A posição de Jesus no Islam

A posição de Jesus no Islam

A figura de ‘Issa ibn Maryam, o Profeta Jesus (que a paz esteja sobre ele), ocupa um lugar de enorme honra no Islam. O Alcorão o menciona com profundo respeito, apresentando-o como um dos mensageiros mais nobres enviados por Allah à humanidade. A tradição islâmica relata sua história de forma clara, preservada e livre das contradições introduzidas posteriormente por interpretações humanas.

A narrativa islâmica revela sua verdadeira natureza: ele é um servo e mensageiro de Allah, nascido de maneira milagrosa por um decreto divino, enviado ao povo de Israel para restaurar a pureza da fé, confirmar a revelação anterior e anunciar o Mensageiro final, Muhammad ﷺ. Conhecer a posição de Jesus no Islam exige revisitar os textos revelados — o Alcorão e a Sunnah autêntica — que descrevem sua origem, sua missão, seus milagres, sua elevação aos céus e seu retorno antes do Dia do Juízo.


A honra de Maryam e a boa nova de ‘Issa

Maryam (Maria, que a paz esteja sobre ela), mãe de ‘Issa, é apresentada no Alcorão como uma mulher de devoção ímpar, cuja fé e pureza foram escolhidas por Allah acima das mulheres de seu tempo.

Allah diz:

“Recorda-te de quando os anjos disseram: ‘Ó Maria, é certo que Allah te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade! Ó Maria, consagra-te ao Senhor! Prostra-te e genuflecte, com os genuflexos!’”
(Alcorão 3:42-43)

A elevação espiritual de Maryam antecede a grande notícia que lhe é dada: Allah criará nela uma criança extraordinária, não concebida por meios naturais, mas por Sua ordem “Seja! e é”. Essa verdade se repete ao longo do Alcorão, mostrando que o poder criador de Allah não está limitado às causas habituais.

Os anjos anunciam:

“Ó Maria, por certo que Allah te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os diletos de Allah. Falará aos homens, ainda no berço, bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos.”
(Alcorão 3:45-47)

Chamado de “Seu Verbo” porque foi criado pela ordem divina — assim como Adão foi criado a partir de “Seja! e é” — Jesus não adquire, por isso, qualquer parcela de divindade. Ele continua sendo criatura, servo e mensageiro de Allah, honrado por sua origem milagrosa e por sua missão.


O nascimento milagroso de Jesus

Allah criou Jesus a partir de uma mãe apenas, Maryam, sem pai humano. O Alcorão destaca esse evento como um sinal extraordinário para a humanidade. Allah cria como quer: Ele criou Adão sem pai e mãe; criou Eva a partir de Adão; criou os demais seres humanos a partir de pai e mãe; e criou Jesus de uma mãe sem pai. Isso mostra que a criação pertence a Allah em todas as suas formas.

O Alcorão descreve como Maryam se afastou de sua família para um local a leste, onde Allah lhe enviou Jibril (Gabriel), descrito como “Nosso Espírito”, que lhe apareceu na forma de um homem perfeito. A passagem relata:

“E menciona Maria, no Livro, a qual se separou de sua família, indo para um local que dava para o leste. E colocou uma cortina para ocultar-se dela, e lhe enviamos o Nosso Espírito, que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito. Disse-lhe ela: ‘Guardo-me de ti no Clemente, se é que temes a Allah’. Explicou-lhe: ‘Sou tão-somente o mensageiro do teu Senhor, para agraciar-te com um filho imaculado’. Disse-lhe: ‘Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta?’. Disse-lhe: ‘Assim será, porque teu Senhor disse: “Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia”’. E foi uma ordem inexorável.”
(Alcorão 19:16-21)

Esse diálogo demonstra a castidade, o temor a Allah e a submissão de Maryam. Ela sabe que o que está acontecendo é um decreto divino e se submete, mesmo diante da perspectiva de enfrentar suspeitas e acusações.


A gestação de Maryam e o milagre do parto

Os sábios discutiram a duração da gestação de Maryam. Alguns relatos antigos sugerem um período muito curto; outros mencionam nove meses. Eruditos como Ibn Kathir e al-Shinqiti afirmam que não há texto explícito que fixe uma duração exata, e que o mais provável é que Maryam tenha tido uma gravidez normal.

