O Uso do Astrolábio

A história do astrolábio começa mais de dois mil anos atrás, mas é no mundo clássico islâmico que o astrolábio foi altamente desenvolvido e seus usos amplamente multiplicados. Introduzido na Europa da Espanha Islâmica no início do século XII, foi um dos principais instrumentos astronômicos até os tempos modernos. Neste artigo conciso e belamente ilustrado, Emily Winterburn lança uma breve história da arte islâmica de fazer astrolábios - explicando as diferentes variedades, a descrição de sua estrutura e peças e seus usos nas funções sociais, religiosas e científicas.

Al Sufi, um dos mais famosos astrônomos do mundo islâmico, foi escritor em Isfahan (no atual Irã) no século 10. Em seus escritos, ele descreveu mais de 1000 utilizações de um astrolábio. Relatos muito antigos do astrolábio como instrumento científico foram dados pelo astrônomo grego Hiparco por volta de 150 a.C., dos escritos do mundo islâmico até as descrições modernas dadas pelos historiadores e curadores. Todos enfatizaram que o astrolábio é um instrumento extremamente versátil.

A principal função dos astrolábios variou pouco em sua longa história. Todos eles usam a relação entre o movimento aparente das estrelas, conforme avistado de uma latitude particular na Terra, e o tempo - permitindo-lhes ser usado para encontrar a hora pelas estrelas ou pelo Sol e a posição deles numa hora em particular (uma característica útil quando se calcula horóscopos). Todos, semelhantemente, têm a flexibilidade de serem usados tanto como instrumento de observação como auxílio nos cálculos matemáticos.

Origem e Propagação
Acredita-se que o astrolábio teve origem na Antiga Grécia. Ainda que não existam exemplares, Hiparco, escritor do ano 150 a.C., é atribuído como o descobridor da “projeção esferográfica”, uma forma matemática de representação em 3D do céu em uma placa 2D que é a base de como o astrolábio funciona. Enquanto sua origem pode ser grega, é de comum acordo que o projeto foi então aperfeiçoado no mundo islâmico – na verdade, o nome “astrolábio” vem da versão árabe do termo grego “stella titulari”. O exemplar físico mais antigo sobrevivente de um astrolábio pertence a coleção particular em empréstimo permanente ao Museu Nacional do Kuwait e tem viajado o mundo em uma exposição itinerante chamada "Arte Islâmica e Mecenato, Tesouros do Kuwait 'desde a Guerra do Golfo (1991). O astrolábio em questão foi feito no Iraque, assinado e datado Nastalus, 315 H (927-928 d.C.)

Estrutura
Um astrolábio é feito de quatro peças principais
-A mater ou chapa base;
-O rete ou aranha, uma chapa no topo em forma de teia, que mostra as estrelas fixas, a eclíptica (constelações zodiacais e a parte do céu no qual o Sol viaja) e certas estrelas vistas a olho nu;
-As chapas, cada uma das quais é feita para uma latitude diferente. Cada placa tem gravada em si uma marcação do zênite (apontar diretamente sobre a cabeça), o horizonte e todas as altitudes entre ele;
- A alidade ou régua com marcas utilizadas para fazer observações e leitura das escalas
O rete e as chapas são projetadas para que se encaixem na mater.

A figura acima mostra o rete de um astrolábio gravado em latim. Nele você pode ver um círculo marcando a eclíptica com cada signo do zodíaco nomeado (Virgem, Libra, Escorpião, etc.), ponteiros e indicações para as estrelas principais que são facilmente vistas a olho nu, tal como Rigel e Altair.

A parte de trás (fig. acima) é então decorada com um número variado de tabelas, a mais comum sendo o calendário permitindo o usuário combinar as datas dos calendários Gregoriano e Juliano com a posição do Sol no zodíaco. Também comum a todos os astrolábios é o quadrante para cálculos da altura dos prédios usando trigonometria básica.

