A Herança do Paraíso - Shaykh al-Albaani (rahimahullaah)

 

Fonte: alkhawf wa rrajaa – medo e esperança (em Allah) – fita nº 1

 

Abu Huraira (radi Allahu ‘anhu) disse que o Mensageiro de Allah (sallAllahu ‘alayhi wa sallam) disse: “Quem teme (a Allah) começa o seu dia ainda de noite,[1] e quem começa o dia ainda de noite alcançará o objetivo. Por certo, os bens de Allah são caros; por certo, os bens de Allah são o Paraíso.”[2]

 

Shaykh al-Albaani (rahimahullaah) comenta:

O significado disso é que há um preço para se adentrar o Paraíso e que isso não acontece ao se sentir a salvo (do plano de Allah) e at-tawaakul (confiança em Allah), não tomando nenhuma atitude e dizendo 'Allah vai me prover', mas, sim, acontece ao se fazer as boas açōes e (junto disso) at-tawaakul, buscando os meios e colocando a confiança em Allah, o Altíssimo. Diz Allah, O Poderoso, O Imponente: "E dize, (Ó Muhammad), 'Laborai: então, Allah verá vossas obras e (também) Seu Mensageiro e os crentes'." [3]

Este hadith está em acordo com o seguinte nobre versículo:

"E eis o Paraíso, que vos fizeram herdar, pelo que fazíeis (na vida terrena)",[4]

e com a outra ayah:

"Entrai no Paraíso pelo (bem) que fazíeis (na terra)." [5]

Aqui, muitos estudiosos que participam no estudo da Sunnah ficam em dúvida quando leem ou ouvem o hadith do Profeta (‘alayhi ssalaat wa ssalaam) que se encontra nos dois Saheeh[6], onde ele disse: "'Nenhum de vós entrará no Paraíso por suas (boas) açōes, mas, sim, pelo Favor de Allah e Sua Misericórdia'. Os companheiros perguntaram: 'Nem mesmo tu, Mensageiro de Allah?' Ele (‘alayhi ssalaat wa ssalaam) respondeu, 'Nem mesmo eu, a não ser que Allah me encubra com Seu Favor e Misericórdia.'" [7]

 

Parece que há uma contradição entre este hadith e o versículo citado e, ainda, o hadith que iniciou este texto: "Por certo, os bens de Allah são caros; por certo, os bens de Allah são o Paraíso.” Portanto, há um preço (a se pagar) pelo Paraíso e os dois versículos apontados mostram que o preço são as boas ações, e não há dúvida que boas açōes não beneficiam aquele que as realiza a menos que ele seja um verdadeiro crente em Allah e Seu Mensageiro (sallAllahu ‘alayhi wa sallam). Ou seja, o preço do Paraíso é o Iman (fé) e as boas açōes. Então como conciliar esses três textos - o fato que aprendemos com o hadith "os bens de Allah são caros", os dois aayaat [versículos]  citados - mais o hadith: "Nenhum de vós entrará no Paraíso por suas (boas) açōes, mas, sim, pelo Favor de Allah e Sua Misericórdia"?

 

A resposta é: aquilo que é negado neste último hadith "nenhum de vós entrará no Paraíso por suas (boas) açōes" é uma coisa e aquilo que é confirmado no versículo "Entrai no Paraíso pelo (bem) que fazíeis" é outra coisa. O que é referido no aayah [versículo] é apenas a entrada no Paraíso, i.e., a chave para o Jannah, como é mencionado em alguns ditos de Wahb bin Munabbih no Saheeh al-Bukhaari: "... a chave para o Paraíso é laa ilaaha illAllaah (não há nada a ser adorado além de Allah)". [8] A chave para o Paraíso é a fé e as boas açōes. Mas se o muçulmano entra no Jannah e ele se beneficia daquilo (como dizem alguns ditos) "que olho algum já viu, nem ouvido ouviu, nem passou pela imaginação de qualquer ser humano",[9] então este tipo de deleite não pode ser alcançado através de qualquer "preço" que se pague, mas somente pelo Favor de Allah, O Poderoso, e Sua Misericórdia.

 

Então o preço para apenas entrar no Paraíso é o Iman e as boas açōes, enquanto que a natureza do contentamento vivido no Paraíso que mencionamos não tem preço; é impossível determinar um preço para isso. Por quê?

