Devo retirar o meu hijab por causa do assédio que venho sofrendo por causa dos últimos acontecimentos terroristas?

 

 

Depois dos últimos acontecimentos terroristas, muitas muçulmanas em países não muçulmanos, vêm sofrendo assédios que podem levar ao assassinato por extremistas, em alguns casos. É permitido que uma muçulmana vivendo nestes locais, sob tais circunstâncias, tire o hijab de maneira a evitar possível assédio?

 

 

 Todos os louvores são para Allah.

Antes de emitir uma fatwa geral nesses casos, é essencial ter uma visão completa da situação e descobrir se ela atingiu ou não o grau de necessidade que permitiria a realização de um ato haram, em que há consenso de que é Haraam.

Se este estágio não foi atingido, se estas forem apenas ações de alguns tolos e extremistas, e esta não é uma tendência geral naquele país, que pode ser tratada sem uma concessão tão séria, então, baseado nisso, os muçulmanos devem exigir seus direitos de proteção, e não devem ser culpados pelas ações alheias, ou comprometidos na prática de sua religião, que para eles é a fonte de orgulho e distinção.

Devemos nos lembrar que o hijab é uma obrigação que Allah ordenou à muçulmana, o que está provado no Alcorão e na Sunnah sahih e a ummah unanimemente concordou, a despeito das diferenças em suas madhabs e escolas de pensamento. Nenhuma madhab divergiu desta opinião, e nenhum faqih foi contra isso, e esta tem sido a prática da ummah ao longo dos séculos. Allah diz (interpretação do significado):

Ó Profeta! Dize a tuas mulheres e a tuas filhas e às mulheres dos crentes que se encubram (seus véus) em suas roupagens (que cubram-se completamente). Isso é mais adequado, para que sejam reconhecidas e não sejam molestadas. E Allah é Perdoador, Misericordiador.”

[al-Ahzaab 33:59]

“...e que estendam seus cendais (seus véus) sobre seus decotes (ou seja, por sobre seus corpos, rostos, pescoços e seios). E não mostrem seus ornamentos

[al-Noor 24:31]

 

Todo muçulmano tem o dever de aderir às obrigações de sua religião, e de se esforçar para agradar seu Senhor e obedecer aos Seus comandos, e ninguém deve força-lo, por qualquer meio, a desistir disso.

Você ficaria surpreso ao ver pessoas que defendem a liberdade e a proteção dos direitos humanos tirando a liberdade dos outros por causa de algumas ações com as quais não tiveram nada a ver.

Com relação à muçulmana tirar o seu hijab porque ela está sendo ameaçada com assédio, sintetizaremos este assunto nos pontos a seguir:

  • Não é permito para uma muçulmana ficar numa terra (país, estado, cidade, local) onde ela não pode praticar sua fé abertamente. Baseado nisso, toda mulher que vive nestes locais e não é capaz de praticar sua fé abertamente deve migrar para uma terra onde ela pode praticá-la abertamente com liberdade completa.
  • Se ela não está apta a migrar, então a muçulmana, em tais circunstâncias, deve permanecer em casa, especialmente se ela tem um guardião que pode cuidar dela e atender suas necessidades, e ela não deve sair a não ser em caso de necessidade, por medo da fitnah (tumulto) ao qual ela pode ser exposta.
  • Não é necessário que ela saia para trabalhar e estudar se existe quem pode sustentá-la e ela pode atrasar seus estudos até o próximo semestre ou tirar licença do trabalho, até que as coisas se acalmem, porque este assédio apenas acontece nos dias que sucedem um incidente, então isso logo se acalma e as coisas voltam ao normal.
  • Mas, se ela sai por alguma razão necessária e ela teme enfrentar assédio, então ela deve considerar que tipo de assédio é este. Se é alguma coisa que pode ser suportada, tal como xingamentos ou insultos, ou apenas olhares hostis de algumas pessoas, isso não significa que é permitido que ela retire o hijab, porque este tipo de assédio é suportável. É falso dizer para uma mulher: “desista do hijab por causa de algumas palavras que você ouve na rua”; ao contrário, ela deve ser paciente e aguentar. Isto pode ser considerado teste de fé da crente. Allah diz (interpretação do significado):

“Os homens supõem que, por dizerem: "Cremos", serão deixados, enquanto não provados?