Observações

Para fazer uma observação com o astrolábio, você precisa segura-lo pelo anel no topo para ter certeza de que ele penderá em linha reta.
Se for observar o Sol, você então precisa segura-lo alinhado à régua de forma que os raios solares viajem por ambas as miras em um ponto no solo. Isso se deve ao fato de que você não deve olhar diretamente para o sol. A escala de grau em volta da extremidade da parte de trás da mater lhe dará a altitude ou altura angular do sol acima do horizonte.
Se for observar uma estrela, você deve segurar o astrolábio e olhar para ela pelas duas miras e novamente fazer a leitura do ângulo em que a régua cruza a escala de graus.
Se for observar a altura de um prédio, você precisa primeiro medir a sua posição em relação a base do prédio, então você deve olhar para o topo do prédio pelas duas miras, ler no quadrante a proporção entre a distância vertical e horizontal dada por onde a régua cruza no quadrante.

Figura acima: Medição da altura de um edifício com um astrolábio.

Figura acima: Partes de um astrolábio

Cálculos: dizendo as horas através do sol ou das estrelas

Um dos cálculos mais comuns que podem ser feitos com o astrolábio é achar as horas através do sol ou das estrelas.

- Isso é feito primeiro selecionando a chapa apropriada para a sua latitude. Cada chapa é gravada com círculos concêntricos marcando os graus de altitude do zero ao horizonte até noventa ao zênite (ou o para o ponto diretamente acima da cabeça do observador)
- Em seguida, observe a estrela para achar sua altitude (veja acima)
- Então ache aquela estrela no rete.
- Gire o rete até que o ponteiro para que a estrela esteja alinhada com sua altitude na chapa.
- Finalmente, coloque a régua na frente do astrolábio e então gire o rete até que ele se alinhe com a estrela na sua altitude correta.
- A hora então pode ser lida a partir da escala em volta da borda da mater.
O processo é basicamente o mesmo para achar as horas a partir da altitude do sol, exceto quando você precisa adicionar um estágio extra.

Cálculos: Achando a hora do nascer e do pôr do Sol

Para se fazer previsões sobre quando o sol aparecerá numa parte específica do céu, visto a partir de uma latitude específica, numa determinada data, o processo necessário é mais ou menos o inverso daquele descrito acima.
-Primeiro você precisa achar a posição do sol na eclíptica para esta data, usando a escala de calendário na parte de trás do astrolábio.
- Em seguida você precisa girar o rete de modo a alinhar aquela parte da eclíptica nele com o horizonte na chapa para a altitude em que você está. Para o nascer do sol, use a linha do horizonte para a esquerda (leste) do centro, para o pôr do sol use a linha do horizonte para a direita (oeste).
- Então, da mesma forma que na anterior, gire a régua até que ela se alinha com a eclíptica no horizonte e faça a leitura da hora na escala de horas ao redor da borda da mater.
Cálculos: Calculando horóscopos
Para calcular um horóscopo é necessário saber a posição das estrelas visíveis no céu na hora do nascimento.
Usando os princípios como mencionado acima, isso pode ser feito da seguinte maneira:
-Achando a posição do sol na eclíptica para a data do nascimento em questão e então selecionando a chapa correta para a latitude do nascimento.
-Então, gire o rete até que se alinhe com a data correta do nascimento.
-Então, gire o rete até a parte da eclíptica relativa à régua de data correta.
Esta configuração do astrolábio então mostra todas as estrelas visíveis no céu. Todas as estrelas mostradas no rete acima do horizonte estavam visíveis na hora do nascimento, todas aquelas no horizonte estavam nascendo ou se pondo, e todas as que estavam abaixo não eram visíveis naquela hora.
Em adição a essa característica, muitos astrolábios possuem tabelas gravadas na parte de trás mostrando outras informações astrológicas que podem ser úteis ao se calcular horóscopos. Estes incluem tabelas de triplicidades (mostrando quais os signos do zodíaco são Fogo, Terra, Água e Ar), o zodíaco subdividido em limites (cinco divisões desiguais de cada signo), decanatos (três divisões iguais de cada signo) e faces (duas polaridades - positiva e negativa - para os regentes de cada decanato) e informações sobre os planetas regendo cada signo.
Algumas vezes possuem ainda informações sobre as mansões lunares, um campo da astrologia que se pensa ter se originado na Índia, que subdivide o zodíaco em vinte e oito (ao invés de doze) seções, cada uma referindo-se à posição da Lua no zodíaco para um dia em particular. Da mesma forma, alguns astrolábios têm casas marcadas na chapa de latitude já que é através delas que as estrelas se movem num período de vinte e quatro horas.
Cálculos: aplicações religiosas
Características adicionais únicas para astrolábios islâmicos (e que não aparecem em todos aqueles) são as tabelas concebidas para auxiliar a realização dos cinco pilares do Islam. Dos cinco pilares, os dois mais dependentes de observação astronômica e cálculo são encontrar a qibla ou direção de Meca e a previsão das horas de oração; e por causa disso muitos astrolábios islâmicos trazem estas tabelas especiais.