Esse entendimento ajuda a explicar por que o povo não interpretou imediatamente a gravidez como um milagre evidente, chegando a acusá-la de fornicação. O milagre está principalmente em sua concepção sem pai humano e na fala de Jesus ainda no berço.

O Alcorão diz:

“E quando concebeu, retirou-se, com um rebento, a um lugar afastado. As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma tamareira. Disse: ‘Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando completamente esquecida’.”
(Alcorão 19:22-23)

Nesse momento de extrema angústia, Allah a agracia com sustento e conforto:

“Porém, chamou-a uma voz, junto a ela: ‘Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um riacho a teus pés! E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras maduras e frescas. Come, pois, bebe e consola-te; e se vires algum humano, faze-o saber que fizeste um voto de jejum ao Clemente, e que hoje não poderás falar com pessoa alguma’.”
(Alcorão 19:24-26)

Allah, então, ordena que ela não discuta nem se defenda. Seu defensor será o próprio filho, por meio de um milagre único.


A inocência de Maryam e a fala de Jesus no berço

Ao retornar com o bebê nos braços, Maryam enfrenta acusações do seu povo, que não compreende o milagre e julga de acordo com aparências. Quando eles a confrontam, ela apenas aponta para a criança, obedecendo ao que Allah havia ordenado.

O povo reage com espanto: como falar com um bebê de colo? É então que Allah faz com que ‘Issa fale ainda no berço, defendendo a honra de sua mãe e declarando sua própria identidade como profeta.

“O bebê disse: ‘Por certo, sou o servo de Allah. Ele me concederá o Livro, e me fará Profeta, e me fará abençoado, onde quer que esteja, e me recomendará a oração e az-zakah, enquanto permanecer vivo, e me fará blandicioso para com minha mãe, e não me fará tirano, infeliz; e que a paz seja sobre mim, no dia em que nasci, e no dia em que morrer e no dia em que for ressuscitado, vivo! Esse é Jesus, filho de Maria. É o Dito da verdade, que eles contestam. Não é admissível que Allah tome para Si um filho. Glorificado seja! Quando decreta algo, apenas, diz-lhe: “Sê”, então, é’.”
(Alcorão 19:30-35)

Essa declaração é central na teologia islâmica. Ela:
– defende publicamente a inocência de Maryam;
– estabelece Jesus como servo de Allah e Profeta, não como divindade;
– reafirma que sua criação é resultado da Palavra divina “Sê”.


Jesus como Palavra de Allah e espírito vindo Dele

O Alcorão descreve Jesus como “Seu Verbo” e como um espírito vindo de Allah. Alguns podem confundir isso com divindade, mas os estudiosos esclarecem que esse tipo de expressão, no árabe corânico, indica honra especial, não participação na essência divina.

Assim como a Kaaba é chamada “Casa de Allah” e a camela do Profeta Salih é chamada “Camela de Allah”, sem que isso signifique que sejam parte de Allah, Jesus é chamado de Palavra de Allah por ter sido criado pela ordem “Sê”, sem pai humano, e de espírito vindo Dele por ser um espírito criado e honrado. Ibn al-Qayyim e outros explicam que, quando Allah anexa algo a Si em termos de criação (e não de atributo), isso indica distinção e honra, não divindade.


A missão profética de ‘Issa: monoteísmo e misericórdia

Jesus foi enviado aos israelitas como profeta e mensageiro. Ele veio confirmar a Torá que havia antes dele, esclarecer o que foi distorcido, aliviar parte das restrições impostas ao povo e chamá-los de volta à adoração exclusiva de Allah.

