Al-Khalili e o Auge da Astronomia Esférica em Damasco no Século XIV


Figura 1: Um pedaço da tabela universal para a qibla de Al-Khalili para todo o mundo clássico/medieval. Os valores estão em graus e minutos para cada grau de latitude de 10° a 56° e para cada grau de longitude diferente de Meca de 1° a 60°. Ao todo, há mais de 4.000 entradas do tipo e elas são precisamente computadas ou tem um erro de ±1 ou ±2 minutos. Os valores mostrados aqui servem latitude 28°, 29°,..., 33° e diferentes longitudes 1°, 2°,..., 60°. Os formatos das tabelas exploram a simetria da função da qibla de cada lado do meridiano de Meca (com longitudes 67°, de acordo com a convenção medieval). Esse esplêndido manuscrito foi copiado em Damasco por volta do ano 1400 (fonte)

Por David A. King

A Síria durante o século XIV foi palco dos mais sofisticados desenvolvimentos em astronomia. Shams al-Din al-Khalili foi um muwaqqit ou astrônomo da mesquita, em Damasco na metade deste século. Ele foi colega do mais conhecido Ibn al-Shatir, cujos novos modelos planetários foram adotados 150 anos depois por Copérnico, e que construiu o mais sofisticado relógio de sol conhecido por nós. Ele também foi contemporâneo de Ibn al-Sarraj de Alepo, que construiu o mais sofisticado astrolábio jamais feito, universal, ou seja, servindo todas as latitudes terrestres, de cinco maneiras diferentes.

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[Este artigo foi preparado pelo Prof. David A. King de Frankfurt. Sua pesquisa desde os anos 1970 têm se baseado no que ele chama “astronomia a serviço do Islam”, um tópico negligenciado por outros historiadores mais interessados em astronomia planetária ou astronomia teórica ou transmissão ou patrocínio. Ele trabalhou com manuscritos científicos árabes e instrumentos astronômicos islâmicos em bibliotecas e museus ao redor do mundo e publicou uma dúzia de livros e mais de 200 artigos relacionados à astronomia islâmica. Seu website é www.davidaking.org]
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A conquista mais notável de Al-Khalili foi a compilação de duas tabelas universais. A primeira delas foram tabelas resolvendo todos os problemas padrões de astronomia esférica para todas as latitudes. Por exemplo, as tabelas podem ser usadas para encontrar, sem qualquer cálculo além de interpolação, a hora do dia para qualquer altitude solar, qualquer declinação solar (correspondente com a data no ano solar), e qualquer latitude terrestre. A segunda foi uma tabela mostrando a qibla em graus e minutos para cada grau de latitude e cada grau de longitude (dentro do mundo medieval). Além disso, Al-Khalili compilou um novo conjunto de tabelas para encontrar os horários das orações pela latitude de Damasco.

O corpus de tabelas de Al-Khalili foi descoberto em um manuscrito preservado na Bibliothèque Nationale em Paris em 1970. Na época, não havia conhecimento de NENHUMA tabela desse tipo preparada por eruditos muçulmanos. Desde então, descobrimos no manuscrito diversas outras cópias da tabela e numerosos conjuntos de outras do mesmo tipo, mas a tabela de al-Khalili para contagem do tempo e qibla são superiores, mais do que qualquer outra. 

Para ler mais sobre todas as tabelas islâmicas conhecidas para cronometragem do sol e das estrelas, incluindo as de Al-Khalili, veja In Synchrony with the Heavens – Studies in Astronomical Timekeeping and Instrumentation in Islamic Civilization, vol. 1: The Call of the Muezzin, and vol. 2: Instruments of Mass Calculation, Leiden & Boston: Brill, 2004-05. Mais dos estudos do autor, incluindo os três artigos disponíveis aqui, estão reimpressos em quatro volumes por Variorum: Islamic Mathematical Astronomy (1986/1993), Islamic Astronomical Instruments(1987), Astronomy in the Service of Islam (1993), and Islamic Astronomy and Geography (2011).

O que é astronomia esférica?