Qibla

Um quarto da parte de trás de alguns astrolábios possuem uma grade composta de quartos de círculos concêntricos (ou arcos de seno) representando a data ou signo do zodíaco na qual o sol poderia ser encontrado naquela data. Transpassando-os há linhas que vão do centro à extremidade, representando as cidades. Para usar isso de modo a encontrar a direção de Meca (a qibla) a partir de uma dessas cidades, mova a régua até o ponto no qual a linha da cidade cruza com a linha de data para a data de hoje. Isso dá a altitude, na escala de graus externa, do sol no ponto naquele dia, quando está direcionado a Meca. Este método usa o fato do sol mudar de altitude e azimute (viajando de Leste para Oeste) à medida que cruza o céu.


Figura acima: Astrolábio para determinação da Qibla

Dicionário geográfico

Muitas vezes, como uma alternativa para a qibla, muitos astrolábios contêm um Dicionário Geográfico ou tabela listando o nome de lugares, suas latitudes e longitudes, e a direção a partir daquele ponto até Meca aproximadamente e mais precisamente. Os dicionários geográficos hoje em dia são muitas vezes encontrados em livretos junto com as bússolas, permitindo que os tapetes de oração fiquem propriamente alinhados.

Linhas de Orações

Alguns astrolábios têm também as linhas de orações gravadas nas chapas, já que elas estão relacionadas com a posição do Sol no céu e são, portanto, dependentes da latitude.

Inscrições

Uma última indicação que achamos em muitos astrolábios islâmicos, o que lhes dá uma dimensão religiosa em oposição a serem simplesmente Árabes, mas não religiosos, são as inscrições. Em muitos astrolábios islâmicos encontramos passagens do Quran, dedicatórias, versos religiosos e é claro, a data dada de acordo com o calendário da Hijra.
Neste astrolábio (fig. abaixo), por exemplo, encontramos gravado ao longo da borda do mater uma invocação ao Profeta, à sua mãe, sua filha Fátima e aos doze imames do xiismo duodecimano, dizendo-nos não só que este é um astrolábio “islâmico”, mas que ele foi feito por e / ou para os seguidores do “Islamismo xiita”.

Uma passagem popular do Quran (Ayat al-Kursi -2:255), encontrada em inúmeros astrolábios, está também no trono deste:
“Deus! Não há mais divindade além d'Ele, Vivente, Subsistente, a Quem jamais alcança a inatividade ou o sono; d'Ele é tudo quanto existe nos céus e na terra. Quem poderá interceder junto a Ele, sem a Sua anuência? Ele conhece tanto o passado como o futuro, e eles (humanos) nada conhecem a Sua ciência, senão o que Ele permite. O Seu Trono abrange os céus e aterra, cuja preservação não O abate, porque é o Ingente, o Altíssimo”.

Aparência, Região e Tempo

Astrolábios nunca foram instrumentos exclusivamente científicos; eles sempre foram objetos de enfeite, tanto quanto de função. Como tal, o seu aspecto muitas vezes pode dizer-nos não só como eles foram usados, mas também onde, quando e por quem foram feitos.

Este astrolábio (figura acima), por exemplo, foi feito para um muezzin no século XIII, na Síria e, como tal, é simples no design já que foi feito por alguém a quem a funcionalidade teria mais importância do que a aparência.

