim com Isaque e Jacó. A ambos guiamos. E a Noé, guiamos antes. E, de sua descendência, guiamos Davi, e Salomão, e Jó, e José, e Moisés e Aarão. E, assim, recompensamos os benfeitores.
E guiamos Zacarias, e João, e Jesus, e Elias; todos eram dos íntegros.
E guiamos Ismael, e Eliseu, e Jonas, e Ló. E a todos eles preferimos sobre os mundos.
E também preferimos alguns de seus pais, de sua descendência e de seus irmãos. E Nós os elegemos e os guiamos para uma senda reta.” (Surah Al-An‘am, 6:84-87)

Neste trecho, o profeta Al-Yassa é mencionado ao lado de nomes muito conhecidos, como Ismael, Jonas e Ló. Isso indica que, perante Allah, sua missão é tão nobre quanto a dos demais profetas, mesmo que as narrativas em torno de sua vida sejam mais breves. O Alcorão descreve esses mensageiros como benfeitores, íntegros e preferidos sobre os mundos, escolhidos e guiados a uma senda reta. Assim, a história de Al-Yassa, ainda que resumida, é parte de um conjunto maior de exemplos de fé que o Alcorão quer colocar diante dos crentes.

Em outro versículo, Allah volta a mencionar Al-Yassa em companhia de outros profetas, destacando-o entre “os melhores”. Ele diz:

“E menciona Ismael, e Al-Yassa e Dhu Al-Kifl. E todos estão entre os melhores.
Esta é, em verdade, uma Mensagem. E, por certo, haverá para os piedosos um belo retorno:
os Jardins do Éden, de portas abertas para eles.” (Surah Sad, 38:48-50)

Aqui, o Alcorão liga diretamente o nome de Al-Yassa à ideia de excelência e piedade. Ele está entre os “melhores”, e logo em seguida Allah menciona a recompensa dos piedosos nos Jardins do Éden. Isso sugere que a lembrança de Al-Yassa não é apenas histórica, mas pedagógica: cada crente é chamado a refletir sobre o tipo de devoção, sinceridade e perseverança que o colocam na mesma direção dos profetas. Mesmo com poucos detalhes narrativos, o Alcorão nos orienta a honrar Al-Yassa, a crer em sua missão e a tomar seu exemplo como parte de um caminho de retorno a Allah.

Além desses versículos, estudiosos clássicos comentam que Al-Yassa está vinculado ao círculo de profetas enviados especialmente aos Filhos de Israel, após o tempo de Suleiman, que a paz esteja sobre ele. Ibn Kathir, ao tratar desses profetas em sua obra sobre a história dos mensageiros, ressalta que muitos deles enfrentaram povos teimosos, reis opressores e uma sociedade em que a idolatria e a injustiça voltavam a dominar logo após períodos de reforma. A presença de Al-Yassa nesse cenário mostra que Allah jamais abandona um povo sem orientação; sempre que a mensagem é esquecida, Ele suscita novos profetas para renovar o compromisso com a verdade.

Contexto histórico após o profeta Ilyas

Para compreender melhor a missão de Al-Yassa, é importante olhar para o contexto em que ele foi enviado. As fontes islâmicas relatam que, após o falecimento do profeta Suleiman, que a paz esteja sobre ele, o reino que ele governava foi dividido em duas partes principais: Israel e Yahuda. Essa divisão política enfraqueceu a unidade do povo e abriu espaço para conflitos internos, corrupção e influência de práticas pagãs vindas de povos vizinhos. Em Yahuda, onde ficava Quds (Jerusalém), havia ainda alguma estabilidade, pois ali se encontrava a Mesquita de Al-Aqsa, estudiosos instruíam o povo e a Torá era recitada. Já no reino de Israel, a perda dessas referências fortaleceu a decadência espiritual.

Com a perda gradual de estudiosos verdadeiros e a diminuição da lembrança das leis reveladas a Mussa, que a paz esteja sobre ele, a idolatria começou a retornar entre Bani Israil. Alguns reis passaram a adotar ídolos e altares estrangeiros, e o povo, em vez de resistir, muitas vezes seguiu seus governantes na desobediência. A tradição menciona que um dos ídolos mais conhecidos era Baa‘l, uma estátua de grandes dimensões, adornada com ouro e associada a rituais de adoração ilícita. O local onde esse ídolo era venerado ficou conhecido como Baalbek, nome que ecoa até hoje em regiões do Levante.

Nesse ambiente de desvio, o profeta Ilyas foi enviado para chamar o povo de volta ao tawhid. Contudo, a maioria se recusou a abandonar o culto a Baa‘l e a submeter-se plenamente à Lei de Allah. Foi nesse cenário que Al-Yassa surgiu como sucessor de Ilyas, dando continuidade à chama da profecia entre os Filhos de Israel. Algumas narrativas relatam que, em determinado momento, Ilyas e Al-Yassa chegaram a se esconder em uma caverna no Monte Qasium para escapar da perseguição de um rei tirânico de Baalbek, o que mostra a hostilidade enfrentada pelos mensageiros de Allah quando confrontavam a idolatria estabelecida.