Allah diz sobre sua missão:

“Ele lhe ensinará o Livro, a sabedoria, a Tora e o Evangelho. E ele será um Mensageiro para os israelitas, (e lhes dirá): ‘Apresento-vos um sinal de vosso Senhor: plasmarei de barro a figura de um pássaro, à qual darei vida, e a figura será um pássaro, com beneplácito de Allah, curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, com a anuência de Allah, e vos revelarei o que consumis e o que entesourais em vossas casas. Nisso há um sinal para vós, se sois crentes. (Eu vim) para confirmar-vos a Tora, que vos chegou antes de mim, e para liberar-vos algo que vos está vedado. Eu vim com um sinal do vosso Senhor. Temei a Allah, pois, e obedecei-me. Sabei que Allah é meu Senhor e vosso. Adorai-O, pois. Essa é a senda reta’.”
(Alcorão 3:48-51)

Sua mensagem é uma reafirmação do monoteísmo puro — o mesmo de Noé, Abraão, Moisés e Muhammad ﷺ. Ele não veio fundar uma nova divindade, mas restaurar a fé pura em Allah, o Único.

O Alcorão também relata que Jesus anunciou um mensageiro que viria depois dele:

“E quando Jesus, filho de Maria, disse: ‘Ó filhos de Israel, por certo, sou o Mensageiro de Allah para vós, confirmador do que havia antes de mim da Torá, e alvissareiro de um Mensageiro que há de vir depois de mim, cujo nome será Ahmad’.”
(Alcorão 61:6)

Isso conecta diretamente a missão de Jesus à missão final do Profeta Muhammad ﷺ, selando a linha profética.


Os milagres de Jesus com a permissão de Allah

Jesus foi apoiado com milagres grandiosos que educam, fortalecem a fé e apontam para o poder exclusivo de Allah. Ele moldava pássaros de barro e, ao soprar neles, tornavam-se aves vivas; curava cegos de nascença e leprosos; ressuscitava mortos; informava o que as pessoas comiam e guardavam em suas casas.

Em todos esses casos, o Alcorão repete a expressão “com a permissão de Allah”, deixando claro que o poder não era inerente a Jesus, mas um dom de Allah para confirmar sua missão profética.


Jesus não é filho de Allah

A unicidade de Allah é o eixo central do Islam. Por isso, qualquer atribuição de filho a Allah é rejeitada de forma categórica.

Allah diz:

“Não é admissível que Allah tome para Si um filho. Glorificado seja!”
(Alcorão 19:35)

E também:

“Ó adeptos do Livro, não exagereis em vossa religião e não digais de Allah senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão-somente um mensageiro de Allah e Seu Verbo, com o qual Ele agraciou Maria por intermédio do Seu Espírito. Crede, pois, em Allah e em Seus mensageiros e não digais: ‘Trindade!’. Abstende-vos disso, que será melhor para vós; sabei que Allah é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho.”
(Alcorão 4:171)

Atribuir um filho a Allah é descrito como algo gravíssimo:

“Afirmam: O Clemente teve um filho! Sem dúvida que haveis proferido uma heresia. Por isso, pouco faltou para que os céus se fundissem, a terra se fendesse e as montanhas, desmoronassem. Isso, por terem atribuído um filho ao Clemente, quando é inadmissível que o Clemente houvesse tido um filho.”
(Alcorão 19:88-92)

Portanto, no Islam, qualquer crença de que Jesus é filho de Deus, parte de uma trindade ou Deus encarnado é considerada incredulidade, pois contraria a essência do monoteísmo.


A conspiração para matá-lo e sua ascensão

Os judeus a quem Jesus foi enviado rejeitaram-no, acusaram sua mãe e conspiraram para matá-lo. Eles pensaram em entregá-lo às autoridades romanas, apresentando sua mensagem como ameaça política.

O Alcorão, porém, esclarece que eles não tiveram êxito:

“E por dizerem: ‘Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Allah’, embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes foi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o fato é que não o mataram. Outrossim, Allah fê-lo ascender até Ele, porque é Poderoso, Prudentíssimo.”
(Alcorão 4:157-158)

Um outro homem, que o denunciou, teve sua aparência transformada para se assemelhar a Jesus e foi ele quem foi capturado e crucificado. Allah salvou Jesus, elevou-o aos céus e preservou sua vida.