Já este, acima, por outro lado, reflete a prosperidade e a época refinada, e o local em que foi feito. Feito durante o reinado da Dinastia Safavid no Iran, no século XVIII, representa a arte e a arquitetura daquele tempo e local, ricamente feito com toda a atenção dada às perfeições estéticas quanto à precisão científica.

Finalmente, este astrolábio (Fig. acima) pela sua aparência sugere que foi feito numa região em particular. O trono (parte superior do mater que liga a parte do disco do astrolábio com o anel pelo qual ele é suspenso) tem um design típico da Lahore deste período. Na verdade, a assinatura e a data do fabricante gravadas no astrolábio confirmam isso.

Os Astrolábios Hoje

O astrolábio foi introduzido no Ocidente cristão por volta do século XIII d.C. através da Espanha Islâmica. Os europeus adotaram o astrolábio juntamente com os vários textos astronômicos - algumas traduções de originais gregos, algumas puramente árabes - e espalhou-se nos círculos de estudos por volta do século XIV.

Por um tempo, o astrolábio veio a simbolizar o astrônomo no Ocidente tanto quanto tinha simbolizado no Oriente, com numerosos tratados dedicados à sua versatilidade, incluindo a narrativa em inglês de Geoffrey Chaucer, a primeira a ser escrita no Ocidente em uma língua diferente do Latim, escrita por seu filho de 10 anos de idade. Nos anos 1400, a variação no design padrão foi desenvolvida pelos portugueses e um novo instrumento, o astrolábio marítimo foi criado. Este, ao contrário do astrolábio astronômico, era um dispositivo puramente observacional, sem margem para cálculo.

O astrolábio caiu em desuso como uma ferramenta científica no Ocidente no século XVII, assim como toda uma série de outros instrumentos para atender necessidades específicas - o telescópio para observação sendo o mais significativo – que foram anteriormente executados pelo astrolábio, foram desenvolvidos. Como item de colecionador, foi redescoberto no Ocidente em meados do século XIX, e hoje exemplares de astrolábios podem ser achados em museus ao redor do mundo. Incluído nessas coleções estão várias falsificações feitas na metade do século XIX, em resposta à sua nova popularidade entre colecionadores não científicos.

No Oriente, no entanto, a compacidade do astrolábio permitindo tantas funções a serem desempenhadas por apenas um instrumento prático e portátil, continuou a ser valorizada até meados do século XIX. Hoje, em muitas partes do mundo islâmico, o astrolábio ainda é visto como um símbolo de excelência cultural e cientifica e sua imagem estampa logos de companhias, jardins formais e até mesmo shopping centers.

Pintura do Observatório Istambul. Mostra trabalhadores no observatório de Taqi al-Din, em Istambul, em 985 do ano da Hijra (1577 d.C.). Dois observadores trabalham com um astrolábio. Um astrolábio universal da forma saphea está sobre a mesa na frente do homem com as divisórias e papel. A pintura é de Shahinshah-nama (História do Rei dos Reis), um poema épico por 'Ala ad-Din Mansur-Shirazi, escrito em honra de Sultan Murad III (reinado de 1574-1595 [ano da Hijra 982-1003])

* Anteriormente no Museu Marítimo Nacional em Greenwich, Emily Winterburn está agora no Centro de História da Ciência, Tecnologia e Medicina, no Imperial College, em Londres. Emily Winterburn vem de uma formação em física e história da ciência. Enquanto curadora de astronomia no Observatório Real de Greenwich, ela foi responsável por uma das coleções de astronomia mais importantes do mundo. Emily Winterburn tem escrito para a revista BBC and Astronomy Now e já apareceu no programa da BBC “What the Ancients Did for Us”, “Channel 4 News”, e “In Our Time With Melvyn Bragg”. Ela é autora de The Astronomers Royal Winterburn (National Maritime Museum, 2005) e The Stargazer's Guide: How to Read our Night Sky (Constable, 2008).

 

Por: Emily Winterburn

Nota do editor: Este artigo foi gentilmente escrito para www.MuslimHeritage.com por Emily Winterburn em 2005. Estamos muito gratos pelo artigo e, em particular, pela permissão do uso das imagens aqui contidas.


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