A posição das localidades da terra é definida em termos de longitude e latitude relativas ao equador terrestre. Chamamos de “coordenadas”. Astronomia esférica, que é o que nos interessa aqui, é o estudo da aparente rotação dos céus - representada por uma esfera- sobre o observador, que ocorre sobre um eixo celeste cuja altitude acima do horizonte é igual à latitude da localidade, ou, em outras palavras, paralelo ao equador celestial. Esse ramo da astronomia essencialmente envolve a conversão das coordenadas entre três sistemas: coordenadas de altitude baseadas no horizonte e azimute; coordenadas de latitude e longitude celestiais baseadas eclipticamente; e coordenadas de ascensão e declinação. Então, por exemplo, o observador (em uma latitude específica) pode medir a altitude (acima do horizonte) do sol (medido na eclíptica) ou uma estrela, e convertê-la em uma medida de tempo (medida no equador celestial). Ele/ela pode alcança-la tanto por cálculo usando tabelas trigonométricas, ou usando um astrolábio junto com um prato para sua latitude terrestre.

Astrônomos muçulmanos preocuparam-se com estes problemas do século VII ao século XIX. Eles sobressaíram-se na produção de tabelas trigonométricas, tabelas para cronometragem astronômica, e variedades de instrumentos para facilitar a determinação do tempo a partir de configurações celestiais. Em particular, eles produziram tabelas e instrumentos que eram universais, isto é, servindo a todas as latitudes.

A determinação da qibla ou direção local de Meca é um problema de geografia terrestre. No entanto, astrônomos Muçulmanos às vezes achavam conveniente considerar a qibla como um problema de astronomia esférica: o problema era então determinar a direção a partir do zenith de Meca. Isso eles eram capazes de resolver usando geometria ou trigonometria ou mesmo mapas especiais. Novamente, as soluções mais notáveis para o problema da qibla, datando a partir do século IX, são tabelas universais que mostram a qibla em graus e minutos para cada grau de longitude e cada grau de latitude. Astrônomos muçulmanos nos séculos X e XI até criaram mapas-múndi centrados em Meca com planos cartográficos altamente sofisticados que preservavam direção e distância de Meca.

 

Glossário

Astrolábio: um modelo em 2-d da atmosfera celeste, com uma parte móvel (rete) expondo o eclíptico e várias estrelas brilhantes e uma parte fixa (pratos para latitudes individuais) mostrando o horizonte e meridianos assim como altitudes e o círculo azimute para uma latitude específica.
Astronomia, esférica: o estudo matemático referente à esfera celestial
Eixo, celestial: o eixo imaginário sobre o qual os céus parecem circular
Azimute: a direção de um corpo celestial medida ao longo do horizonte (do árabe al-sumût<samt, “direction”)<br="">Azimute of Meca: tradução de samt Makka, também chamada inhirâfal-qibla em árabe medieval, literalmente “desvio da qibla a partir do meridiano local”
Coordenadas: aqui, a definição da posição de qualquer ponto na esfera terrestre ou esfera celeste por meio de medida ao longo da circunferência principal e outra perpendicular a ele – comparando longitude e latitude terrestre, e longitude eclíptica (sol, lua e estrelas) e latitude (lua e planetas)
eclíptico: o caminho aparente do sol contra o plano de fundo das estrelas, convenientemente toda a esfera celeste veja também zodíaco
Equador, celeste: o grande círculo da esfera celeste perpendicular ao eixo celeste
Qibla: a direção sagrada da oração e vários outros rituais em direção à Kaaba em Meca
esfera, celeste: uma esfera imaginária de raio arbitrário circundando o observador no centro, no qual todos os corpos celestes parecem estar fixos (estrelas) ou movendo (sol, lua e planetas)
Trigonometria, plano/esférico: a matemática dos ângulos/arcos, envolvendo funções como o seno e cotangente (classificados aqui como Seno e Cotangente uma vez que as funções usadas em tempos medievais eram baseadas em 60 em vez de unidade, como usamos hoje)
zenith: o ponto na esfera celeste diretamente acima do observador (samt al ra’s em árabe)
zodíaco: o cinturão dos céus abrangendo o eclíptico dentro do qual a lua e os planetas parecem moverse, dividido historicamente de acordo com 12 constelações.

 


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