Jesus, portanto, não está morto. Ele foi elevado e retornará antes do Dia da Ressurreição, como afirma o Alcorão:

“Nenhum dos adeptos do Livro deixará de acreditar nele (Jesus), antes da sua morte, que, no Dia da Ressurreição, testemunhará contra eles.”
(Alcorão 4:159)


O retorno de Jesus antes do Dia do Juízo

A Sunnah autêntica confirma que Jesus voltará à Terra nos últimos tempos, não como novo profeta, mas como seguidor da revelação final, julgando com justiça, quebrando falsos símbolos e desmentindo exageros teológicos.

O Profeta Muhammad ﷺ disse:

“Em Nome d’Aquele em cujas mãos está minha alma, falta pouco para que o filho de Maria retorne dentre eles como um juiz justo. Ele quebrará a cruz, matará o porco e abolirá o jizyah; e a riqueza será tão abundante que ninguém aceitará esmola.”
(Sahih Muslim, nº 155)

Com o seu retorno, tanto judeus quanto cristãos verão a verdade sobre quem ele é: servo de Allah, mensageiro honrado e seguidor da mensagem final.


O testemunho de Jesus no Dia da Ressurreição

No Dia do Juízo, Jesus será questionado, diante de toda a humanidade, sobre o que ensinou ao seu povo. Ele negará ter pedido que o adorassem, a ele ou à sua mãe, e reafirmará que chamou apenas ao culto exclusivo a Allah.

Allah diz:

“E recordar-te de quando Allah disse: ‘Ó Jesus, filho de Maria! Foste tu quem disseste aos homens: Tomai a mim e a minha mãe por duas divindades, em vez de Allah?’ Respondeu: ‘Glorificado sejas! É inconcebível que eu tenha dito o que por direito não me corresponde. Se tivesse dito, tê-lo-ias sabido, porque Tu conheces a natureza da minha mente, ao passo que ignoro o que encerra a Tua. Somente Tu és Conhecedor do incognoscível. Não lhes disse, senão o que me ordenaste: “Adorai a Allah, meu Senhor e vosso!”’.”
(Alcorão 5:116-117)

Essa cena sela de forma definitiva a verdade islâmica sobre Jesus.


Proximidade entre muçulmanos e cristãos

O Alcorão reconhece que, entre os povos das escrituras anteriores, os cristãos são, em geral, os mais próximos em afeição aos muçulmanos, em razão da presença de monges, estudiosos humildes e pessoas que não se ensoberbecem.

Allah diz:

“Constatarás que os piores inimigos dos crentes, entre os humanos, são os judeus e os idólatras. Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos crentes são os que dizem: ‘Somos cristãos!’, porque possuem sacerdotes e não se ensoberbecem de coisa alguma.”
(Alcorão 5:82)

Isso abre espaço para diálogo sincero, baseado na verdade, na correção de exageros e na busca comum pela adoração ao Deus Único.


Conclusão: a verdadeira posição de Jesus no Islam

Jesus, filho de Maryam (que a paz esteja sobre ambos), é um dos mais nobres mensageiros de Allah. Ele nasceu de maneira milagrosa, sem pai humano, por decreto divino; defendeu a honra de sua mãe falando ainda no berço; confirmou a Torá e trouxe o Evangelho; realizou milagres com a permissão de Allah; foi alvo de conspirações; não foi morto nem crucificado, mas elevado aos céus; e retornará nos últimos tempos como juiz justo, seguidor da mensagem final de Muhammad ﷺ.

O Islam corrige tanto a negação de sua profecia quanto o exagero que lhe atribui divindade. Seu lugar no Islam é de enorme respeito e amor, mas sempre como servo de Allah, profeta e mensageiro. A senda reta é reconhecer Allah como Único, seguir todos os profetas — incluindo Jesus — e aceitar a mensagem final revelada a Muhammad ﷺ.


Referências

  • Alcorão Sagrado, tradução de Dr. Helmi Nasr.
  • Tafsir Ibn Kathir.
  • Adhwa’ al-Bayan, Sheikh Muhammad al-Amin al-Shinqiti.
  • Ibn al-Qayyim, discussões sobre Kalimatullah e Ruh.
  • At-Tuwaydjiri, Ussul ad-Din al-Islami.
  • Coleção de Fatawa do Comitê Permanente de Ifta (Ibn Baz, ‘Afify, Ghudayyan, Qa’ud) – Alifta.com.
  • Sahih Muslim, hadith nº 155.

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