 

Consta no Saheeh Muslim, no hadith de Abdullah bin Mas’ood (radi Allaahu ‘anhu), que o Profeta (sallAllahu ‘alayhi wa sallam) disse: [10] "Por certo, eu sei quem é o último homem a sair do fogo (do inferno) e o último a entrar no Paraíso. O homem sairá do Fogo se rastejando." O significado disso é que ele sairá do Fogo tendo sido o mais punido entre os muçulmanos, portanto ele sai destruído, exausto. Portanto ele não é capaz de andar ereto como foi criado por Allah, o Imponente. Ele rasteja até que a vida lhe seja devolvida e seus membros voltem a ser ativos e enérgicos. Ele avança dessa maneira até que Allah, O Altíssimo, mostra-lhe uma grande árvore ao longe cuja beleza e esplendor o cativa. E ele deseja o Favor e Misericórdia de Allah depois d’Ele tê-lo salvo do castigo. O homem diz: 'Ó, Meu Senhor, leva-me até aquela árvore para que eu possa ser coberto por sua sombra , coma seus frutos e beba da sua água.' [11] Então Allah, que conhece melhor Seu servo, pergunta: "Você Me pediria por mais uma igual a ela?" Este responde: "Não, Meu Senhor, eu não pediria por outra além dela." Então Allah, O Altíssimo, leva-o até à árvore, onde ele é coberto por sua sombra, come de seus frutos e bebe de sua água. E aí, ele continua a se aproximar do Paraíso. Nisso, aparece outra árvore ainda maior, mais radiante e bonita que a primeira. Então ele a deseja e anseia cada vez mais pelo Favor de Allah, e procede da mesma forma que agiu com a outra e Allah procede da mesma forma, e pergunta: "Você Me pediria por mais uma desta?". E o homem diz: "Não, eu não pediria por mais uma além dela"; enquanto Allah tem mais conhecimento sobre ele e sabe que o homem continuará a pedir até que esteja dentro do Paraíso. Isso se estende até que ele chega perto da porta do Jannah, de forma que ele possa sentir sua fragrância e deleite e ele possa ouvir as vozes das pessoas lá dentro. Então, ele diz: "Ó, Meu Senhor, permita-me entrar no Paraíso", ou talvez ele diga "permita-me passar pela porta do Paraíso". E Allah, O Altíssimo, diz: "Entra no Paraíso, e haverá para ti o equivalente ao mundo e dez vezes mais". Então, o servo pergunta: "Estás a rir de mim enquanto Tu és O Senhor?" E aqui, o narrador deste hadith, Abdullah bin Mas'ood, riu-se. Ele foi perguntado por quem estava a ouvir o dito: "Por que tu ris-te?"; ao que respondeu: "Porque quando o Mensageiro de Allah (‘alayhi ssalaam) narrou esta parte do hadith, ele também riu-se. Ao perguntarem ao próprio Mensageiro (sallAllahu ‘alayhi wa sallam) (o motivo do riso), este disse: "Porque Allah, O Imponente, riu-se de Seu servo quando este perguntou: 'Estás a rir de mim enquanto Tu és O Senhor?'."

 

O que fica claro do hadith é que essa pessoa é a última a sair do inferno e a entrar no Paraíso, e ela terá o equivalente a este mundo e dez vezes mais. Então, será que essa pessoa mereceu esta vastidão no Paraíso por causa de suas (boas) açōes? Não, isso é por causa do Favor de Allah, O Majestoso, e Sua Misericórdia.

 

Assim, se tomarmos esta explicação detalhada, a contradição inicial desaparece. E este é um dos muitos exemplos de como as contradições aparecem para certas pessoas, mesmo aquelas sinceras, entre alguns textos derivados seja do Qur'an e da Sunnah ou de cada um individualmente.

 

O muçulmano não deve se apressar e, sim, refletir acerca dos dois textos; e, se conciliá-los não lhe parecer possível, ele deve perguntar a alguém acima dele (em conhecimento), como Nosso Senhor, O Altíssimo, disse:

"Então, interrogai os sábios da Mensagem, se não sabeis". [12]

 

Notas:

[1] Shaykh al-Albaani explica: “i.e., ele se dirige à prática das boas açōes antecipadamente, e se apressa em fazê-las.”

[2] Saheeh at-Tirmidhee #2450

[3] Surat ut-Tawbah, 9:105

[4] Surat uz-Zukhruf, 43:72

[5] Surat un-Nahl, 16:32

[6] os dois saheehs, i.e. Saheeh al-Bukhaari e Saheeh Muslim

[7] Saheeh al-Bukhaari #5673, Saheeh Muslim #2816

[8] Saheeh al-Bukhaari, Livro 23, Capítulo 1

[9] Saheeh al-Bukhaari #4779

[10] o seguinte inclui as narrações no Saheeh Muslim #186 and #187, em adição aos comentários do Sheikh

[11] a frase, “coma seus frutos”, é encontrada no Saheeh aj-Jaami’ #1557 e atribuída à segunda árvore

[12] Surat ul-Ambiyaa, 21:7

Asaheeha translations

 

Tradução e Adaptação: Amália Mazloum


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