Ibn Kathir menciona que, após a morte de Ilyas, a discórdia aumentou e os pecados se espalharam, a ponto de muitos tiranos tentarem matar profetas e extinguir a orientação divina. Nessa época de caos e injustiça, a missão de Al-Yassa era um chamado insistente para que o povo lembrasse as alianças feitas com Allah, voltasse à adoração exclusiva do Criador e abandonasse o culto a ídolos impotentes. Sua presença reforça a verdade de que Allah não deixa uma comunidade sem avisos e sem exemplos vivos de retidão, mesmo quando a maioria prefere seguir o caminho da desobediência.

O caráter nobre de Al-Yassa e o ideal de bondade

Embora o Alcorão não traga relatos longos de episódios específicos da vida de Al-Yassa, o fato de ele ser colocado entre “os melhores” e “os íntegros” já indica o tipo de caráter que possuía. As fontes destacam que Al-Yassa realmente amava seu povo e estava empenhado em guiá-lo no caminho certo. Ele era justo em suas decisões, paciente diante da oposição e consistente em sua humildade. Essa combinação de firmeza e ternura é típica dos profetas, que não agem por interesse pessoal, mas por um sincero cuidado com a salvação espiritual daqueles a quem foram enviados.

A história de Al-Yassa, ainda que breve, aponta para um padrão de comportamento que o Alcorão descreve em vários lugares quando fala dos crentes verdadeiros. Um desses versículos é o conhecido trecho da Surah Al-Baqarah, no qual Allah redefine o que é a verdadeira bondade. Ele diz:

“A bondade não está em voltardes vossos rostos para o Oriente ou para o Ocidente. Mas a bondade é a daquele que crê em Allah, e no Derradeiro Dia, e nos anjos, e no Livro e nos profetas; e dá de sua riqueza, apesar do amor que tem por ela, aos parentes, aos órfãos, aos necessitados, ao viajante, aos que pedem e para libertar escravos; e observa a oração, e concede o zakat; e cumprem os que cumprem seus pactos, quando fazem um pacto; e são perseverantes na adversidade, na aflição e em tempos de luta. Esses são os verídicos, e esses são os piedosos.” (Surah Al-Baqarah, 2:177)

Este versículo resume atributos que certamente encontramos na vida de Al-Yassa: fé firme, solidariedade concreta, constância na oração e no zakat, fidelidade a compromissos e perseverança em situações de dificuldade. Os profetas são o exemplo mais elevado desse padrão de bondade, e Allah os menciona para que os crentes de todas as épocas saibam que a justiça e a piedade não são conceitos abstratos, mas comportamentos praticáveis. O próprio fato de Al-Yassa continuar chamando seu povo mesmo diante de perseguições e rejeição demonstra sua perseverança e confiança na promessa de Allah.

O Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nos lembrou que todos os profetas formam uma irmandade na fé. Ele disse: “Os profetas são irmãos por parte de pai; suas mães são diferentes, mas sua religião é uma só.” (Sahih al-Bukhari). Essa palavra profética ajuda a entender por que o Alcorão menciona Al-Yassa em linhas gerais, sem repetir histórias que se assemelham às de outros mensageiros: o essencial é perceber que Al-Yassa faz parte da mesma mensagem única de submissão a Allah, que começou com os primeiros profetas e culmina com Muhammad, que a paz esteja sobre ele.

Lições espirituais da história de Al-Yassa

Uma das principais lições que podemos extrair da história do profeta Al-Yassa é que a verdadeira grandeza, aos olhos de Allah, não depende de fama ou de narrativas longas, mas da sinceridade com que alguém cumpre a missão que lhe foi confiada. Enquanto alguns profetas tiveram suas vidas relatadas em detalhes, outros, como Al-Yassa, são mencionados em poucas linhas, porém acompanhados de elogios muito claros. Ser colocado por Allah entre os “melhores” e entre aqueles que foram “preferidos sobre os mundos” é uma honra maior do que qualquer reconhecimento humano, e isso nos convida a rever o que entendemos por sucesso e destaque.

Outra lição importante é a continuidade da orientação divina. Al-Yassa foi enviado como sucessor de Ilyas, e sua missão reforça a ideia de que Allah renova a mensagem sempre que um povo se afasta. O Alcorão lembra: “E nunca enviamos mensageiro algum sem que fosse obedecido, com a permissão de Allah.” (paráfrase de um princípio presente em diversos versículos). Mesmo que muitos rejeitem o chamado, sempre haverá um grupo que escuta, se arrepende e retorna ao caminho da obediência. A narrativa de Ilyas e Al-Yassa, um após o outro, mostra que o cuidado de Allah com Seus servos é contínuo e que nenhum desvio é tão grande que não possa ser corrigido com arrependimento sincero.