3- E, com efeito, provamos os que foram antes deles. E, em verdade, Allah sabe dos que dizem a verdade e sabe dos mentirosos (embora Allah saiba de tudo isso antes de pô-los a teste)”

 

[al-‘Ankaboot 29:2-3]

Então, ela deve aguentar qualquer assédio ou escárnio que venha pela causa de Allah, e ter em mente o que Ele prometeu de recompensa àquele que é fiel à Sua religião, como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “À vossa frente há um tempo de paciência, quando aquele que adere ao Islam terá a recompensa de cinquenta mártires dentre vós.” Narrado por al-Tabaraani, de Ibn Mas’ud e classificado como sahih por al-Albani em Sahih al-Jaami’

  • Outros meios de evitar o assédio é não sair sozinha, mas apenas acompanhada do seu guardião (wali) ou em grupo, de modo que o tolo não a assediará quando estiver sozinha.
  • Se ela será confrontada com assédio insuportável, tal como ser agredida ou assassinada ou ter a sua honra maculada, e ela tem que sair por alguma razão necessária, então, neste caso, é permitido que ela reduza o seu hijab para um tipo atenuado, tal como cobrir a cabeça e o pescoço apenas.  Ela pode abrir mão apenas do tanto do hijab que irá protegê-la de ser exposta ao mal, porque a necessidade não deve ser exagerada [1]. Ou ela pode cobrir-se sem o tipo de hijab com o qual as pessoas estão acostumadas, de forma que ela não aparecerá como um alvo para o assédio aos olhos destas pessoas. Dentre as roupas de inverno, etc., das não-muçulmanas existem peças de roupas que cobrem todas ou a maior parte que a shari’ah exige que sejam cobertas.
  • Se o hijab dela é retirado à força, então ela está sendo colocada à prova e será recompensada, mas assim que o problema estiver terminado ela deve voltar ao seu traje adequado.

Tal fatwa deve ser emitida com cautela e de forma gradual, de acordo com a situação, para que não conduza à perda da identidade islâmica em sociedades que não são conservadoras.

 

 

[1] Nota da tradutora: O fato de haver a permissão para reduzir o hijab (ou, em alguns casos, retirá-lo) não significa que existe a permissão para usarmos adornos, decotes, roupas curtas e apertadas, significa que diante da necessidade extrema há a permissão para não usar o hijab tradicional adequado, de modo a evitar o perigo iminente, que varia em grau, de situação a situação. A obrigação de nos cobrirmos, o máximo e da melhor forma possível, continua existindo. É muito importante nos lembrarmos que seremos julgados por nossas intenções, por isso, que não tomemos os crescentes atos de intolerância como uma escusa para retirarmos o hijab, a não ser quando houver uma real extrema necessidade para tal. Esta fatwa não é um aval para que as muçulmanas retirem o hijab. Como foi dito acima, cada situação deve ser analisada separadamente. Que Allah, Subhanahu Wa Ta'ala, facilite a situação de todas nós. Que Ele não nos deixe desviar depois de nos ter guiado.

Como agir em caso de sofrer intolerância religiosa:

No caso de discriminação religiosa, a vítima deve ligar para a Central de Denúncias (Disque 100) da Secretaria de Direitos Humanos.

Também deve procurar uma delegacia de polícia e registrar a ocorrência. O delegado tem o dever de instaurar inquérito, colher provas e enviar o relatório para o Judiciário. A partir daí terá início o processo penal.

Em caso de agressão física, a vítima não deve limpar ferimentos nem trocar de roupas — já que esses fatores constituem provas da agressão — e precisa exigir a realização de exame de corpo de delito.

Todos os tipos de delegacia têm o dever de averiguar casos dessa natureza, mas em alguns estados há também delegacias especializadas. Em São Paulo, por exemplo, existe a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, a unidade policial, está instalada à Rua Brigadeiro Tobias, nº 527, 3º andar, no bairro da Luz, São Paulo - SP, atende de segunda a sexta feira, das 9:00 à 18:00 horas. Telefone: (11) 3311-3555, e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (fonte: http://www.guiadedireitos.org/)

Fonte:  Islam Q&A

Tradução e Adaptação: Islane Castelo


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