Também aprendemos com Al-Yassa o valor da confiança em Allah em tempos de perseguição. Fontes relatam que, em momentos de grande perigo, ele e Ilyas buscaram refúgio em uma caverna para escapar de um rei opressor. Ainda assim, ambos permaneceram firmes na fé, não abandonaram o chamado ao tawhid e continuaram a orientar quem se aproximava com coração sincero. Essa confiança lembra o comportamento de muitos outros profetas, como o de Muhammad, que a paz esteja sobre ele, quando permaneceu firme na caverna de Thawr durante a Hijrah, confiante na proteção de Allah. A mensagem é clara: as circunstâncias podem parecer esmagadoras, mas o crente nunca está sozinho quando confia em seu Senhor.

Por fim, a maneira como o Alcorão associa Al-Yassa aos Jardins do Éden reforça o vínculo entre esforço neste mundo e recompensa na Outra Vida. Quando Allah diz que para os piedosos haverá “aprazível retorno” em “Jardins do Éden, de portas abertas” (Surah Sad, 38:50), está lembrando que a paciência, a retidão e a resistência ao pecado não são em vão. Assim, a história de Al-Yassa se torna um espelho para cada muçulmano: quanto de nosso caráter se aproxima desse padrão de bondade, fidelidade e perseverança descrito nas narrativas proféticas?

O exemplo de Al-Yassa para os muçulmanos hoje

Aplicar a história do profeta Al-Yassa à vida contemporânea significa, em primeiro lugar, reconhecer que a fé não se limita a declarações de crença, mas precisa se traduzir em ações concretas e em postura ética. Em uma época em que muitas pessoas relativizam princípios ou se deixam levar pela pressão social, o exemplo de Al-Yassa lembra que obedecer às leis de Allah exige coragem, especialmente quando a maioria prefere caminhos contrários à revelação. Ele viveu em um contexto de idolatria e injustiça, mas permaneceu comprometido com a verdade, chamando seu povo com sabedoria e perseverança.

Outra aplicação prática está na compreensão de que a orientação divina pode parecer, em alguns momentos, discreta ou pouco visível, mas nunca está ausente. Assim como Al-Yassa foi enviado após Ilyas para reforçar a mensagem, o muçulmano hoje é convidado a continuar essa corrente de orientação com sua própria conduta: ensinando com gentileza, aconselhando quem se afasta, mantendo a retidão mesmo quando é minoritário. Cada muçulmano, ao seguir os passos dos profetas, torna-se uma pequena luz de lembrança em meio à confusão do mundo moderno.

A história de Al-Yassa também incentiva a revisar nossas prioridades. Em um cenário de muito conteúdo superficial e de busca por visibilidade, o fato de um profeta tão honrado ter sido mencionado de maneira sucinta pelo Alcorão mostra que, aos olhos de Allah, o que importa é a pureza da intenção e a firmeza na obediência. Talvez quase ninguém conheça detalhes da vida de Al-Yassa, mas Allah o conhece, elogiou sua piedade e o incluiu entre os melhores. Isso encoraja o crente a buscar a aceitação de Allah, mesmo que seus esforços passem despercebidos pelos demais.

Por fim, o exemplo de Al-Yassa reforça a importância de crer em todos os profetas enviados por Allah, sem fazer distinções injustas entre eles. O Alcorão ensina:

“O Mensageiro crê no que foi descido para ele de seu Senhor, e os crentes também. Todos creem em Allah, em Seus anjos, em Seus Livros e em Seus mensageiros. Dizem: ‘Não fazemos distinção entre nenhum de Seus mensageiros’. E dizem: ‘Ouvimos e obedecemos. Teu perdão, Senhor nosso! E a Ti é o destino.” (Surah Al-Baqarah, 2:285)

Assim, honrar o profeta Al-Yassa é parte da fé islâmica: acreditamos em sua missão, o mencionamos com respeito e procuramos seguir o caminho de devoção, humildade e perseverança que Allah descreve ao falar dele e de todos os profetas.


Referências

  1. Alcorão Sagrado. Tradução para o português do significado dos versículos por Helmi Nasr, Complexo do Rei Fahd para a Impressão do Alcorão Sagrado, Medina.
  2. Ibn Kathir. Stories of the Prophets / História dos Profetas. Diversas edições em árabe, inglês e português.
  3. Artigos sobre os profetas no site islamreligion.com, especialmente os textos sobre os profetas entre os Filhos de Israel.
  4. Artigos biográficos em sunnahonline.com relacionados a Ilyas e Al-Yassa.
  5. Coleções de hadith autênticos em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, consultadas por meio de bases como sunnah.com, para os relatos sobre a irmandade dos profetas.
  6. Obras clássicas de tafsir, como Tafsir Ibn Kathir, utilizadas para o contexto dos versículos 6:84-87, 38:48-50 e 2:177.

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